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Política

Flávio Bolsonaro se declara presidente legítimo do Brasil

By Régis Andrade
28 de outubro de 2026 8 Min Read
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Senador derrotado divulga carta em Miami, chama Lula de regime de exceção e agradece Trump e Milei após deixar o Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial de 2026, transformou sua saída do território brasileiro em um ato político de confrontação institucional ao divulgar, na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, uma carta na qual se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e agradece nominalmente aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pelo que descreveu como acolhimento e suporte durante a operação que o levou de Foz do Iguaçu a Miami, passando por Puerto Iguazú e Guayaquil. O documento, entregue à imprensa pelo aliado Paulo Figueiredo no lugar de uma entrevista coletiva que o senador havia marcado e depois cancelou, foi o primeiro pronunciamento público de Flávio desde que deixou o país, na noite de terça-feira, 27, descumprindo ordem judicial que o proibia de sair e determinava a entrega de seus passaportes.

A carta começa com uma saudação direta que não deixa margem a interpretação ambígua. “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, escreveu o senador, antes de agradecer a Milei “pela coragem, senso de justiça e legalidade” e a Trump e ao “maravilhoso povo americano por me acolher”, definindo os Estados Unidos como “uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país”. A menção elogiosa a Trump é acompanhada da qualificação do presidente americano como “um grande defensor da liberdade de expressão”, um endosso que aparece no mesmo parágrafo em que o senador sugere que sua saída do Brasil contou com articulação estrangeira.

A alegação central do documento é a de que teria havido uma “fraude eleitoral” no segundo turno, vencido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 51,79% dos votos válidos, em uma virada sobre os mais de 59 milhões de votos obtidos por Flávio no primeiro turno. O senador sustenta a tese com base na prorrogação do horário de votação por duas horas, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, após interrupções no transporte público em capitais brasileiras. Flávio classifica a decisão como “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” e afirma que a medida foi tomada “por cima da competência do TSE”, permitindo que eleitores fossem submetidos a “regras diferentes” no “apagar das luzes”.

Os números do Tribunal Superior Eleitoral, no entanto, desmontam a narrativa. Apenas 34 mil eleitores votaram em todo o país durante o período de prorrogação, dos quais 29.001 o fizeram nos primeiros cinco minutos após as 17h, horário original de fechamento das urnas. Entre 17h e 19h06, foram computados 5.329 votos adicionais, volume insuficiente para alterar uma diferença de 4,4 milhões de votos que separou Lula de Flávio no resultado final. O próprio comando da campanha bolsonarista recuou da promessa de pedir a anulação do pleito menos de 24 horas após o anúncio inicial, concentrando a ofensiva jurídica em supostos abusos de poder político e econômico, uma mudança de estratégia atribuída diretamente aos dados do TSE.

A operação que levou Flávio ao exterior foi meticulosamente construída para contornar a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que na segunda-feira, 26, havia determinado a entrega dos passaportes comum e diplomático do senador em 24 horas e o proibido de deixar o país. Flávio não cumpriu a determinação. Na terça-feira, 27, Moraes ordenou o cancelamento dos documentos, e a Polícia Federal os invalidou ao meio-dia. O senador, no entanto, já havia cruzado a fronteira horas antes. Registros migratórios argentinos mostram que ele entrou no país vizinho pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, às 22h50 de terça-feira, utilizando um passaporte italiano obtido em 2023, durante o governo de Giorgia Meloni. A esposa, Fernanda Bolsonaro, e uma das filhas entraram com passaportes brasileiros; a outra filha utilizou apenas o Registro Geral.

De Puerto Iguazú, a família decolou em um jato particular com destino a Guayaquil, no Equador, onde a aeronave pousou na manhã de quarta-feira. O trecho final da rota levou o grupo ao aeroporto executivo de Opa Locka, no condado de Miami-Dade, com pouso registrado às 10h24 no horário de Brasília. Para entrar nos Estados Unidos, Flávio utilizou o passaporte diplomático brasileiro que havia sido cancelado pela PF, um detalhe que reforça o caráter de descumprimento deliberado da decisão judicial e que foi confirmado por fontes policiais e pela imprensa. A Polícia Federal informou que não há registro de passagem do senador por nenhum posto de controle migratório brasileiro, o que indica que a saída do território nacional ocorreu sem submissão aos procedimentos formais de fiscalização.

O governo argentino negou participação institucional na operação, mas fontes ligadas ao governo de Milei e registros de entrada confirmam que a travessia foi facilitada. O consulado argentino em Brasília permaneceu aberto durante toda a noite de segunda-feira, alimentando a especulação de que a hipótese de pedido de asilo já era considerada. O presidente do American Council, Simón Levy, chegou a declarar que “Flávio Bolsonaro está vivo graças a Milei”, sugerindo uma coordenação que envolveria também o senador Marco Rubio e a administração Trump. O Departamento de Estado americano sinalizou que concederia vistos à família, e aliados do senador afirmaram que a administração Trump estava preparada para lhe oferecer asilo político. A revelação de que o governo americano participou do planejamento para retirar Flávio, Fernanda e as duas filhas do Brasil foi publicada inicialmente pela Folha de S.Paulo e repercutida por veículos argentinos, que ouviram do governo Milei uma negação categórica de envolvimento.

A reação do presidente Lula foi imediata e não poupou o adversário. Na terça-feira, 27, antes mesmo da divulgação da carta, Lula afirmou que “o cidadão que sai escondido do seu país é porque deve alguma coisa ou tem medo de alguma coisa” e lamentou “a falta de respeito que ele teve com os eleitores dele e com a democracia”. No dia seguinte, ao comentar a fuga, o presidente classificou o episódio como “vergonhoso” e disse que tentou fazer com que Flávio “demonstrasse que era honesto entregando papéis à Justiça”, mas que o senador “não os entregou”. Lula também orientou ministros a evitar manifestações recorrentes sobre o caso, em uma tentativa de conter a exploração política do episódio e preservar o discurso de pacificação nacional que marcou sua reeleição.

A saída do país tem consequências diretas para a situação jurídica do senador. Flávio é alvo de dois inquéritos no STF. O primeiro, sob relatoria de Alexandre de Moraes, apura suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas, em investigação que envolve o advogado Willer Tomaz e que levou ao bloqueio de até 6 bilhões de reais em bens e valores vinculados ao advogado, além da quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial. A PF identificou uma conta da empresa Alcazar Holdings, ligada a Willer, na qual Flávio aparecia como usuário com acesso privilegiado, identificado como “master”, e busca esclarecer a natureza dessa vinculação e se houve movimentações financeiras realizadas pelo parlamentar. O segundo inquérito, sob responsabilidade do ministro André Mendonça, investiga o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e mira repasses do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, à produção. A negociação envolveria cerca de 134 milhões de reais.

A derrota eleitoral ampliou a exposição judicial de Flávio. Caso tivesse vencido a eleição, a Constituição impediria que ele fosse responsabilizado por atos cometidos fora do mandato presidencial, o que poderia suspender ou retardar o avanço das investigações. Com a derrota, os inquéritos devem prosseguir, e a expectativa é de que o STF analise novas diligências e os elementos já reunidos pelos investigadores. O senador também deixará o Congresso em 2027, mas poderá continuar respondendo no Supremo por fatos relacionados ao exercício do mandato, o que mantém o foro privilegiado para os episódios sob apuração.

O simbolismo do documento não se esgota no conteúdo. A primeira versão da carta enviada a jornalistas trazia no cabeçalho uma versão antiga do Brasão de Armas da República com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com a grafia em inglês e a letra “z”, acompanhada da data de 15 de novembro de 1989. O brasão original foi instituído pelo Decreto número 4, de 19 de novembro de 1889, quatro dias após a Proclamação da República, e deixou de ser utilizado oficialmente em 1968. O nome “Estados Unidos do Brasil” vigorou até 1967, quando o país passou a se chamar República Federativa do Brasil, durante a ditadura militar. A grafia com “z” foi abolida da língua portuguesa há 95 anos. Treze minutos após o envio da primeira versão, Paulo Figueiredo compartilhou uma segunda, com o brasão atual, e escreveu: “versão com brasão correto”. A alteração nunca foi explicada.

A escolha do brasão antigo e da denominação “Estados Unidos do Brazil” não é um detalhe acidental. Ao evocar um ordenamento institucional anterior, o documento busca construir simbolicamente a ideia de que o Brasil atual seria uma anomalia, um regime do qual o senador se retira não por fuga, mas por exílio voluntário. “Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece”, escreveu Flávio na carta, antes de completar: “Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um País livre”. O senador anunciou que pretende comandar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos e prometeu apresentar “uma estratégia de mobilização” de seus apoiadores nos próximos dias.

A autoproclamação como “presidente eleito” não tem qualquer validade jurídica. O resultado da eleição foi ratificado pelo TSE, e a comunidade internacional, com a exceção notável dos Estados Unidos, reconheceu a vitória de Lula. O governo Trump, aliás, chegou a segurar a publicação de um comunicado parabenizando o Brasil pela eleição depois que Flávio declarou que não reconhecia a vitória do petista, em um movimento que expôs a tensão entre o alinhamento ideológico da Casa Branca e a Realpolitik das relações com o maior país da América Latina. O episódio, no entanto, aprofunda a crise política e institucional brasileira e lança uma sombra de incerteza sobre os desdobramentos da oposição bolsonarista conduzida do exterior, em um momento em que as instituições brasileiras tentam preservar a normalidade democrática diante de um ato que combina desobediência judicial, retórica golpista e busca de legitimação internacional.

Fontes consultadas: O Globo, Estadão, CNN Brasil, G1, Agência Brasil, Carta Capital, BBC News Brasil, Xinhuanet, La Nación (Argentina), Infobae (Argentina), Página/12 (Argentina), Folha de S.Paulo, Metrópoles, Band, Jornal da Razão, TV Brasil, Diário do Centro do Mundo, GCMAIS, Tribuna do Norte, R7, Portal CGN, Agência Lupa.

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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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