A rotina intensa, metas agressivas e a pressão constante por resultados levaram a empresária e criadora de conteúdo Carla Ramalho, de 34 anos, a um limite que ela mesma demorou a reconhecer. Durante meses, sinais claros de esgotamento se acumularam, como insônia persistente, irritabilidade, lapsos de memória e queda significativa de desempenho. Ainda assim, tudo era tratado como parte normal do trabalho em uma multinacional, onde jornadas longas e cobrança excessiva faziam parte do cotidiano.
O diagnóstico de burnout só veio após um longo período de negligência com a própria saúde. Carla chegou a ser afastada por 15 dias, mas, ao tentar retornar às atividades, sofreu uma crise de pânico. O episódio foi decisivo para que ela pedisse demissão. Segundo a empresária, o medo de ser vista como fraca e o preconceito em torno da saúde mental atrasaram a busca por ajuda, uma realidade que ela afirma ser comum entre profissionais de diferentes áreas.

Casos como o de Carla ajudam a ilustrar um fenômeno que cresce de forma acelerada no Brasil. Os afastamentos por burnout e outros transtornos relacionados ao trabalho dispararam nos últimos anos e passaram a pressionar diretamente a Previdência Social. Dados do Ministério da Previdência indicam que os auxílios concedidos por esgotamento profissional cresceram 493 por cento entre 2021 e 2024, um salto que acendeu o alerta entre especialistas e gestores públicos.
Somente em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social concedeu cerca de 472 mil auxílios ligados a problemas de saúde mental. Já em 2025, esses transtornos passaram a representar um em cada sete afastamentos registrados, mostrando que a questão deixou de ser pontual e assumiu proporções estruturais no mercado de trabalho brasileiro.
Especialistas apontam que os números podem ser ainda maiores. Muitos casos de burnout não são corretamente identificados, seja por diagnósticos equivocados, seja pela dificuldade de diferenciar o esgotamento de outras condições emocionais. Além disso, trabalhadores informais, autônomos e profissionais sem vínculo empregatício formal ficam fora das estatísticas oficiais, o que contribui para a subnotificação do problema.
O impacto financeiro também é significativo. As despesas com auxílios relacionados à saúde cresceram 68 por cento entre 2022 e 2024, acompanhando a escalada dos afastamentos. No mesmo período, os gastos totais da Previdência Social também registraram aumento, ampliando o debate sobre sustentabilidade do sistema e a necessidade de políticas preventivas no ambiente de trabalho.
Para Carla, falar abertamente sobre o tema é parte do processo de mudança. Ela defende que empresas precisam rever práticas de cobrança excessiva e que trabalhadores devem ser incentivados a cuidar da saúde mental sem medo de julgamentos. Segundo ela, enquanto o esgotamento continuar sendo tratado como fraqueza individual e não como um problema coletivo, os números seguirão crescendo, assim como o custo humano e financeiro dessa crise silenciosa.