Anvisa liberta Aquipta, inédito remédio oral voltado para prevenção da enxaqueca
Aquipta, da AbbVie, é o segundo comprimido do tipo gepante liberado no país para prevenir enxaqueca crônica e episódica
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária concedeu registro sanitário ao Aquipta, comercialmente derivado do princípio ativo atogepanto hidratado, primeiro comprimido da AbbVie voltado exclusivamente à prevenção das crises de enxaqueca no país. A liberação foi formalizada por meio da Resolução RE nº 3.458, de 3 de setembro de 2026, publicada no Diário Oficial da União, com validade do registro sanitário estendida até setembro de 2036.
Com a decisão, passa a existir no mercado brasileiro uma segunda opção oral dentro da classe farmacológica dos gepants, grupo de medicamentos criado para agir diretamente sobre o mecanismo biológico que desencadeia as crises, e não apenas sobre seus sintomas.
O mecanismo de ação por trás do comprimido
O atogepanto atua bloqueando o receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, substância conhecida pela sigla CGRP e amplamente associada à transmissão da dor durante os episódios de enxaqueca. Ao impedir que essa molécula se ligue ao receptor, o medicamento reduz a ativação das vias neurológicas responsáveis por deflagrar as crises, atuando de forma preventiva e contínua, e não apenas no alívio pontual de uma dor já instalada.
Uma via diferente da usada por tratamentos antigos
Historicamente, boa parte dos medicamentos empregados na prevenção da enxaqueca não foi criada para esse fim. Anticonvulsivantes, antidepressivos e anti-hipertensivos passaram a ser prescritos de forma adaptada, por apresentarem algum efeito secundário sobre a frequência das crises, ainda que sua função original fosse tratar outras condições. O atogepanto rompe esse padrão, já que foi concebido desde o início do seu desenvolvimento para agir especificamente sobre a via do CGRP, tida como um dos principais mecanismos fisiopatológicos da doença.
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Apresentações liberadas e público a que se destina
O registro aprovado contempla dois formatos do comprimido, um de 10 miligramas e outro de 60 miligramas, ambos comercializados em embalagens com 28 unidades e destinados ao uso contínuo, em dose única diária. A indicação abrange adultos diagnosticados tanto com enxaqueca episódica quanto com a forma crônica da doença, desde que apresentem, no mínimo, quatro episódios mensais e respondam de maneira insuficiente às terapias atualmente disponíveis.
O que os estudos de fase 3 demonstraram
A eficácia do atogepanto foi sustentada por dois grandes ensaios clínicos de fase 3, conduzidos antes da submissão do registro à agência brasileira.
O primeiro, batizado de ADVANCE e publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou 910 adultos com enxaqueca episódica, todos apresentando entre quatro e 14 dias de crise por mês antes do início do tratamento. Ao longo de 12 semanas, os participantes que receberam a dose de 60 miligramas uma vez ao dia tiveram redução média de 4,2 dias mensais de enxaqueca, contra 2,5 dias no grupo que recebeu placebo, uma diferença atribuível ao tratamento de 1,7 dia por mês. O estudo também apontou que 60,8% dos pacientes tratados alcançaram redução de pelo menos metade na frequência das crises, proporção que caiu para 29% entre os que receberam placebo.
O segundo ensaio, o PROGRESS, teve seus resultados publicados na revista The Lancet e avaliou 778 adultos com enxaqueca crônica, que no início da pesquisa relatavam, em média, cerca de 19 dias de dor por mês. Após 12 semanas de acompanhamento, o grupo tratado com 60 miligramas de atogepanto apresentou redução média de 6,9 dias mensais de enxaqueca, ante 5,1 dias no grupo placebo. Nesse recorte, 41% dos pacientes tratados tiveram redução de ao menos metade na frequência das crises, contra 26% no grupo de controle.
Ambos os ensaios foram financiados pela Allergan, companhia posteriormente incorporada à estrutura da AbbVie.
Segurança e efeitos colaterais relatados
Em ambos os estudos, o perfil de segurança do atogepanto se manteve consistente, com predominância de eventos adversos classificados como leves a moderados. Constipação intestinal e náusea figuraram entre as reações mais frequentemente relatadas pelos participantes, tendo ocorrido, no braço de enxaqueca crônica, em cerca de 10% dos pacientes que receberam a dose de 60 miligramas. Cansaço, sonolência e redução do apetite também constam entre os efeitos colaterais possíveis descritos na bula do produto.
Segundo especialistas em neurologia, a possibilidade de atuar diretamente sobre o CGRP representa um avanço relevante frente a terapias que, até então, dependiam de mecanismos indiretos e menos específicos para reduzir a frequência das crises.
O caminho até a chegada às farmácias
A aprovação sanitária concedida pela Anvisa certifica a qualidade, a segurança e a eficácia do Aquipta, mas não assegura, por si só, disponibilidade imediata do produto ao consumidor. Antes de chegar às prateleiras das farmácias brasileiras, o medicamento ainda depende da definição de preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, etapa regulatória sob responsabilidade do governo federal.
A AbbVie afirmou não ter, até o momento, previsão de custo nem data de lançamento comercial no país, uma vez que os valores praticados variam de mercado para mercado. A companhia informou ainda que o atogepanto já é comercializado nos Estados Unidos e em países da Europa, onde acumula histórico de uso desde sua aprovação nessas regiões.
O peso da enxaqueca fora do consultório
A enxaqueca é classificada pela medicina como doença neurológica crônica, caracterizada por crises recorrentes de dor de cabeça de intensidade moderada a grave, frequentemente acompanhadas de náuseas, vômitos e sensibilidade exagerada à luz e ao som. Estimativas citadas pela própria Anvisa indicam que a condição atinge cerca de 15% da população mundial, com reflexos diretos sobre produtividade no trabalho, convívio familiar e qualidade de vida de quem convive com as crises.
Nos Estados Unidos, a classe terapêutica dos gepants ganhou visibilidade adicional depois que a cantora Lady Gaga, que relata conviver com enxaqueca desde a adolescência, associou sua imagem a campanhas de conscientização sobre o tratamento da doença. Pesquisas ainda em curso buscam esclarecer se existem diferenças clinicamente relevantes entre o atogepanto e outras moléculas da mesma classe, incluindo possíveis efeitos em quadros de enxaqueca associada ao ciclo menstrual e o uso combinado com toxina botulínica, temas que devem seguir em investigação nos próximos anos.
Fontes consultadas: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Diário Oficial da União, AbbVie Farmacêutica Ltda., New England Journal of Medicine (estudo ADVANCE) e The Lancet (estudo PROGRESS).