Após crise e perda do fundador, Ana Lúcia assume a Cerbras, reergue a empresa e transforma em referência nacional com presença internacional
A consolidação da Cerbras como uma das principais indústrias de revestimentos cerâmicos e porcelanatos do Brasil está diretamente ligada a uma história marcada por ruptura, reconstrução e decisões tomadas sob forte pressão. Instalada em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, a empresa nasceu em 1990, idealizada pelo empresário cearense José Tarcísio Mota Sá, em um momento em que o setor industrial nordestino ainda buscava ampliar sua competitividade no cenário nacional.
O projeto inicial tinha perfil familiar e foco regional, com produção voltada ao abastecimento interno e crescimento gradual. Esse planejamento, no entanto, foi abruptamente interrompido em 1994, com a morte precoce do fundador. A partir desse episódio, a empresa passou por uma mudança estrutural profunda, tanto na gestão quanto na condução estratégica.
Sem formação técnica no segmento e sem trajetória anterior no setor industrial, Ana Lúcia Bastos Mota assumiu o comando da Cerbras em um dos momentos mais delicados da história da companhia. A nova presidente precisou enfrentar simultaneamente o luto pessoal, a responsabilidade sobre a empresa e a condução da família, em um ambiente corporativo majoritariamente masculino e pouco receptivo à liderança feminina naquele período.
Os primeiros anos foram marcados por instabilidade. A empresa enfrentou dificuldades financeiras relevantes, com impactos diretos na operação e no quadro de funcionários. Houve períodos em que os salários estavam atrasados, refletindo a gravidade da situação econômica vivida pela indústria. A insegurança sobre o futuro do negócio se tornou uma constante, tanto para a gestão quanto para os colaboradores.
A pressão acumulada ao longo desse processo atingiu um ponto crítico cerca de seis anos após a perda do fundador. Diante do cenário adverso e da responsabilidade contínua, Ana Lúcia chegou a cogitar desistir da própria vida, evidenciando o nível extremo de desgaste emocional enfrentado naquele período. Ainda assim, a decisão foi pela permanência e pela tentativa de reverter a situação.
A retomada começou de forma gradual, baseada em reestruturação interna, controle de custos e alinhamento com a equipe. A recuperação ganhou consistência até que, em 2002, a empresa conseguiu sair do vermelho e estabilizar sua operação financeira. Esse marco representou uma virada definitiva na trajetória da Cerbras.
A partir da estabilização, a estratégia passou a priorizar crescimento estruturado. A empresa investiu na ampliação do parque industrial, modernização tecnológica e qualificação dos processos produtivos. Paralelamente, buscou certificações de qualidade, fundamentais para ampliar credibilidade e competitividade no mercado.
Com a consolidação interna, a Cerbras iniciou sua expansão internacional. A atuação passou a incluir exportações para mais de 30 países, ampliando significativamente sua presença fora do Brasil e diversificando suas fontes de receita. Esse movimento contribuiu para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a marca no setor.
Hoje, a empresa opera com um modelo de gestão que combina experiência familiar e profissionalização. Os filhos da empresária participam da direção, dando continuidade ao negócio com visão de longo prazo. A estrutura atual conta com aproximadamente 1.300 colaboradores e capacidade produtiva de cerca de 3.700.000 metros quadrados de porcelanato por mês, posicionando a Cerbras entre os principais players da indústria cerâmica nacional.
A trajetória evidencia um processo de reconstrução que ultrapassa o âmbito empresarial. A transformação de uma empresa em crise em uma organização sólida e competitiva revela um conjunto de fatores que incluem resiliência, disciplina de gestão e capacidade de adaptação em cenários adversos. Ao longo dos anos, a Cerbras deixou de ser apenas uma indústria regional para se tornar uma referência no setor, com presença internacional e relevância no mercado brasileiro.