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Mundo Animal

Cobra e lagarto exclusivos do Ceará entram na lista nacional de espécies ameaçadas de extinção

By Estagiário
28 de junho de 2026 4 Min Read
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Dois répteis que só existem no Ceará entram para a lista oficial de espécies sob risco de desaparecer no Brasil

O calango-de-limaverde e a serpente coral-de-lema, dois répteis endêmicos das serras úmidas cearenses, passaram a integrar oficialmente a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção. A atualização foi publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e acrescentou 180 novos nomes ao rol, que agora totaliza 790 animais em perigo no território brasileiro. O reconhecimento federal é visto por pesquisadores como um divisor de águas para a proteção dessas espécies, cuja sobrevivência está diretamente ligada a fragmentos muito restritos de Mata Atlântica encravados no semiárido nordestino.

O calango-de-limaverde, descrito pela ciência como Dryadosaura limaverdei, é um pequeno lagarto que não ultrapassa poucos centímetros de comprimento e carrega o nome de uma localidade emblemática do Maciço de Baturité. Sua distribuição conhecida se limita a menos de cinco municípios, todos situados em áreas de floresta serrana com altitudes superiores a 600 metros. Já a coral-de-lema, cujo nome científico é Micrurus lemniscoides, habita exclusivamente enclaves de brejo de altitude e matas serranas do interior cearense. A serpente, de padrão anelado característico e veneno neurotóxico de alta potência, nunca foi registrada fora dos limites geográficos do estado, o que torna qualquer ameaça ao seu habitat um risco direto de extinção.

A inclusão na lista nacional não tem caráter meramente simbólico. Ela desencadeia uma série de mecanismos legais e administrativos que ampliam as possibilidades de conservação. A partir de agora, qualquer empreendimento que pretenda se instalar nas áreas de ocorrência desses répteis terá de passar por estudos de impacto ambiental mais rigorosos e específicos. Além disso, o status de ameaçado viabiliza o acesso a linhas de financiamento federais voltadas exclusivamente à pesquisa e à proteção de espécies em perigo, bem como a priorização de recursos para a criação e manutenção de unidades de conservação.

Especialistas que atuam na região destacam que a medida também fortalece a candidatura dessas espécies à Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, a UICN. O reconhecimento internacional ampliaria o escopo de cooperação técnica e financeira, atraindo a atenção de organizações não governamentais e fundos globais dedicados à biodiversidade. A curadora da Coleção Herpetológica da Universidade Regional do Cariri, que liderou os estudos de campo que embasaram a proposta de inclusão, afirma que o status de ameaça era uma demanda antiga da comunidade científica local. Os dados apresentados ao Ministério do Meio Ambiente demonstraram que tanto o calango quanto a coral enfrentam declínio populacional acelerado em razão do desmatamento, da expansão agrícola e da fragmentação das matas serranas.

Os brejos de altitude cearenses funcionam como ilhas verdes em meio à Caatinga, abrigando espécies que remontam a períodos geológicos em que a Mata Atlântica se estendia por uma área muito maior do continente. Essa condição de isolamento milenar favoreceu o surgimento de formas únicas de vida, mas também as tornou extremamente vulneráveis a perturbações ambientais. O calango-de-limaverde, por exemplo, depende de serapilheira úmida e troncos em decomposição para se alimentar de pequenos invertebrados e se proteger de predadores. A retirada da cobertura florestal para o cultivo de banana e café, atividades econômicas predominantes nessas serras, suprime o micro-habitat essencial à espécie. A coral-de-lema, por sua vez, sofre com a matança indiscriminada motivada pelo medo humano, além de ser impactada pela construção de estradas e residências que avançam sobre as encostas.

A nova lista federal reúne agora 790 animais sob algum grau de ameaça, distribuídos nas categorias Vulnerável, Em Perigo e Criticamente em Perigo. A portaria que oficializa a relação é assinada pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima e publicada no Diário Oficial da União. O documento é resultado de um trabalho colaborativo que envolveu dezenas de instituições de pesquisa, sociedade civil e órgãos governamentais, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A atualização ocorre em meio a um contexto de aceleração da perda de biodiversidade no planeta, com relatórios internacionais apontando o risco de desaparecimento de mais de um milhão de espécies nas próximas décadas caso não haja mudanças significativas nos padrões de uso da terra e no enfrentamento das mudanças climáticas.

No Ceará, a expectativa é que o novo status impulsione a elaboração de Planos de Ação Nacional específicos, instrumentos que reúnem estratégias detalhadas de manejo, pesquisa e educação ambiental para reverter o declínio populacional das espécies. Também se espera que os municípios que abrigam esses répteis sejam contemplados em programas de pagamento por serviços ambientais, compensando proprietários rurais que preservarem os fragmentos florestais remanescentes. A construção de corredores ecológicos conectando as serras úmidas cearenses é outra medida considerada prioritária para garantir a variabilidade genética e a viabilidade de longo prazo dessas populações isoladas.

A história dessas duas espécies resume, em escala local, o paradoxo da biodiversidade brasileira. De um lado, o país abriga a maior riqueza de répteis do mundo, com centenas de espécies endêmicas que sequer foram completamente estudadas. De outro, a transformação acelerada dos ecossistemas ameaça silenciosamente formas de vida que existem em um único ponto do mapa, sem que a sociedade tome conhecimento. O calango-de-limaverde e a coral-de-lema agora saem da invisibilidade burocrática e ganham um lugar na lista que, espera-se, seja o primeiro passo para que continuem a habitar as serras cearenses por muitas gerações.

Fontes: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Coleção Herpetológica da Universidade Regional do Cariri, União Internacional para a Conservação da Natureza, Diário Oficial da União.

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biodiversidade ameaçadabrejos de altitudeconservação no Cearálista vermelha brasileirarépteis endêmicos
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