Crianças em Gaza se unem para ver ‘O Rei Leão’ entre escombros e registro repercute na internet
Crianças se reúnem em bairro destruído da Cidade de Gaza para assistir a clássico da Disney e imagem viraliza
Em uma tarde de domingo, 30 de agosto de 2026, o bairro de Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza, testemunhou uma cena que parecia suspender o tempo. Entre prédios reduzidos a escombros, montanhas de entulho e fileiras de tendas que abrigam famílias deslocadas, dezenas de crianças palestinas se reuniram ao ar livre para assistir a uma exibição de “O Rei Leão”, o clássico animado da Disney lançado em 1994. Sentadas diretamente sobre a areia e os destroços, com os olhos fixos em uma tela improvisada, elas acompanharam as aventuras de Simba, Timon e Pumba enquanto, ao redor, permaneciam as marcas indeléveis de quase três anos de conflito.
A sessão foi organizada pelo Little Wings Cinema, projeto itinerante vinculado ao Masharawi Fund for Films and Filmmakers, organização independente fundada em novembro de 2023 pelo cineasta palestino Rashid Masharawi. A iniciativa funciona como continuação do Festival de Cinema Infantil de Gaza e integra os programas Hope Festivals-Gaza 2026, concebidos para devolver às crianças afetadas pela guerra espaços de convivência, expressão e alívio emocional. Desde novembro de 2025, o projeto percorre diferentes áreas da Faixa de Gaza — escolas, abrigos, acampamentos e até ruas — levando telas móveis, projetores e uma programação que inclui não apenas filmes, mas também atividades recreativas como pintura facial, jogos e músicas conduzidas por animadores.
A coordenadora de projetos do Masharawi Fund em Gaza, Jafa Masharawi, explicou que o objetivo central é transmitir às crianças a mensagem de que aquelas atividades são feitas para elas e por elas. Segundo ela, o projeto busca afirmar que a criança palestina tem direito a viver com segurança e paz, e a acessar todos os seus direitos, inclusive os mais simples, especialmente durante a guerra e a destruição. A coordenadora do Little Wings Cinema, Asma Dababesh, acrescentou que a iniciativa representa uma tentativa de oferecer às crianças uma pausa temporária do medo e da insegurança que marcam o cotidiano no território. Cada sessão dura aproximadamente três horas e começa com a organização do espaço e a acomodação das crianças, seguida por atividades artísticas e musicais antes da exibição do filme principal. Entre os títulos já projetados estão “Ratatouille”, “Up: Altas Aventuras” e “Enrolados”.
O registro visual da sessão de Sheikh Radwan foi feito pelo fotógrafo palestino Omar Ashtawy, de 21 anos, fotojornalista baseado na Cidade de Gaza que trabalha para a agência APA Images. Ashtawy cobre notícias de última hora, desdobramentos de campo e histórias humanas em uma das regiões mais desafiadoras do mundo. Em 2025, ele foi um dos vencedores do Ian Parry Photojournalism Grant, prêmio internacional que reconhece talentos emergentes do fotojornalismo, e foi selecionado pela Save the Children para uma comissão especial. A fotografia que capturou as crianças assistindo ao filme ao pôr do sol, com os escombros ao fundo, rapidamente se espalhou pelas redes sociais. A missão das Nações Unidas na Palestina compartilhou a imagem em sua conta oficial na rede social X, ampliando a repercussão internacional e transformando o registro em um símbolo da resiliência infantil em meio à devastação.
A imagem também foi compartilhada por veículos de imprensa em diversos países, de Portugal a Cuba, da Rússia ao Brasil, do Reino Unido à Coreia do Sul, gerando uma onda de solidariedade internacional. Para muitos analistas, o episódio evidencia não apenas a crise humanitária em curso, mas também a determinação da sociedade civil palestina em preservar espaços de infância e dignidade mesmo nas condições mais adversas. O contraste entre a inocência das crianças diante da tela e o cenário de destruição que as cerca tornou-se o elemento central da comoção global.
Os números do conflito ajudam a dimensionar a realidade que cerca iniciativas como o Little Wings Cinema. De acordo com dados humanitários, aproximadamente 800 mil crianças permanecem deslocadas na Faixa de Gaza, vivendo em condições insalubres e superlotadas, marcadas por insetos, pragas e roedores, além de uma severa falta de privacidade. A população total de deslocados no território chega a cerca de 1,9 milhão de pessoas, o equivalente a quase 90% dos habitantes. Mais de 64 mil crianças foram mortas ou feridas desde outubro de 2023, incluindo pelo menos 300 mortes reportadas nos 300 dias seguintes ao anúncio de um cessar-fogo em outubro de 2025. Dados do Escritório Central de Estatísticas da Palestina apontam que 43% da população de Gaza é composta por crianças, e estimativas indicam cerca de 20 mil menores separados de suas famílias. Cerca de 7 mil crianças permanecem desacompanhadas ou separadas nos locais de deslocamento.
A sessão de “O Rei Leão” em Sheikh Radwan não foi um evento isolado. Poucos dias depois, em 10 de setembro de 2026, crianças deslocadas voltaram a se reunir no mesmo bairro para assistir a um filme em uma tela improvisada entre as ruínas de edifícios destruídos. As imagens, captadas por diferentes fotógrafos, entre eles Rizek Abdeljawad, da agência Xinhua, e Mohammed Saber, da EPA, reforçaram a dimensão do fenômeno. As exibições ocorrem aproximadamente a cada dois dias, em locais diferentes, com o objetivo de alcançar o maior número possível de crianças. Segundo informações do próprio Masharawi Fund, mais de 45 mil crianças já foram alcançadas pelas sessões do Little Wings Cinema, enquanto o festival infantil que precedeu o projeto atingiu mais de 12 mil menores em apenas um mês.
Os organizadores enfrentam dificuldades significativas para manter a programação. O transporte até as áreas de exibição é complexo, o fornecimento de eletricidade é limitado e intermitente, e as preocupações com a segurança são constantes. Ainda assim, o Masharawi Fund afirmou que pretende continuar realizando exibições regularmente em locais acessíveis até o final de 2026. A organização também prepara a segunda edição do Festival de Cinema de Gaza para Crianças, sob o lema “Amamos a vida, amanhã”, que incluirá sessões de cinema, oficinas de animação, teatro e desenho, criando espaços seguros onde as crianças possam expressar emoções e recuperar a confiança. O público-alvo do projeto são crianças de 3 a 12 anos, muitas das quais vivem em acampamentos improvisados após terem sido forçadas a deixar suas casas.
A fotografia de Omar Ashtawy tornou-se um marco visual do conflito. Em publicação no Instagram, o fotógrafo descreveu a cena que registrou como um raro momento de alegria em meio à devastação vivida pela população de Gaza. Para a coordenadora Asma Dababesh, as sessões de cinema oferecem às crianças a oportunidade de recuperar, ainda que brevemente, algo que a guerra lhes tirou: a possibilidade de sonhar, brincar e experimentar a infância em sua forma mais elementar. Enquanto a comunidade internacional segue debatendo cessar-fogo e reconstrução, iniciativas como o Little Wings Cinema continuam oferecendo, por algumas horas, um vislumbre do que a vida poderia ser se o conflito chegasse ao fim.
A fundação resume sua missão em uma frase que orienta todo o trabalho: “As histórias sobre nós não podem ser contadas sem nós”. E é precisamente isso que a imagem das crianças de Sheikh Radwan diante da tela, com os escombros ao redor, parece afirmar: mesmo em meio à destruição, a infância encontra maneiras de resistir.
Fontes consultadas: Granma, Mirror, Jornal de Notícias, The Hindu, Lusa, Azteca Jalisco, SOL, Felesteen, UNICEF, UNICEF USA, ReliefWeb, The Ian Parry Photojournalism Grant, Agência Anadolu, Opera Mundi, Xinhua, EPA, AP, Getty Images, APA Images.