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Histórias

Deitado em uma maca, estudante de Medicina desafia a paraplegia e comove o Brasil

By Régis Andrade
23 de agosto de 2026 6 Min Read
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Após levar cinco tiros e perder os movimentos da cintura para baixo, Leandro Silva de Sousa seguiu firme no sonho de ser médico

A manhã ainda não havia clareado completamente quando uma ambulância parou em frente ao prédio do curso de Medicina da Universidade Federal do Piauí. O movimento era silencioso, mas carregava uma rotina que já se tornara conhecida entre seguranças, funcionários da limpeza e os primeiros estudantes que chegavam para as aulas. De dentro do veículo, uma equipe retirava com cuidado uma maca onde estava deitado, de bruços, um jovem de 21 anos. Era Leandro Silva de Sousa. Ele não estava ali como paciente. Estava ali como aluno regularmente matriculado no curso mais disputado da instituição.

A cena, presenciada repetidamente ao longo de meses, sintetizava uma trajetória marcada por uma violência brutal e por uma decisão que poucos conseguiriam sustentar. Leandro não havia nascado com qualquer limitação física. Sua vida mudou de forma definitiva quando ele tinha 17 anos e tentou apartar uma briga entre amigos. No meio da confusão, foi atingido por cinco disparos de arma de fogo. Um dos projéteis atingiu a coluna vertebral e provocou uma lesão medular na altura da vértebra T11. A consequência imediata foi a perda dos movimentos e de parte significativa da sensibilidade da cintura para baixo. A paraplegia chegou sem aviso e transformou completamente o cotidiano do adolescente que, até então, tinha uma rotina comum, dividida entre estudos, família e projetos para o futuro.

A recuperação foi longa. Leandro passou por internações sucessivas, procedimentos cirúrgicos e um processo intenso de reabilitação. Foi exatamente nesse período, entre leitos, corredores hospitalares e consultas médicas, que ele encontrou um novo sentido para a própria existência. Ele decidiu que queria cursar Medicina. Não se tratava de uma decisão impulsiva ou motivada apenas pela admiração aos profissionais que cuidavam dele. Havia algo mais profundo. Leandro compreendeu, na prática, o que significava depender de cuidados qualificados, de atenção humanizada e de conhecimento técnico para continuar vivendo com dignidade. Ele queria oferecer a outras pessoas aquilo que recebeu nos momentos de maior fragilidade.

Antes de ingressar na faculdade de Medicina, Leandro já havia demonstrado um desempenho acadêmico notável. Ele foi aprovado em Direito e também em Ciência da Computação. Eram conquistas expressivas, mas nenhuma delas correspondia ao que ele realmente desejava. O objetivo central era a Medicina. A preparação exigiu dedicação absoluta. Foram anos de estudos, revisões, simulados e provas. A aprovação na Universidade Federal do Piauí veio como a confirmação de que o esforço tinha valido a pena. O ingresso no curso representava a realização de um sonho que sobreviveu à violência, às cirurgias e às limitações físicas.

A adaptação à vida universitária, no entanto, trouxe novos desafios. Leandro precisava permanecer sentado por longos períodos para acompanhar as aulas teóricas, participar de atividades em laboratório e estudar na biblioteca. Foi essa rotina prolongada na cadeira de rodas que provocou o surgimento de uma úlcera de pressão na região dos glúteos. A lesão evoluiu rapidamente e se tornou um problema de saúde grave. Os médicos responsáveis pelo acompanhamento foram claros na orientação. Leandro não poderia continuar sentado até que a ferida estivesse completamente cicatrizada. A recomendação era absoluta e não deixava margem para exceções. Ignorar a determinação médica poderia resultar em infecções severas, novas cirurgias e um risco real de comprometimento ainda maior da saúde.

O impasse estava criado. De um lado, havia a exigência médica inegociável. De outro, a recusa de Leandro em abandonar o curso ou trancar a matrícula. Ele não aceitava a ideia de interromper a formação por causa de uma complicação que, embora séria, poderia ser enfrentada com disciplina e criatividade. A solução encontrada foi radical e, ao mesmo tempo, simples. Leandro passou a assistir às aulas deitado de barriga para baixo em uma maca. A posição aliviava completamente a pressão sobre a área lesionada e permitia que ele continuasse acompanhando o conteúdo acadêmico sem violar as recomendações médicas.

A rotina era exaustiva. Todos os dias, Leandro era transportado de casa até a universidade em uma ambulância. O trajeto era realizado com extremo cuidado para evitar qualquer impacto que pudesse agravar a lesão. Ao chegar ao campus, ele era posicionado na maca e permanecia deitado de bruços durante toda a programação acadêmica. Havia dias em que a permanência chegava a oito horas contínuas. As costas doíam, os braços ficavam cansados e o desconforto era constante. Ainda assim, Leandro não se permitia reclamar. Ele estava ali para aprender e não havia espaço para autopiedade.

As atividades práticas também exigiram adaptações. O uso do microscópio, por exemplo, foi reorganizado para que Leandro pudesse operar o equipamento mesmo deitado. Professores e técnicos da universidade se mobilizaram para criar condições mínimas de acessibilidade sem comprometer a qualidade do aprendizado. O estudante, por sua vez, correspondia com um desempenho que impressionava. Ele não queria tratamento diferenciado em avaliações ou prazos. Queria apenas a oportunidade de continuar estudando.

A presença de Leandro na universidade chamava atenção. Muitos colegas de turma se revezavam para ajudar no que fosse necessário, mas ele sempre tentava fazer o máximo sozinho. A imagem do jovem deitado na maca, com cadernos abertos e atento às explicações dos professores, passou a simbolizar uma forma rara de resistência. A história se espalhou pelo campus e, depois, pelo país. A universidade recebeu mensagens de apoio de estudantes, profissionais de saúde e pessoas comuns que se sentiam inspiradas pela determinação daquele rapaz.

A úlcera de pressão levou meses para cicatrizar completamente. O tratamento exigiu paciência, curativos especializados, acompanhamento médico constante e uma disciplina absoluta. Quando a ferida finalmente fechou, Leandro passou por uma cirurgia plástica para reconstruir a pele da região afetada. O procedimento foi bem-sucedido e permitiu que ele voltasse a permanecer sentado na cadeira de rodas. A recuperação, no entanto, não significou o abandono imediato da maca. Leandro preferiu manter o hábito de assistir a algumas aulas teóricas deitado, por segurança. Ele sabia que uma nova úlcera poderia comprometer meses de esforço e colocar em risco a continuidade do curso.

Em julho de 2018, Leandro recebeu um convite que ampliou ainda mais sua experiência de reabilitação. O governo do estado de São Paulo o chamou para participar de um programa intensivo na Rede Lucy Montoro, uma das instituições mais respeitadas do país em medicina de reabilitação. Durante quatro semanas, ele passou por uma rotina estruturada de fisioterapia, terapia ocupacional, treinamento funcional e atividades voltadas para o desenvolvimento de autonomia. O objetivo era simples, mas transformador. Leandro precisava aprender a viver com o máximo de independência possível, apesar da paraplegia.

A experiência em São Paulo trouxe avanços significativos. Leandro voltou ao Piauí mais confiante e com maior controle sobre o próprio corpo. Ele aprendeu novas formas de se deslocar, de se posicionar na cadeira e de realizar tarefas cotidianas que antes pareciam impossíveis. O período também reforçou sua convicção de que a Medicina era, de fato, o caminho certo. Ele via na reabilitação uma especialidade que unia ciência, paciência e sensibilidade humana. Talvez fosse ali, naquele universo de recuperação, que ele pudesse construir uma carreira marcada pelo acolhimento.

Paralelamente, uma campanha solidária mobilizou dezenas de pessoas em Teresina e em outras cidades do Brasil. O objetivo era arrecadar recursos para a compra de uma cadeira de rodas especial. O equipamento, que custava cerca de R$ 24 mil, tinha a capacidade de colocar o usuário em posição vertical e contava com um sistema de locomoção eletrônica. A cadeira representava muito mais do que conforto. Ela era sinônimo de liberdade, de possibilidade de movimento e de redução dos riscos de novas lesões. A campanha alcançou a meta e Leandro recebeu a nova cadeira com a emoção de quem sabe o valor de cada conquista.

A história de Leandro Silva de Sousa não terminou com a compra da cadeira nem com a cicatrização da úlcera. Ela continuou nos corredores da Universidade Federal do Piauí, nas salas de aula, nos laboratórios e, futuramente, nos hospitais onde ele pretende atuar como médico. Sua trajetória mostra que a deficiência física não pode ser tratada como limite absoluto. Pode, sim, exigir adaptações, criatividade e uma rede de apoio sólida. Mas não tem o poder de apagar a vontade de quem decide seguir em frente.

Leandro transformou a própria dor em combustível. Ele usou a experiência da paraplegia como argumento para ser um profissional melhor, mais atento e mais humano. A maca, que poderia ser lembrada como símbolo de fragilidade, tornou-se a imagem de uma resistência silenciosa. O microscópio adaptado, a ambulância diária, os cadernos abertos sobre a maca e o olhar atento durante as aulas passaram a representar uma luta que nenhuma limitação foi capaz de interromper. A Medicina ganhou, naquele campus, um aluno que conhecia o sofrimento não pelos livros, mas pela própria pele.

Fonte: Universidade Federal do Piauí e registros públicos sobre a trajetória acadêmica de Leandro Silva de Sousa.

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