Deputado Luiz Carlos Hauly apresenta projeto para limitar convocações da Seleção a jogadores que atuam no Brasil
Deputado protocola proposta para que apenas jogadores de clubes brasileiros possam vestir a camisa da Seleção em qualquer competição.
O futebol brasileiro pode estar diante de uma de suas maiores reviravoltas institucionais. Um projeto de lei protocolado na Câmara dos Deputados pretende redefinir quem tem o direito de vestir a camisa da Seleção Brasileira. A proposta é direta e ambiciosa: proibir a convocação de qualquer atleta que atue fora do território nacional.
O autor da iniciativa é o deputado federal Marcos Tavares. No texto que começou a tramitar na Casa, o parlamentar defende que somente jogadores vinculados a clubes brasileiros possam ser chamados para representar o país. A vedação valeria para todas as competições oficiais, amistosos e categorias de base.
A justificativa apresentada pelo deputado está ancorada em três pilares. O primeiro deles é o fortalecimento do Campeonato Brasileiro. Na visão do parlamentar, a evasão precoce de talentos enfraquece o produto nacional. Jogadores são negociados com equipes do exterior ainda na adolescência, muitas vezes antes de completarem uma temporada inteira como profissionais em seus clubes formadores. Com uma regra que limitasse as convocações, a permanência desses atletas no país se tornaria mais longa, valorizando os elencos e elevando o nível técnico das competições locais.
O segundo argumento é a reconstrução do vínculo entre o torcedor e a seleção. O parlamentar sustenta que a escalação majoritariamente formada por atletas que atuam em ligas estrangeiras dificulta a identificação do público. O torcedor que acompanha o futebol brasileiro nos estádios e nas transmissões nacionais pouco vê os convocados em ação no dia a dia. A proximidade com os jogadores que disputam os torneios internos geraria, segundo a justificativa do projeto, uma conexão mais genuína com a equipe nacional.
O terceiro ponto é econômico. Clubes que conseguem segurar seus principais nomes por mais tempo ganham em bilheteria, venda de produtos licenciados, cotas de televisão e atração de patrocinadores. Uma seleção formada inteiramente por atletas do mercado interno funcionaria como uma vitrine permanente para os campeonatos disputados no Brasil, realimentando o ciclo financeiro das agremiações.
A proposta determina que a Confederação Brasileira de Futebol fique impedida de chamar qualquer jogador com contrato vigente em equipes do exterior. O alcance da medida abrange desde a categoria principal até as equipes sub-20, sub-17 e sub-15. Torneios como a Copa do Mundo, a Copa América, as Eliminatórias e até mesmo partidas festivas estariam submetidos à nova regra, caso o texto vire lei.
O caminho legislativo é longo. O projeto precisa ser analisado pela Comissão do Esporte, onde o mérito da ideia será debatido. Depois, passa pelo crivo da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, que examinará a compatibilidade da proposta com a Constituição Federal. Se superar essas etapas, o texto ainda precisa ser aprovado no plenário da Câmara, depois no Senado Federal e, por fim, receber a sanção presidencial.
É justamente na análise constitucional que residem os maiores obstáculos. O artigo 217 da Constituição assegura autonomia às entidades desportivas quanto à sua organização e funcionamento. Determinar por lei quem pode ou não ser convocado para a seleção pode ser interpretado como interferência estatal em uma atribuição exclusiva da CBF. A Federação Internacional de Futebol, a Fifa, pune rigorosamente casos de ingerência política nas federações nacionais. As sanções previstas vão desde multas e advertências até a suspensão de clubes e da própria seleção de competições internacionais, um risco que nenhum país se dispõe a correr sem avaliar profundamente as consequências.
Na prática, se a lei entrasse em vigor, a seleção brasileira passaria a ser formada inteiramente por atletas que atuam na Série A, na Série B e nas divisões inferiores do futebol nacional. Jogadores consagrados nos principais centros da Europa, como Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha, ficariam automaticamente fora das listas de convocados. A medida alteraria de forma drástica o perfil da equipe que disputa as Eliminatórias e os grandes torneios do calendário internacional.
A Confederação Brasileira de Futebol acompanha a tramitação do projeto com atenção, mas ainda não divulgou um posicionamento oficial. Nos bastidores, integrantes da entidade consideram a proposta inviável do ponto de vista jurídico. A avaliação reservada é de que o texto não resistiria a uma análise mais aprofundada no Congresso e, caso aprovado, seria derrubado pelo Poder Judiciário.
O debate, porém, transcende os gabinetes de Brasília. Ele toca em uma ferida antiga do futebol brasileiro: a dificuldade de reter talentos e a sensação de que o torcedor perdeu a intimidade com a sua própria seleção. Para os defensores da ideia, o projeto representa uma tentativa de resgatar a soberania do futebol jogado dentro do país. Para os críticos, a proposta ignora a realidade do mercado globalizado e ameaça a competitividade do Brasil diante das potências que mantêm suas principais estrelas nos campeonatos mais ricos do planeta.
Enquanto o projeto percorre os corredores do Legislativo, a seleção brasileira prossegue com sua rotina de convocações sem nenhuma alteração. O técnico de plantão mantém o monitoramento de atletas espalhados por diversos continentes, como sempre foi feito ao longo das últimas décadas. A discussão sobre o futuro da camisa canarinho, entretanto, está lançada e promete mobilizar dirigentes, atletas, parlamentares e torcedores nos próximos meses.
Fonte:
Congresso em Foco / Câmara dos Deputados