Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram a Venezuela em menos de um minuto. Prédios ruíram em Caracas e La Guaira. São 32 mortos e 700 feridos
A noite de quarta-feira entrou para a história venezuelana como uma das mais trágicas desde o terremoto de 1812. Em um intervalo de apenas quarenta e oito segundos, dois abalos sísmicos de magnitude superior a 7 graus na escala Richter castigaram o centro-norte do país, convertendo bairros inteiros de Caracas e municípios vizinhos em cenários de devastação. O balanço oficial divulgado pela presidente interina Delcy Rodríguez nas primeiras horas da madrugada de quinta-feira confirmava 32 mortes e 703 feridos atendidos nos hospitais da região metropolitana. A própria mandatária reconheceu, diante das câmeras da televisão estatal, que esses números são provisórios e não incluem as vítimas do estado de La Guaira, apontado como a zona mais castigada pelo desastre.
O primeiro impacto sísmico foi registrado às 21h47 do horário local. Com magnitude 7,2 e epicentro localizado a aproximadamente 160 quilômetros a oeste da capital, o tremor rompeu a rotina de um feriado nacional que mantinha a maioria das famílias dentro de casa. A vibração profunda foi sentida em pelo menos oito estados. Cortinas balançaram, móveis tombaram e o som surdo que emergia do subsolo antecedeu o momento mais aterrorizante da sequência. Quando os ponteiros ainda não haviam completado um minuto, um segundo sismo, este de magnitude 7,5, atingiu a mesma região com energia ainda mais destrutiva. Foi este segundo golpe o responsável pela maioria dos colapsos estruturais registrados até o momento.
A dupla de terremotos gerou uma reação imediata da comunidade científica internacional. O Serviço Geológico dos Estados Unidos processou os dados sísmicos em tempo real e emitiu, poucas horas depois do evento, uma projeção de letalidade baseada em modelagem estatística que considera profundidade dos hipocentros, densidade demográfica, horário de ocorrência e tipologia das construções na área afetada. O resultado desse cálculo projeta um cenário em que o total de mortos pode ascender à casa dos milhares, com uma probabilidade considerada alta de que o número final ultrapasse dez mil vítimas fatais. A estimativa leva em conta, principalmente, o padrão de edificações residenciais venezuelanas, muitas delas erguidas antes da adoção de códigos sísmicos rigorosos e vulneráveis a oscilações de longa duração como as que caracterizaram o evento de quarta-feira.
O poder público venezuelano reagiu com uma mobilização que, segundo a presidente interina, envolve todos os corpos de bombeiros, defesa civil, forças armadas e equipes médicas disponíveis na região central do país. Em seu pronunciamento, Rodríguez descreveu as ações em curso como uma operação de resgate muito intensa, voltada exclusivamente para salvar o maior número possível de vidas. A governante também confirmou que equipes internacionais de busca e salvamento devem chegar ao território venezuelano ainda nesta quinta-feira, sem especificar quais países formalizaram o envio de brigadas especializadas. A ajuda externa foi agradecida nominalmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que publicou uma mensagem em rede social declarando que a nação americana está pronta, disposta e capacitada para prestar auxílio diante da tragédia.
Os danos na capital manifestaram-se de forma desigual, porém concentrada. O distrito de Baruta, tradicional zona residencial de classe média alta, contabilizou três mortes provocadas pelo colapso de dois prédios residenciais. Em Chacao, município que abriga uma das áreas financeiras mais verticalizadas de Caracas, o prefeito Gustavo Duque informou que quatro edifícios ruíram por completo e uma pessoa perdeu a vida. As imagens captadas na região mostram montanhas de escombros que antes eram estruturas de doze ou quinze andares. Retroescavadeiras trabalham sob iluminação artificial enquanto cães farejadores percorrem as frestas em busca de sinais de vida. Familiares mantêm vigília silenciosa atrás das faixas de isolamento, com olhares fixos nas pilhas de concreto triturado.
Relatos colhidos entre sobreviventes revelam a dimensão psicológica da catástrofe. Uma moradora do leste da capital, Coro Martínez, contou que estava em sua sala quando escutou um estrondo subterrâneo comparável ao ruído de uma explosão. Imediatamente depois, objetos começaram a cair de prateleiras e estantes, enquanto lustres oscilavam violentamente. Ela afirmou jamais ter experimentado sensação semelhante. Em um prédio vizinho a uma das estruturas colapsadas, a moradora Maria Alejandra narrou que, ao descer as escadas de emergência, encontrou uma paisagem que definiu como filme de terror: nuvens densas de poeira branca, pessoas ensanguentadas caminhando sem direção e um silêncio interrompido apenas por sirenes e gritos abafados vindos dos destroços.
Um alerta de tsunami chegou a ser disparado para toda a costa caribenha venezuelana minutos depois do segundo grande tremor. A medida, embora padrão em eventos sísmicos submarinos de grande magnitude, provocou correria em comunidades litorâneas e levou milhares de pessoas a buscarem refúgio em pontos elevados do estado de La Guaira. O aviso foi cancelado pouco depois, quando os centros de monitoramento confirmaram a inexistência de risco de ondas gigantes. Ainda assim, o susto coletivo agravou o quadro de confusão que já dominava a noite.
O funcionamento da infraestrutura nacional sofreu impactos severos. O Aeroporto Internacional Simón Bolívar, localizado em Maiquetía, foi oficialmente fechado. A medida, anunciada por Delcy Rodríguez, decorre de danos estruturais cuja extensão ainda está sendo avaliada por engenheiros. O fechamento do principal terminal aéreo venezuelano isola temporariamente o país do tráfego internacional e cria um gargalo logístico preocupante para a chegada de ajuda humanitária. Em paralelo, o Ministério da Educação determinou a suspensão das aulas em todas as escolas e universidades da região metropolitana até o final da semana, período que será usado para vistorias técnicas em mais de duas mil instituições de ensino.
A rede hospitalar da capital respondeu à crise com a ampliação imediata de sua capacidade de atendimento. No Hospital de Clínicas de Caracas, um dos centros médicos privados de maior porte do país, a direção técnica emitiu comunicado convocando todos os funcionários administrativos e assistenciais para reforçar os plantões noturnos. O fluxo de pacientes com fraturas, traumatismos cranianos e esmagamento de membros manteve-se constante durante toda a madrugada, pressionando estoques de sangue, salas cirúrgicas e leitos de terapia intensiva.
Em meio ao cenário de emergência urbana, o setor petrolífero venezuelano apresentou resultados preliminares que as autoridades classificaram como alentadores. As instalações de produção, refino e distribuição de hidrocarbonetos não registraram danos imediatos. Em Maracaibo, cidade que concentra grande parte da infraestrutura petrolífera do país, os órgãos de proteção civil afirmaram não ter recebido notificações de feridos ou avarias estruturais. Na refinaria de El Palito, localizada no estado de Carabobo e situada em área de influência direta dos epicentros, funcionários relataram que as operações não sofreram interrupção e que as inspeções visuais iniciais não identificaram rachaduras, vazamentos ou deformações em tanques e dutos. A petroleira britânica Shell, que mantém operações e funcionários em território venezuelano, divulgou nota informando que todos os integrantes de sua equipe foram localizados em segurança e que não há registro de feridos entre seus colaboradores.
O histórico sísmico venezuelano fornece o contexto para compreender a magnitude do ocorrido. O país situa-se sobre uma das fronteiras tectônicas mais ativas do planeta, onde a Placa do Caribe desliza contra a Placa Sul-Americana em um movimento que acumula tensões há séculos. O grande terremoto de 1812 destruiu completamente as cidades de Mérida e Caracas, matando cerca de trinta mil pessoas em um único evento. Em julho de 1967, um sismo de magnitude 6,3 voltou a atingir a capital, deixando um rastro de aproximadamente trezentos mortos e provocando mudanças nos códigos de construção da época. Os tremores da noite de 24 de junho, contudo, superam em energia liberada qualquer registro sísmico instrumental já documentado na região centro-norte venezuelana, o que coloca o país diante de um desafio de reconstrução cujas proporções reais só se tornarão evidentes quando as equipes de resgate conseguirem acessar todas as áreas afetadas.
Fontes consultadas para esta matéria:
Serviço Geológico dos Estados Unidos – dados sísmicos e projeções de letalidade
Pronunciamento oficial da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão
Prefeitura do distrito de Baruta – balanço de vítimas e desabamentos
Prefeitura do distrito de Chacao – informações do prefeito Gustavo Duque
Ministério do Interior, Justiça e Paz da Venezuela – declarações do ministro Diosdado Cabello
Departamento de Proteção Civil do estado de Zulia – informe sobre Maracaibo
Administração da refinaria de El Palito – relato de funcionários
Comunicado oficial da petroleira Shell
Publicação oficial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em rede social
Hospital de Clínicas de Caracas – comunicado interno de convocação de funcionários
Registros históricos do Serviço Geológico dos Estados Unidos sobre o terremoto de 1812 e o sismo de 1967 na Venezuela