EUA dizem que hackers chineses invadiram o Federal Reserve
Departamento de Justiça desmantela rede de espionagem que operava desde 2018 contra agências federais e infraestrutura crítica
Autoridades federais dos Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira a desarticulação de uma estrutura de invasão digital atribuída a um grupo vinculado ao aparato de segurança da China. De acordo com o Departamento de Justiça norte-americano, a rede operou de forma contínua por aproximadamente sete anos e comprometeu sistemas de órgãos centrais da administração pública, agências científicas, instituições financeiras e empresas privadas em diferentes países.
A ação coordenada entre o Departamento de Justiça e o FBI resultou na apreensão de domínios de comando e controle que sustentavam a infraestrutura utilizada pelos invasores. A medida interrompeu a comunicação entre os responsáveis pela campanha e milhares de dispositivos infectados ao redor do mundo.
Estrutura da operação e mecanismos de invasão
A investigação aponta que a campanha se baseava em duas plataformas complementares, identificadas nos autos como QScan e QTRouter. A primeira era empregada para localizar e infectar automaticamente aparelhos conectados à internet, incluindo roteadores, câmeras de segurança e outros equipamentos de uso doméstico e corporativo. A segunda plataforma integrava esses dispositivos comprometidos a uma malha de tráfego digital, permitindo que os responsáveis ocultassem a origem real das ações maliciosas.
Esse modelo de operação, conhecido como botnet, possibilita que os ataques partam de milhares de pontos diferentes ao mesmo tempo, dificultando a identificação dos responsáveis e a adoção de medidas defensivas. Documentos apresentados à corte indicam que a estrutura tinha alcance global e era utilizada para comprometer redes governamentais, corporativas e setores considerados críticos para o funcionamento da economia e da segurança nacional.
Alvos estratégicos e período de atuação
Entre as instituições atingidas pela campanha estão o Departamento de Justiça, a NASA, o Federal Reserve e o Senado dos Estados Unidos. Os registros judiciais também mencionam o Departamento de Energia, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, os Institutos Nacionais de Saúde e quatro empresas privadas localizadas nos Estados Unidos e na Coreia do Sul.
A análise técnica indica que a atividade da rede começou em 2018 e permaneceu em funcionamento até a operação divulgada nesta quarta-feira. A longevidade da campanha evidencia planejamento consistente, capacidade de adaptação e manutenção de sigilo por parte dos responsáveis, que conseguiram operar por anos sem interrupção definitiva.
Papel de empresa chinesa e vínculo com agências estatais
As apurações apontam que as plataformas eram operadas pela empresa Nanjing Xinjiuwei Network Technology Company, sediada na China. Segundo o Departamento de Justiça, a companhia prestava serviços a órgãos ligados ao sistema de segurança do governo chinês, incluindo o Ministério da Segurança do Estado e o Exército de Libertação Popular.
O grupo identificado como responsável pela operação é monitorado por especialistas em segurança digital sob a designação QTFY. A investigação sustenta que os integrantes atuavam como contratados de agências de inteligência chinesas, fornecendo infraestrutura tecnológica e capacidade operacional para campanhas de espionagem.
Consequências da apreensão e medidas adicionais
A retirada dos domínios de comando e controle do ar representa um golpe direto na capacidade do grupo de coordenar novas invasões a partir da infraestrutura desmantelada. Autoridades americanas afirmaram que a ação impede que os responsáveis emitam novas ordens para os equipamentos infectados, reduzindo temporariamente o alcance da rede.
Ainda assim, especialistas alertam que grupos com esse perfil costumam reconstruir rapidamente suas estruturas, especialmente quando contam com apoio estatal e recursos financeiros significativos. A resposta norte-americana incluiu ainda a divulgação de indicadores técnicos de comprometimento, com o objetivo de auxiliar empresas e governos a identificar eventuais infecções remanescentes em seus sistemas.
Tensão cibernética entre Estados Unidos e China
O episódio reforça o quadro de confronto digital entre Washington e Pequim, que tem se intensificado nos últimos anos. O governo americano tem ampliado acusações formais e medidas judiciais contra grupos que considera responsáveis por ataques patrocinados pelo Estado chinês, enquanto a China nega qualquer envolvimento e acusa os Estados Unidos de utilizar alegações de espionagem como instrumento de pressão geopolítica.
A embaixada chinesa em Washington não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário sobre a operação divulgada nesta quarta-feira. Em manifestações anteriores, representantes do Ministério das Relações Exteriores da China afirmaram que as acusações americanas são distorcidas e fazem parte de uma estratégia de intimidação tecnológica.
O silêncio inicial de Pequim segue o padrão observado em outros casos semelhantes, nos quais o governo chinês costuma reagir apenas após avaliação interna do impacto diplomático e político das acusações. Enquanto isso, o governo americano mantém a posição de que a proteção de infraestruturas críticas exige respostas rápidas e coordenadas contra redes de espionagem digital.
Fontes: Agência Reuters, HK01, The Star, CyberWire, Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
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