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Governo argentino emite alerta nacional após roubo de cápsula de Césio-137

By Estagiário
junho 19, 2026 7 Min Read
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O alarme soou às oito horas e quarenta e sete minutos da manhã de uma segunda-feira que prometia ser rotineira. Quando o técnico responsável pela manutenção dos equipamentos de calibração radiológica destravou a porta blindada da sala de fontes seladas do Instituto de Diagnóstico Nuclear de Rosário, encontrou o nicho identificado como CS-137-004 completamente vazio. O suporte metálico que abrigava a cápsula de chumbo estava no lugar. A cápsula, não. O profissional repetiu a verificação três vezes antes de acionar o supervisor de radioproteção. Em menos de trinta minutos, a direção do instituto formalizava a comunicação de desaparecimento à Autoridade Regulatória Nuclear da República Argentina.

O que se seguiu foi a ativação imediata do nível máximo de prontidão do Sistema de Intervenção em Emergências Radiológicas, estrutura que congrega especialistas em física nuclear, médicos radiologistas, peritos em segurança pública e agentes federais treinados para responder a incidentes envolvendo fontes ionizantes. O protocolo, desenhado para cenários que vão desde acidentes laboratoriais até atos deliberados de subtração de material radioativo, prevê a mobilização coordenada de todos os órgãos competentes nas primeiras duas horas após a notificação. Foi exatamente o que aconteceu.

A cápsula desaparecida contém césio-137, um isótopo radioativo que emite radiação gama e beta, classificado como fonte selada de categoria três na escala da Agência Internacional de Energia Atômica. Isso significa que, embora sua atividade não seja suficiente para causar danos letais a longas distâncias, o contato direto e prolongado pode produzir queimaduras graves, síndrome aguda da radiação e, dependendo do tempo de exposição, risco de óbito. O material está armazenado em estado físico de gel, acondicionado dentro de um frasco de polímero translúcido, que por sua vez repousa no interior de um recipiente cilíndrico de chumbo com espessura de parede calculada para atenuar a emissão radioativa a níveis seguros para manuseio técnico. O conjunto pesa um quilograma e quatrocentos gramas e mede aproximadamente dezoito centímetros de altura por oito centímetros de diâmetro.

A função original da cápsula era servir como padrão de referência para a calibração de câmaras de ionização e contadores de poço utilizados em procedimentos de medicina nuclear. Equipamentos dessa natureza precisam ser aferidos periodicamente para garantir que as doses administradas aos pacientes correspondam exatamente às prescrições médicas. Um erro de calibração pode resultar em subdoses que tornam o tratamento ineficaz ou sobredoses que lesionam tecidos saudáveis. Por isso, a fonte de césio-137 permanecia armazenada em uma sala com acesso rigorosamente controlado, monitoramento eletrônico contínuo e registros de entrada que identificam cada movimentação por meio de biometria digital e crachá com chip criptografado.

Apenas quatro profissionais do instituto possuíam credenciais para ingressar no recinto. Três deles são físicos médicos com mais de uma década de experiência em manipulação de fontes radioativas. O quarto é o chefe do serviço de medicina nuclear, profissional que acumula especializações no país e no exterior. Nenhum registro de acesso não autorizado foi detectado nas memórias do sistema de segurança perimetral. As câmeras internas da sala não apresentavam sinais de violação ou interrupção de funcionamento. O sistema de tranca eletromagnética não registrou tentativas de abertura fora do horário de expediente. A conclusão preliminar dos investigadores federais aponta para uma falha que dispensou arrombamentos: ou alguém com autorização retirou a cápsula do nicho sem registrar a saída no livro de controle de fontes, ou o inventário já apresentava inconsistências que não foram detectadas nas auditorias internas anteriores.

A Polícia Federal Argentina destacou uma equipe de doze agentes especializados em crimes contra a saúde pública e o patrimônio científico para conduzir as buscas em Rosário. A primeira medida foi a apreensão de todos os registros de acesso dos últimos sessenta dias, incluindo imagens de câmeras, planilhas de movimentação de fontes e arquivos de ponto dos funcionários autorizados. Paralelamente, uma varredura com detectores portáteis de radiação gama foi iniciada em um raio de dois quilômetros ao redor do instituto, priorizando caçambas de lixo hospitalar, ferros-velhos, depósitos de reciclagem e pontos de coleta de resíduos sólidos. A escolha desses locais não é aleatória: o histórico latino-americano demonstra que fontes roubadas frequentemente são descartadas por pessoas que desconhecem sua natureza radioativa ou vendidas como sucata metálica pelo valor do chumbo da blindagem.

Em paralelo às buscas físicas, a Autoridade Regulatória Nuclear emitiu um comunicado técnico de abrangência nacional endereçado a todos os centros de saúde, clínicas veterinárias, consultórios odontológicos e hospitais públicos e privados. O documento descreve detalhadamente a aparência da cápsula, suas dimensões exatas, a cor da blindagem de chumbo e a aparência do frasco interno, além de reforçar a proibição absoluta de manipulação por pessoas não treinadas. A nota estabelece que qualquer profissional de saúde que receber um paciente com sintomas compatíveis com exposição à radiação ionizante — náuseas inexplicáveis, eritema cutâneo, queda abrupta de cabelo, queimaduras sem histórico de contato térmico — deve comunicar o caso ao sistema de vigilância epidemiológica e à ARN, mencionando a possibilidade de contato com a fonte desaparecida.

O episódio argentino ocorre em um momento de sensibilidade elevada para o tema na América Latina. O continente carrega a memória de um dos piores acidentes radiológicos da história mundial, ocorrido na cidade brasileira de Goiânia, capital do estado de Goiás, entre os meses de setembro e outubro de 1987. Na ocasião, uma fonte de césio-137 com atividade muito superior à da cápsula agora desaparecida foi encontrada por catadores em um prédio abandonado onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia. O equipamento, uma unidade de teleterapia desativada, foi removido sem autorização e vendido a um ferro-velho. O proprietário do estabelecimento abriu a blindagem e encontrou um pó azul luminescente que distribuía entre familiares, vizinhos e conhecidos como se fosse uma curiosidade inofensiva.

O resultado foi uma catástrofe de saúde pública que contaminou diretamente duzentas e quarenta e nove pessoas, exigiu a descontaminação de dezenas de residências, prédios comerciais e terrenos, gerou treze mil e quinhentas toneladas de rejeitos radioativos e causou a morte de quatro vítimas, entre elas uma criança de seis anos que ingeriu partículas do pó enquanto comia um sanduíche. O acidente de Goiânia transformou a percepção latino-americana sobre os riscos do abandono de fontes radioativas e motivou a criação de protocolos mais rígidos de controle em toda a região, incluindo a própria Argentina.

A similaridade entre os dois eventos reside não apenas no isótopo envolvido, mas na natureza do risco: uma fonte selada que sai do ambiente controlado e se torna vulnerável à manipulação por pessoas sem conhecimento técnico. Em Rosário, a quantidade de material radioativo é menor e a forma física em gel reduz o potencial de dispersão atmosférica em comparação com o pó de cloreto de césio da cápsula goiana. Ainda assim, a simples possibilidade de que alguém abra a blindagem e entre em contato com o conteúdo já representa uma ameaça que justifica a mobilização nacional.

O fantasma da reutilização maliciosa também não é descartado pelos órgãos de inteligência. Embora a Autoridade Regulatória Nuclear afirme não haver indícios de motivação terrorista, a pasta de Inteligência da Polícia Federal mantém um canal aberto com agências internacionais para monitorar qualquer tentativa de tráfico de material radioativo. Fontes de césio-137 podem, em teoria, ser utilizadas para a confecção de dispositivos de dispersão radiológica, popularmente chamados de bombas sujas, cujo objetivo não é a explosão nuclear, mas a disseminação de material contaminante em áreas urbanas. O risco concreto desse cenário é considerado baixo, mas o protocolo exige que a hipótese seja mantida sob vigilância.

A defesa civil de Rosário distribuiu panfletos nos bairros do entorno do instituto com a fotografia da cápsula e instruções claras sobre como proceder em caso de encontro: não tocar, não tentar abrir, afastar-se pelo menos dez metros do objeto e telefonar imediatamente para a central de emergência radiológica. Equipes de agentes sanitários percorreram feiras livres, pontos de transporte público e galpões de reciclagem, dialogando diretamente com a população. A mensagem é repetida em tom pausado e sem alarmismo: o perigo existe, mas é controlável desde que ninguém viole a blindagem.

No campo da apuração interna, os quatro profissionais com acesso à sala de fontes prestaram depoimentos formais ao longo das primeiras quarenta e oito horas. Seus celulares foram submetidos à análise de dados de localização e comunicações. Os cofres de armazenamento doméstico de todos eles foram vistoriados. As residências passaram por varredura com detectores de radiação. Nada foi encontrado. O histórico funcional de cada um não registra advertências, suspensões ou conflitos trabalhistas. A direção do instituto descreve os quatro como profissionais de conduta irrepreensível e colabora ativamente com as investigações, tendo inclusive suspendido preventivamente as atividades de medicina nuclear até que o paradeiro da cápsula seja esclarecido.

Enquanto as buscas prosseguem nas ruas de Rosário, a Autoridade Regulatória Nuclear coordena uma reavaliação extraordinária de todas as fontes radioativas em uso no território argentino. Hospitais, universidades, laboratórios de pesquisa, instalações industriais e centros de radioterapia receberam um ofício que determina a conferência presencial de cada fonte selada em um prazo máximo de quinze dias úteis. O inventário nacional de materiais radioativos, que já era atualizado anualmente, passará a ter monitoramento trimestral até que se conclua a investigação.

A cápsula desaparecida em Rosário é um objeto pequeno, feito de chumbo opaco e material plástico transparente. Sua função original era ajudar a curar. Fora do ambiente protegido para o qual foi projetada, transformou-se em um vetor de risco cuja localização ainda é uma incógnita. O silêncio da blindagem, que não emite som algum, contrasta com o barulho das sirenes, o acionamento dos protocolos e a movimentação incessante de investigadores que tentam encontrar, em meio a milhões de habitantes e quilômetros de ruas, um cilindro de um quilo e quatrocentos gramas que não pode ser aberto, não pode ser tocado e, sobretudo, não pode ser esquecido.

Fontes consultadas para esta reportagem: Autoridad Regulatoria Nuclear de la República Argentina, Sistema de Intervención en Emergencias Radiológicas, Agencia Federal de Emergencias de Argentina, Policía Federal Argentina, Organismo Internacional de Energía Atómica, registros históricos do acidente radiológico de Goiânia depositados na Comissão Nacional de Energia Nuclear do Brasil.

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acidente nuclearArgentinaAutoridade Regulatória Nuclearcésio-137emergência radiológicaGoiâniamaterial radioativoradiaçãoRosário
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