Grupo Dass investe US$ 40 milhões no Paraguai, amplia operações e reacende debate sobre os custos de produção no Brasil
A decisão do Grupo Dass de ampliar suas operações para o Paraguai chama a atenção para uma transformação silenciosa que vem ocorrendo no setor industrial sul-americano. A empresa, que construiu uma trajetória de 46 anos no Brasil e se consolidou como uma das maiores fabricantes de artigos esportivos da região, anunciou um investimento de US$ 40 milhões em uma nova unidade industrial no país vizinho, reforçando uma tendência que vem ganhando força entre companhias que buscam reduzir custos e ampliar sua competitividade.
Ao longo de quase cinco décadas, a Dass desenvolveu uma estrutura produtiva robusta em território brasileiro. Atualmente, a companhia opera oito fábricas, sendo sete localizadas na Bahia e uma no Ceará. Nessas unidades são produzidos calçados, vestuário e acessórios para algumas das maiores marcas esportivas do mundo, incluindo Nike, Adidas, Fila, Umbro e Asics. A presença da empresa ajudou a fortalecer polos industriais, gerar empregos e impulsionar a cadeia produtiva ligada ao setor esportivo nacional.
Mesmo mantendo uma estrutura consolidada no Brasil, a empresa identificou no Paraguai uma oportunidade estratégica para ampliar sua atuação. O novo empreendimento, batizado de Dasstex, nasce a partir de uma parceria com um grupo empresarial paraguaio e deve gerar mais de 600 empregos diretos na fase inicial de operação.
Embora a empresa tenha afirmado que suas unidades brasileiras continuarão funcionando normalmente, o anúncio despertou discussões sobre os fatores que estão levando cada vez mais indústrias a expandirem seus investimentos para fora do país. O principal deles está relacionado à diferença de custos para produzir.
O ambiente de negócios encontrado no Paraguai é considerado um dos mais atrativos da América do Sul para empresas industriais. A estrutura tributária mais enxuta, a menor burocracia e os encargos reduzidos sobre a produção criaram condições que atraíram centenas de empresas estrangeiras nos últimos anos.
Na prática, produzir no Paraguai pode representar uma economia significativa para diversos setores. Os encargos incidentes sobre a atividade produtiva são consideravelmente menores quando comparados aos praticados no Brasil. Além disso, o custo total da contratação de mão de obra também é mais baixo, reduzindo despesas operacionais e aumentando a margem de competitividade das empresas instaladas no país.
Esse cenário ganha ainda mais relevância em um mercado globalizado, onde fabricantes disputam espaço não apenas com concorrentes nacionais, mas também com empresas localizadas em diferentes continentes. Em segmentos de grande volume de produção, pequenas diferenças de custo podem representar milhões de dólares ao longo de um ano, influenciando diretamente decisões de investimento e expansão.
A movimentação do Grupo Dass também evidencia uma mudança de estratégia observada em diversas empresas brasileiras. Em vez de concentrar toda a produção dentro do país, muitas organizações passaram a distribuir operações entre diferentes mercados, aproveitando vantagens específicas de cada região. Essa prática permite reduzir riscos, melhorar a eficiência operacional e ampliar a capacidade de competir internacionalmente.
Nos últimos anos, o Paraguai se transformou em um dos principais destinos para investimentos industriais vindos do Brasil. O avanço desse movimento ocorreu de forma gradual, mas constante. Centenas de empresas brasileiras já iniciaram operações produtivas no país vizinho, atraídas principalmente pelos incentivos oferecidos ao setor industrial e pela possibilidade de produzir a custos mais baixos.
Para economistas e especialistas em competitividade, o caso da Dass representa um retrato de um desafio enfrentado pela indústria brasileira há décadas. Enquanto empresas instaladas no país lidam com uma combinação de alta carga tributária, custos trabalhistas elevados, complexidade regulatória e burocracia, países vizinhos vêm estruturando políticas voltadas para atrair investimentos e fortalecer suas cadeias produtivas.
O resultado desse contraste é percebido diretamente nas decisões corporativas. Quando uma empresa avalia a abertura de uma nova fábrica, a ampliação de capacidade ou a instalação de novas linhas de produção, fatores como custos operacionais, previsibilidade regulatória e ambiente de negócios passam a ter peso decisivo.
No caso específico da Dass, a expansão para o Paraguai não representa apenas a construção de uma nova unidade industrial. O investimento simboliza uma realidade cada vez mais presente no cenário econômico regional: a busca por ambientes mais competitivos para produzir, gerar empregos e ampliar a capacidade de crescimento.
O episódio também reacende um debate antigo sobre os desafios enfrentados pela indústria nacional. Empresários e representantes do setor produtivo defendem há anos a necessidade de medidas que reduzam custos, simplifiquem regras e aumentem a competitividade das empresas brasileiras diante da concorrência internacional.
Enquanto isso, países que oferecem condições mais favoráveis continuam atraindo investimentos, fábricas e novos projetos industriais. Nesse contexto, a decisão do Grupo Dass surge como mais um capítulo de uma transformação econômica que ultrapassa os limites de uma única empresa e reflete mudanças estruturais na dinâmica produtiva da América do Sul.
Fonte: Informações divulgadas pelo Grupo Dass, dados do setor industrial sul-americano, estatísticas de investimentos produtivos no Paraguai e números relacionados ao regime de maquila e competitividade industrial na região.