Helley de Abreu, a professora que transformou o amor pela educação em um ato extremo de coragem
Em 5 de outubro de 2017, a educadora enfrentou o fogo e um agressor para proteger 25 crianças na creche Gente Inocente, em Janaúba (MG); sua história se tornou um dos maiores símbolos de altruísmo do magistério brasileiro
No Dia dos Professores, a memória de Helley de Abreu Silva Batista se impõe não apenas como uma lembrança de tragédia, mas como a afirmação de um compromisso levado às últimas consequências. Aos 43 anos, mãe de três filhos, a pedagoga de Janaúba, no Norte de Minas Gerais, perdeu a vida após entrar em uma sala em chamas para retirar crianças de um incêndio criminoso. O gesto a transformou em heroína nacional e em símbolo da dedicação de tantos educadores que, diariamente, colocam a segurança e o bem-estar dos alunos acima de qualquer outra prioridade.
Helley atuava na creche municipal Gente Inocente, no bairro Rio Novo, desde o ano anterior. Formada em pedagogia e especializada em Educação Especial Inclusiva, ela havia construído uma trajetória marcada pela superação pessoal e por um envolvimento que transcendia a sala de aula. Moradora de Nova Porteirinha, atravessava todos os dias a ponte sobre o Rio Gorutuba para cuidar “das suas crianças”, como costumava chamá-las. Na véspera da tragédia, mesmo rouca, recusou-se a faltar ao trabalho. Disse a uma amiga que precisava ir porque tinha de cuidar dos alunos.
Na manhã de 5 de outubro de 2017, a rotina da creche foi brutalmente interrompida. Damião Soares dos Santos, vigilante de 50 anos que estava afastado por problemas psicológicos, entrou no local portando um líquido inflamável. Ele ateou fogo no próprio corpo, na professora e nas crianças que estavam em uma atividade com pipoca e a exibição de um filme. O ataque foi premeditado: investigações posteriores apontaram que o agressor escolheu simbolicamente a data de aniversário de morte do pai e que mantinha uma obsessão por crianças. Laudos indicaram delírio persecutório, mas a polícia classificou o ato como perversidade e desejo de chocar o país.
O que se seguiu foi um dos episódios mais dramáticos já registrados em uma escola brasileira. Com o corpo em chamas, Helley não correu para a saída. Ela lutou fisicamente contra o agressor e, em seguida, começou a retirar as crianças pela janela da sala. Pelo menos 25 alunos foram salvos por sua ação direta. A professora só parou quando as chamas a impediram de continuar. Foi encontrada sem vida no chão da sala, ao lado de oito crianças que não conseguiu alcançar. Cerca de 90% do seu corpo havia sido queimado.
A tragédia de Janaúba deixou um saldo de dez mortos: oito crianças, o agressor — que morreu horas depois — e Helley. Outras 43 pessoas ficaram feridas, entre crianças e adultos, muitas com queimaduras graves e intoxicação por fumaça. O país acompanhou com comoção o velório e o enterro da professora, realizado sob aplausos e com o corpo trasladado em um carro aberto do Corpo de Bombeiros. O marido, Luiz Carlos Batista, emocionou-se ao dizer que a missão dela parecia ser salvar vidas. “Ela se foi por salvar vida de crianças. Mesmo sofrendo, eu tenho que aceitar. Foi por obra de Deus”.
A dimensão do sacrifício de Helley ultrapassou os limites de Minas Gerais. Ainda em 2017, o governo federal concedeu a ela a Ordem Nacional do Mérito, em reconhecimento ao ato de heroísmo. A Câmara dos Deputados aprovou projeto que a declara Patrona, Heroína e Mártir da Educação no Brasil, e seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Em Minas Gerais, a rodovia LMG-631, que liga São João da Ponte a Francisco Sá, recebeu seu nome. Câmaras municipais de diferentes regiões criaram o Prêmio Helley de Abreu Silva Batista e títulos de mérito legislativo em sua homenagem. Em 2025, a Câmara de Guapiaçu (SP) a declarou oficialmente Patrona, Heroína e Mártir da Educação.
Helley não deixou apenas um exemplo de coragem. Deixou três filhos — Breno, Lívia e Olavo, que tinha apenas um ano e três meses quando perdeu a mãe — e uma lição que segue ecoando em cada sala de aula do país. Educar, como sua história demonstrou de forma radical, também é cuidar, acolher e proteger. Neste Dia dos Professores, seu nome merece mais do que uma lembrança passageira: merece o reconhecimento de que o magistério é exercido, todos os dias, por pessoas capazes de colocar a vida dos alunos acima da própria.