Irmã de Carla Zambelli anuncia apoio a Lula no segundo turno
Professora progressista e feminista, irmã de Carla Zambelli rompe silêncio e declara voto em Lula no segundo turno
A professora de Direito Paula Zambelli Salgado Brasil, irmã mais velha da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), tornou público na noite de quinta-feira, 22 de outubro, o voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de 2026, no qual o petista enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A manifestação, feita em vídeo e em carta publicados nas redes sociais, ganhou repercussão imediata não apenas pelo apoio a Lula, mas por escancarar uma fissura política dentro de uma família cujo sobrenome se tornou um dos símbolos do bolsonarismo no país. A declaração foi registrada inicialmente pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, e confirmada por veículos como O Globo, Poder360 e Revista Fórum.
Paula tem 50 anos e construiu carreira acadêmica longe dos holofotes eleitorais. É advogada, psicóloga, professora universitária, pesquisadora e consultora, com doutorado em políticas migratórias. Na carta em que explicou a decisão, apresentou-se como “progressista” e “feminista”, mãe e amiga, e afirmou ter “profundo amor pela democracia, pela Constituição brasileira e pelo Estado Democrático de Direito”. A frase que resumiu seu posicionamento e viralizou foi direta: “Sou Zambelli, e voto 13. Para que nosso país continue a ser democrático, livre, soberano e respeitador das existências todas”.
A escolha de tornar o voto público somente após o encerramento do primeiro turno, em 4 de outubro, foi explicada pela própria professora como uma medida para preservar os familiares que estavam na disputa eleitoral. Dois deles concorreram naquele pleito: o irmão Bruno Zambelli (PL-SP), reeleito deputado estadual com 82.946 votos, e a mãe, Rita Zambelli (PL-SP), que tentou uma vaga na Câmara dos Deputados e recebeu 22.720 votos, insuficientes para assumir uma cadeira. Em vídeo, Paula afirmou que sabia que o silêncio tinha um preço e que não estava mais disposta a pagá-lo, mas esperou o fim do primeiro turno para que não houvesse “nenhum prejuízo, por menor que fosse” aos parentes.
A relação com o sobrenome da família ocupa parte central da manifestação. Paula relatou que, após o divórcio, ocorrido há cerca de dez anos, manteve o sobrenome Brasil por razões ligadas aos filhos e à assinatura acadêmica, enquanto Carla passou a dar evidência pública ao nome Zambelli em sua trajetória política. Com o tempo, segundo ela, o sobrenome passou a ser associado a ideias, discursos e escolhas das quais discorda profundamente. A professora mencionou especificamente o período da pandemia de Covid-19, quando cumpria isolamento rigoroso, gravava aulas remotas e acompanhava alunos, e viu o nome da família ocupar o debate público por razões que rejeitava. “O silêncio também é uma escolha. E chega um momento em que permanecer em silêncio deixa de significar preservar relações e passa a significar apagar a própria voz”, escreveu.
Apesar da divergência explícita, Paula fez questão de delimitar a natureza do rompimento. Afirmou continuar amando a mãe e os irmãos e disse não pretender transformar a história familiar em espetáculo. “Eu respondo pelas minhas escolhas e posições. Ela responde pelas dela”, declarou. Em entrevista à Folha de S.Paulo, resumiu o sentimento com a frase “discordar não é deixar de amar, e nós seguiremos sendo família”. A professora também relatou manter boa relação com Rita e com Carla, que hoje reside na Itália.
Em entrevista à coluna de Mônica Bergamo, Paula detalhou as razões políticas do voto. Disse considerar a eventual volta do bolsonarismo ao poder “um retrocesso” a ser evitado a qualquer custo e afirmou que não gostaria que pessoas que ama e que são vulneráveis voltassem a sofrer o que sofreram durante o governo de Jair Bolsonaro. Citou amigos homossexuais que, segundo ela, “murcharam, perderam o brilho e desacreditaram que poderiam viver uma vida normal”, e mencionou refugiados e imigrantes que ouviram frases como “volte para o seu país”. A professora, que defendeu tese de doutorado em políticas migratórias, disse ainda que não gostaria de voltar a discutir com alunos temas como a inconstitucionalidade da redução da maioridade penal e as competências do Supremo Tribunal Federal. Para ela, um retorno da família Bolsonaro ao Planalto exigiria “defender novamente o processo civilizatório brasileiro”.
No vídeo em que anunciou o voto, Paula também se dirigiu a ex-alunos, pessoas que acompanharam sua trajetória acadêmica e pacientes que atendeu. Pediu que o público refletisse sobre o modelo de país que deseja construir e defendeu que, diante do medo de falar e do risco de existir por ser diferente, é preciso que as pessoas se pronunciem. “Quando a gente tem medo de falar o que a gente pensa, quando a gente corre risco por existir, por ser diferente, é preciso que as pessoas se pronunciem”, afirmou. O posicionamento, segundo ela, provoca desconforto e constrangimento entre os familiares, mas foi apresentado como uma decisão pessoal e irrevogável.
O contexto familiar em que a declaração surge é de forte exposição política e judicial. Carla Zambelli deixou o Brasil em 2025, após ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal a dez anos de prisão no processo sobre a invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça. A Primeira Turma da Corte manteve a condenação e determinou o cumprimento da pena e a perda do mandato parlamentar. Na Itália, onde tem cidadania, a ex-deputada foi alvo de pedidos de extradição feitos pelo governo brasileiro. Em maio de 2026, a Corte de Cassação de Roma negou um desses pedidos e determinou sua soltura imediata; em outro processo, uma decisão que autorizava a extradição foi anulada, e o caso voltou a ser analisado. Segundo a defesa de Carla, ela poderia ser presa caso retornasse ao Brasil.
Bruno Zambelli, irmão de Paula e Carla, consolidou-se como o nome da família com mandato em vigor. Ele foi reeleito deputado estadual por São Paulo pelo PL com 82.946 votos, depois de ter chegado à Assembleia Legislativa paulista em 2022. Rita Zambelli, mãe dos três, entrou na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados pelo mesmo partido, mas os 22.720 votos que recebeu a deixaram fora da Câmara, na condição de suplente. A candidatura de Rita ocorreu enquanto Carla permanecia na Itália e era alvo de ordens de prisão no Brasil. Às vésperas da eleição, a ex-deputada chegou a pedir um salvo-conduto ao STF para retornar ao país, votar na mãe e depois voltar ao território italiano sem ser presa.
A eleição presidencial de 2026 tem segundo turno marcado para domingo, 25 de outubro. Lula e Flávio Bolsonaro avançaram para a disputa após o primeiro turno de 4 de outubro, no qual o senador terminou numericamente à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45% do presidente. A manifestação de Paula Zambelli Brasil, embora parta de uma figura sem mandato eletivo e sem atuação partidária, carrega peso simbólico por partir de alguém que divide o sobrenome com uma das principais lideranças do campo bolsonarista e por explicitar que a divergência política atravessa o núcleo familiar que, até então, aparecia publicamente alinhado a esse campo.
Fontes consultadas: O Globo, Folha de S.Paulo, Poder360, Revista Fórum, Agência Brasil, Metrópoles, UOL Notícias, Jornal de Brasília e NSC Total.