Jovem mostra a Amazônia em chamas e questiona o silêncio dos artistas: “Cadê eles agora?”
Em Juruti, Elber Andrade grava vídeo em meio à fumaça e cobra posicionamento de celebridades
Um vídeo gravado em meio à fumaça densa que encobre o oeste do Pará reacendeu um dos debates mais delicados do cenário ambiental brasileiro. O criador de conteúdo Elber Andrade, morador de Juruti, publicou imagens nas quais aparece usando máscara de proteção enquanto uma nuvem alaranjada de fumaça, provocada por um incêndio florestal de grandes proporções, avança sobre a vegetação ao seu redor. O questionamento que acompanha as imagens é direto: por que os artistas e celebridades que, em anos recentes, transformaram a defesa da Amazônia em bandeira pública permanecem em silêncio diante da destruição que volta a consumir a floresta.
A pergunta do jovem paraense não é retórica. A crise ambiental que atinge a região amazônica em 2026 já supera, em gravidade e extensão, episódios anteriores que motivaram campanhas de ampla repercussão nacional e internacional. Em setembro, o período de estiagem intensificou o risco de incêndios florestais no oeste do Pará, e municípios como Juruti e Monte Alegre mobilizaram equipes de segurança para conter o avanço das chamas. Em Juruti, a atuação integrada reuniu 33 bombeiros civis e 117 brigadistas, que passaram a utilizar drones para monitorar focos de incêndio em áreas operacionais, na cidade e na zona rural. A orientação das autoridades foi clara: evitar o uso do fogo para limpeza de terrenos e roçados, não descartar cigarros acesos às margens de estradas e não deixar objetos de vidro em áreas de vegetação, medidas que buscam reduzir o risco de novas ignições em um cenário de baixa umidade e temperaturas elevadas.
A situação, no entanto, agravou-se para além dos limites do Pará. O estado do Amazonas decretou situação de emergência em 36 municípios, medida que permitiu o reconhecimento federal e a liberação de recursos para o combate aos incêndios. Dados oficiais apontam que o estado acumulou mais de 6.900 focos de queimadas entre o primeiro dia de outubro e o dia 11, uma alta superior a 91% em relação ao mesmo período do ano anterior. O governador Roberto Cidade afirmou que o estado mantém ações de prevenção e combate desde maio, por meio do programa Amazonas Mais Verde, e ressaltou o trabalho das equipes estaduais. A fumaça que encobriu Manaus por dias consecutivos levou à suspensão de aulas presenciais na rede municipal e em universidades, ao cancelamento de eventos ao ar livre e a registros de concentração de material particulado em níveis classificados como péssimos pela Defesa Civil.
Diante do agravamento, o governo federal anunciou uma força-tarefa que reuniu diferentes ministérios, brigadistas, Forças Armadas e equipes de saúde. Onze aeronaves foram mobilizadas, incluindo dois aviões KC-390 da Força Aérea Brasileira, além do envio de quase 300 profissionais para reforçar o combate aos incêndios. O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, destacou que a decretação do estado de emergência pelo governo do Amazonas foi essencial para permitir a ajuda federal e que o reconhecimento sumário pela União ocorreu no mesmo dia, com publicação no Diário Oficial. O Ibama informou que extinguiu mais de 200 incêndios no Amazonas desde o início da temporada crítica e segue atuando no combate a outros focos ativos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais, que conversou por telefone com o governador e garantiu que o governo federal faria tudo o que fosse necessário para debelar os incêndios e permitir que a população voltasse a respirar ar puro.
O contraste com o passado, porém, permanece no centro do questionamento feito por Elber Andrade. Em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, 31 artistas brasileiros, entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gal Costa, Elza Soares, Iza e Nando Reis, uniram vozes na canção Canção pra Amazônia, lançada em setembro daquele ano com o refrão que se tornou símbolo das mobilizações ambientais: Salve a Amazônia. O clipe estreou no Fantástico, da TV Globo, e o projeto, sem fins lucrativos, foi produzido com apoio do Greenpeace Brasil. Naquele período, nomes como Leonardo DiCaprio, Madonna, Gisele Bündchen e Anitta também se manifestaram publicamente contra os incêndios na floresta, e artistas como Caetano Veloso e Criolo chegaram a integrar manifestações no Rio de Janeiro.
Agora, com a floresta novamente em chamas e a fumaça sufocando cidades inteiras, a ausência de manifestações equivalentes por parte de parte significativa da classe artística tem sido apontada como um silêncio ensurdecedor. O deputado federal Nikolas Ferreira publicou um vídeo no qual questiona diretamente o paradeiro dos artistas que participaram das campanhas anteriores, mencionando a Canção pra Amazônia e cobrando posicionamento diante da crise atual. O senador Marcio Bittar também se manifestou no plenário do Senado, questionando o silêncio daqueles que, em outros momentos, entoaram o refrão Salve a Amazônia e criticando o que classificou como seletividade nas manifestações.
Nem todos, no entanto, permanecem calados. A ex-BBB Isabelle Nogueira, natural do Amazonas, usou suas redes sociais durante uma viagem à Itália para cobrar maior atenção nacional à crise, classificando a situação como desesperadora e defendendo medidas efetivas de combate aos incêndios e de redução dos impactos sobre as comunidades afetadas. O cantor Davi Sacer criticou o que considera uma postura seletiva de parte da classe artística, comparando a repercussão das queimadas em governos diferentes e questionando se o posicionamento de celebridades muda conforme o ocupante da Presidência da República. O DJ Alok, que já havia criticado o silêncio ensurdecedor sobre a fumaça em Manaus em ocasiões anteriores, voltou a chamar atenção para a falta de destaque internacional dada ao problema. O biólogo Richard Rasmussen também cobrou posicionamento de artistas e autoridades diante das queimadas que afetam a qualidade do ar na capital amazonense e provocam o cancelamento de aulas.
A crise ambiental na Amazônia em 2026 expõe uma contradição que transcende preferências políticas. Enquanto a floresta queima e comunidades inteiras sofrem com a fumaça e a destruição, a pergunta feita por Elber Andrade em meio à densa nuvem alaranjada em Juruti continua sem resposta. A defesa do meio ambiente, argumentam analistas e moradores da região, deveria permanecer constante, independentemente de quem ocupa o Palácio do Planalto. Em uma emergência que afeta diretamente populações amazônicas e a saúde de milhões de brasileiros, a cobrança por transparência, fiscalização e medidas efetivas de combate ao fogo envolve governos, autoridades ambientais e também a sociedade civil, incluindo aqueles que têm o poder de amplificar vozes e pressionar por mudanças. Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo, e a fumaça que cobre Manaus e outras cidades da região serve como um lembrete silencioso e ao mesmo tempo ensurdecedor da urgência de ações concretas.
Fontes consultadas: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Programa Queimadas; Agência Brasil; Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Ibama; Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; Senado Federal; Câmara dos Deputados; Greenpeace Brasil; G1; Poder360; Estado Político; Folha de S.Paulo; O Liberal; Portal do Holanda; Dourados Online; Manauara News; Fato Amazônico; Expresso AM; Diário do Poder; e redes sociais de Elber Andrade e demais personalidades citadas.