Medicamento injetável que previne o HIV pode chegar ao SUS até o fim de 2026
Governo protocola pedido na Conitec e medicamento injetável de prevenção prolongada pode estar disponível na rede pública até o fim de 2026
O Ministério da Saúde finalizou os preparativos para protocolar, nos próximos dias, o pedido de avaliação do cabotegravir, primeiro medicamento injetável capaz de prevenir a infecção pelo HIV com apenas uma aplicação a cada dois meses. O dossiê será submetido à Comissão Nacional de Incorporação de Novas Tecnologias no SUS e marca o início de um processo que pode colocar o Brasil entre os países que oferecem profilaxia pré exposição de longa duração na rede pública. A previsão técnica indica que, se a tramitação ocorrer dentro do cronograma esperado, as primeiras doses poderão ser aplicadas nos serviços de referência até o encerramento do segundo semestre de 2026.
A proposta chega em um momento de reavaliação das estratégias de prevenção combinada. O SUS já disponibiliza a profilaxia oral gratuitamente e mais de 350 mil pessoas utilizaram os comprimidos desde o lançamento do programa. Apesar do alcance expressivo, gestores e pesquisadores identificaram um ponto frágil na rotina de proteção: a adesão diária. A necessidade de tomar o medicamento todos os dias, sem interrupções, mostrou-se um obstáculo concreto para uma parcela significativa da população, especialmente entre grupos com maior dificuldade de acesso regular às unidades de saúde.
É nesse cenário que a versão injetável desponta como um recurso capaz de alterar a dinâmica da prevenção. O cabotegravir atua inibindo uma etapa essencial do ciclo de multiplicação do vírus dentro das células humanas. Sua formulação de depósito, aplicada por via intramuscular, mantém concentrações protetoras no organismo por aproximadamente oito semanas. O intervalo estendido entre as doses reduz a dependência de uma disciplina medicamentosa diária e afasta o risco de janelas de vulnerabilidade causadas por esquecimento, dificuldades logísticas ou oscilações na rotina dos usuários.
O avanço do projeto ganhou corpo após a conclusão de uma pesquisa nacional robusta. Um estudo liderado pela Fundação Oswaldo Cruz recrutou 1,4 mil voluntários em seis capitais brasileiras para comparar a aceitação e a eficácia da profilaxia injetável frente ao comprimido. Os resultados revelaram que 83 por cento dos participantes manifestaram preferência pela injeção, um índice que evidencia o potencial de aceitação da nova tecnologia. O desempenho da adesão ao cronograma de aplicações também impressionou os responsáveis pela análise: 94 por cento dos voluntários retornaram às consultas dentro do período estipulado para receber a dose seguinte. Nenhum desses indivíduos adquiriu o vírus ao longo de toda a fase de seguimento clínico.
Os achados da Fiocruz reforçam um entendimento que já circulava entre especialistas internacionais. A periodicidade bimestral parece dialogar melhor com a realidade de quem precisa conciliar prevenção com trabalho, estudos, deslocamentos e outras demandas cotidianas. A supressão da rotina de ingestão de comprimidos também afasta o desconforto psicológico associado à lembrança permanente do risco e à eventual exposição involuntária da medicação no ambiente doméstico ou social.
Agora, o dossiê técnico será encaminhado à Conitec, o colegiado independente que funciona como porta de entrada para qualquer nova tecnologia que se pretenda oferecer na rede pública. A comissão examinará evidências de eficácia, segurança, impacto orçamentário e custo efetividade antes de emitir uma recomendação. Trata-se de uma etapa obrigatória, que inclui consultas à sociedade e análise comparativa com as alternativas já disponíveis. O veredito favorável é condição indispensável para que o Ministério da Saúde avance para a fase de negociação de preços e aquisição centralizada.
A expectativa do governo é de que o processo completo dure cerca de dezoito meses, considerando os prazos de análise técnica, audiências públicas e os trâmites administrativos subsequentes. Caso o cronograma se confirme, os primeiros lotes do cabotegravir injetável para profilaxia pré exposição poderão ser distribuídos aos estados e municípios até o último trimestre do próximo ano.
A chegada de uma profilaxia de longa duração ao maior sistema público de saúde do planeta carrega significados que ultrapassam as fronteiras da tecnologia farmacêutica. Representa a ampliação do direito de escolha do cidadão sobre o método preventivo que melhor se adapta à sua realidade. Abre caminho para que pessoas que não se adaptaram ao comprimido diário possam, pela primeira vez, contar com uma barreira contínua e eficaz contra o HIV. E recoloca o Brasil em posição de protagonismo na resposta global à epidemia, sustentada por uma política de acesso universal que incorpora inovação sem abandonar a lógica da equidade.
Fontes
As informações desta reportagem foram obtidas a partir de declarações do Ministério da Saúde, de dados da Comissão Nacional de Incorporação de Novas Tecnologias no SUS e dos resultados do estudo clínico multicêntrico coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz.