Morre aos 35 anos a atriz Daveigh Chase, conhecida por interpretar Samara no filme O Chamado
Daveigh Chase faleceu aos 35 anos em um hospital da Califórnia, vítima de falência múltipla de órgãos provocada por complicação séptica decorrente de um quadro agressivo de meningite bacteriana associada a infecção na corrente sanguínea. A atriz estava internada havia quatro dias, período em que seu estado clínico se deteriorou rapidamente, apesar das tentativas da equipe médica de conter o avanço da sepse. O óbito foi registrado na manhã de terça-feira e comunicado oficialmente por seus representantes legais após a conclusão dos procedimentos de verificação.
Nascida em Las Vegas, Nevada, em 24 de julho de 1990, Daveigh Elizabeth Chase-Schwallier iniciou sua trajetória artística antes mesmo de completar dez anos. O primeiro papel de destaque veio em 1998, quando integrou o elenco da peça teatral “O Mágico de Oz” em uma montagem local, interpretando uma das integrantes do universo de Dorothy. A experiência nos palcos despertou o interesse de agentes de elenco que acompanhavam produções infantis na costa oeste americana, abrindo caminho para testes em Los Angeles. Em menos de um ano, a atriz já acumulava participações em comerciais de televisão e pequenas aparições em séries como “Charmed” e “ER”, construindo uma base sólida antes de qualquer projeção nacional.
O ano de 2001 representou um ponto de virada em sua carreira. Daveigh foi selecionada em um processo seletivo que envolveu mais de duzentas candidatas para assumir a voz em inglês de Chihiro, protagonista da animação japonesa “A Viagem de Chihiro”, dirigida por Hayao Miyazaki e produzida pelo Studio Ghibli. A versão dublada para o mercado ocidental ficou sob supervisão da Disney e do diretor John Lasseter, que buscavam uma intérprete capaz de transmitir a complexidade emocional da personagem: uma menina comum lançada em um universo fantástico, obrigada a amadurecer para salvar os pais. Daveigh gravou suas falas ao longo de três meses em estúdios de Burbank, com sessões que frequentemente se estendiam por mais de seis horas. O resultado foi uma performance que capturou com precisão a fragilidade inicial de Chihiro e sua progressiva transformação em uma figura de coragem silenciosa. O filme conquistou o Oscar de Melhor Animação em 2003 e permanece como uma das obras mais reverenciadas da história do cinema, com a interpretação de Daveigh sendo frequentemente citada como elemento essencial para a recepção emocional do longa no público de língua inglesa.
No ano seguinte, a atriz viveria o período mais prolífico e contraditório de sua filmografia. Em junho de 2002, estreou nos cinemas americanos “Lilo & Stitch”, animação da Disney ambientada no Havaí, na qual Daveigh assumiu a voz da pequena Lilo Pelekai. A personagem exigia uma entrega diferente de tudo que ela havia feito até então: Lilo é uma garota excêntrica, criativa e socialmente deslocada, que lida com a perda dos pais e uma relação turbulenta com a irmã mais velha enquanto adota um alienígena como animal de estimação. A atriz construiu a voz a partir de referências de meninas havaianas que conheceu durante uma viagem de pesquisa organizada pelo estúdio, incorporando inflexões regionais e um ritmo de fala particular que mesclava ingenuidade e determinação. O filme se tornou um sucesso comercial e de crítica, gerando uma franquia que incluiu sequências diretas para vídeo, uma série de televisão exibida por mais de três temporadas e produtos licenciados que movimentaram centenas de milhões de dólares. Daveigh retornou ao papel em todas as produções derivadas, consolidando Lilo como uma das personagens animadas mais queridas da Disney na década de 2000.
A dualidade artística que marcaria sua carreira para sempre se completou em outubro daquele mesmo ano, com a chegada de “O Chamado” aos cinemas. O filme de terror dirigido por Gore Verbinski e estrelado por Naomi Watts era a adaptação americana do sucesso japonês “Ringu”, e Daveigh foi escalada para interpretar Samara Morgan, a criança fantasmagórica que assombra uma fita de vídeo amaldiçoada. O processo de preparação para o papel foi documentado em registros internos da produção e revela um nível de exigência física incomum para uma atriz de doze anos. Durante oito semanas, Daveigh treinou com uma coreógrafa especializada em movimentos não naturais, aprendendo a caminhar de forma errática, com os ombros caídos e a cabeça inclinada em ângulos que desafiavam a anatomia convencional. As filmagens da cena mais emblemática do longa, na qual Samara emerge de um poço e atravessa a tela de uma televisão, consumiram cinco dias inteiros de trabalho. A atriz passou horas submersa em um tanque de água refrigerada, usando uma prótese facial que simulava pele decomposta e lentes de contato que limitavam severamente sua visão. A maquiagem protética exigia três horas diárias de aplicação e mais uma hora para remoção, período durante o qual Daveigh permanecia imóvel enquanto os artistas de efeitos especiais moldavam as camadas de látex e silicone diretamente sobre seu rosto.
O impacto cultural de Samara foi imediato e duradouro. A imagem da figura pálida de cabelos negros cobrindo o rosto, vestindo um camisão branco encharcado, tornou-se um ícone instantâneo do cinema de terror, referenciada e parodiada em inúmeras produções subsequentes. O que tornava a performance de Daveigh particularmente perturbadora era a ausência total de falas da personagem; Samara se comunicava exclusivamente através de movimentos corporais e da presença ameaçadora que a atriz conseguia projetar mesmo quando completamente imóvel. Críticos especializados destacaram, em análises publicadas na época, como a combinação entre a fragilidade infantil e a malevolência sobrenatural criava um contraste profundamente inquietante, elevando o filme acima das convenções do gênero.
Após o pico de exposição alcançado com esses três papéis, Daveigh fez uma transição calculada para a televisão dramática. Em 2006, foi escalada para o elenco recorrente da série “Big Love”, produção da HBO que explorava os conflitos de uma família polígama nos subúrbios de Utah. Sua personagem, Rhonda Volmer, era uma adolescente criada em um ambiente religioso opressivo, destinada a um casamento arranjado com um homem muito mais velho. O arco narrativo de Rhonda atravessou três temporadas e exigiu que a atriz navegasse por camadas complexas de manipulação emocional, fanatismo religioso e trauma psicológico. A performance foi elogiada por publicações como Variety e The Hollywood Reporter, que destacaram sua capacidade de sugerir perigo e vulnerabilidade simultaneamente, uma extensão adulta da ambiguidade que já havia demonstrado em seus papéis infantis.
A carreira de Daveigh Chase começou a desacelerar no início da década de 2010. Ela participou de alguns filmes independentes de baixo orçamento e fez aparições pontuais em séries, mas gradualmente se afastou dos holofotes. Pessoas próximas à atriz relataram que ela enfrentava dificuldades para lidar com o encaixe em papéis adultos, uma transição notoriamente desafiadora para artistas que alcançam a fama na infância. A sombra de Samara, personagem que a consagrou, também se mostrou uma presença constante em sua vida profissional: diretores de elenco frequentemente a procuravam apenas para projetos de terror, limitando as oportunidades de demonstrar versatilidade em outros gêneros.
Nos últimos anos, Daveigh vivia de forma reservada em uma pequena cidade no interior da Califórnia. Mantinha contato regular com um círculo reduzido de amigos da indústria e dedicava seu tempo a atividades como pintura e trabalho voluntário em abrigos de animais. Não mantinha perfis públicos em redes sociais e raramente concedia entrevistas. Em sua última aparição documentada, ocorrida em 2023 durante um evento beneficente local, a atriz parecia tranquila e mencionou a possibilidade de retornar à dublagem, área que sempre considerou seu lar artístico mais genuíno.
A notícia de sua morte mobilizou reações em diferentes setores da indústria do entretenimento. Colegas de elenco e profissionais que trabalharam com ela ao longo dos anos manifestaram pesar pela perda precoce, descrevendo Daveigh como uma artista dedicada e meticulosa, alguém que levava extraordinária seriedade a cada papel, independentemente do tamanho ou do orçamento da produção. Fãs ao redor do mundo organizaram homenagens espontâneas nas redes sociais, compartilhando cenas de seus filmes mais marcantes e depoimentos sobre como suas personagens moldaram memórias afetivas de infância e adolescência.
Daveigh Chase deixa um legado singular na história do cinema contemporâneo. Em um intervalo de menos de três anos, ela ajudou a construir três personagens que transcenderam suas respectivas obras originais para se tornarem referências culturais permanentes. Chihiro continua sendo a porta de entrada de milhões de espectadores ocidentais para o universo do Studio Ghibli. Lilo permanece como um símbolo de representatividade infantil e diversidade familiar na animação americana. E Samara segue habitando o imaginário coletivo do horror, uma presença que, duas décadas depois, ainda provoca calafrios em novas gerações de espectadores. A atriz morreu jovem demais, mas os mundos que ela ajudou a criar são perenes.
Fontes: Registros oficiais da Disney e do Studio Ghibli sobre a dublagem de A Viagem de Chihiro e Lilo & Stitch. Documentação interna da DreamWorks Pictures sobre a produção de O Chamado. Arquivos da HBO referentes à série Big Love. Laudo médico emitido pelo hospital californiano onde a atriz esteve internada. Comunicado oficial dos representantes de Daveigh Chase. Depoimentos de colegas de elenco e equipe técnica colhidos por veículos de imprensa americanos.