O Avô de Elon Musk e o Sonho de Acabar com o Dinheiro e a Democracia
O homem que sonhou em governar um continente sem políticos e sem dinheiro era o avô de Elon Musk
A trajetória esquecida de Joshua N. Goldman, líder do movimento Technocracia Inc. no Canadá, revela um projeto radical de sociedade que ecoa em debates contemporâneos sobre tecnologia, poder e democracia
A Grande Depressão dos anos 1930 produziu não apenas miséria econômica, mas também uma explosão de ideias radicais sobre como reorganizar a sociedade. Entre os movimentos que surgiram nesse período turbulento, poucos foram tão ambiciosos quanto a Technocracia Inc., organização fundada no Canadá com a proposta explícita de abolir o dinheiro, eliminar a democracia representativa e entregar o controle absoluto da sociedade a cientistas e engenheiros.
O que torna essa história ainda mais surpreendente é a identidade de seu principal líder. Joshua N. Goldman, o homem que comandava a organização e se apresentava publicamente apenas pelo código numérico 104 50 Dígito 1, era o avô materno de Elon Musk, o empresário que hoje domina setores estratégicos da economia global e influencia debates políticos em diversos países.
A história desse movimento e suas conexões com o presente são exploradas em profundidade pelo documentário Technocracia, produzido pela Brasil Paralelo. A obra reconstitui a trajetória de Goldman, analisa os princípios que orientavam a organização e propõe reflexões sobre como essas ideias podem ter atravessado gerações e influenciado a visão de mundo do homem mais rico do planeta.
O surgimento de uma utopia cinzenta em meio ao colapso econômico
O contexto histórico que permitiu o nascimento da Technocracia Inc. foi marcado por desesperança e descrença nas instituições tradicionais. A quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 desencadeou uma crise que se espalhou por todo o mundo capitalista. No Canadá, assim como nos Estados Unidos, milhões de trabalhadores perderam seus empregos, famílias inteiras ficaram sem moradia e a confiança nos governos eleitos despencou.
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Foi nesse cenário que Joshua N. Goldman começou a articular um grupo de intelectuais, engenheiros e cientistas que compartilhavam uma convicção comum. Para eles, a democracia representativa havia fracassado porque colocava decisões complexas nas mãos de pessoas sem conhecimento técnico. Políticos profissionais, argumentavam os tecnocratas, estavam mais preocupados com eleições e interesses partidários do que com o bem-estar da população.
A solução proposta era drástica. Em vez de eleger representantes, a sociedade deveria ser administrada por um corpo técnico permanente, selecionado com base em competência comprovada. Cientistas cuidariam da pesquisa, engenheiros planejariam a infraestrutura, economistas organizariam a produção e a distribuição de bens. A política, como atividade humana, seria simplesmente eliminada.
A abolição do dinheiro como princípio fundamental
Um dos pilares centrais do pensamento tecnocrata era a rejeição absoluta do sistema monetário. Goldman e seus seguidores acreditavam que o dinheiro era a fonte de todos os males sociais. Na visão deles, a moeda criava desigualdades artificiais, estimulava a acumulação egoísta e impedia que os recursos da sociedade fossem distribuídos de acordo com as necessidades reais das pessoas.
Em substituição ao dinheiro, a Technocracia Inc. propunha um sistema baseado em certificados de energia. Esses certificados representariam a quantidade de trabalho e recursos necessários para produzir cada bem ou serviço. A ideia era que cada cidadão recebesse uma quantidade de certificados proporcional à sua contribuição para a sociedade, eliminando a especulação financeira e a concentração de riqueza.
Os membros do movimento levavam essa crença tão a sério que adotavam práticas cotidianas destinadas a demonstrar seu desapego aos valores materiais. Todos usavam uniformes cinza, idênticos para homens e mulheres, eliminando qualquer possibilidade de distinção por vestimenta. Os carros utilizados pelos integrantes também eram pintados de cinza, criando uma frota padronizada que simbolizava a igualdade absoluta.
A eliminação da individualidade como método de racionalidade
Outro aspecto marcante da Technocracia Inc. era a obsessão com a impessoalidade. Goldman acreditava que o ego humano era um obstáculo ao pensamento racional. Vaidades, ambições pessoais e desejos individuais interferiam na capacidade de tomar decisões objetivas. A solução encontrada foi eliminar os nomes próprios e substituí-los por códigos numéricos.
Joshua N. Goldman se identificava publicamente como 104 50 Dígito 1. Esse código era utilizado em documentos, discursos e interações cotidianas. A prática se estendia a todos os membros do movimento, que recebiam números de identificação ao ingressar na organização. O objetivo declarado era criar uma identidade coletiva baseada na função social, não na personalidade individual.
Essa abordagem radical gerava reações variadas. Alguns observadores viam na padronização um sinal de disciplina e compromisso com ideais elevados. Outros enxergavam uma semelhança perturbadora com os regimes totalitários que começavam a surgir na Europa. A própria estética cinzenta do movimento, com seus uniformes e carros padronizados, evocava comparações com os fascismos italiano e alemão.
A ambição continental de Joshua N. Goldman
Goldman não limitava suas ambições ao território canadense. Em discursos e documentos internos, ele defendia a criação de um governo tecnocrata que controlasse toda a América do Norte. Seu projeto previa uma administração unificada que se estenderia do Polo Norte ao Canal do Panamá, abrangendo o que hoje são Canadá, Estados Unidos, México e os países da América Central.
Para Goldman, essa vasta região possuía todos os recursos necessários para construir uma sociedade próspera e autossuficiente. As reservas minerais do Canadá, a capacidade industrial dos Estados Unidos, a mão de obra do México e a biodiversidade da América Central formariam um conjunto perfeito para o planejamento racional. A eliminação das fronteiras nacionais era vista como um passo necessário para alcançar a eficiência máxima.
O movimento chegou a organizar conferências e publicações detalhando esse projeto continental. Mapas foram desenhados mostrando a nova divisão administrativa, que ignorava completamente as fronteiras políticas existentes. As províncias canadenses, os estados americanos e os departamentos mexicanos seriam substituídos por regiões funcionais, definidas por critérios geográficos e econômicos.
O auge e o declínio da Technocracia Inc.
Durante os primeiros anos da década de 1930, a Technocracia Inc. experimentou um crescimento notável. Palestras de Goldman atraíam multidões em cidades canadenses e americanas. O movimento publicava boletins informativos, organizava grupos de estudo e recrutava membros em universidades e sindicatos. A promessa de uma sociedade planejada cientificamente, sem desemprego e sem pobreza, encontrava eco em uma população desesperada por soluções.
O sucesso, porém, foi efêmero. A partir de 1935, o movimento começou a perder força. Divergências internas sobre estratégias de ação enfraqueceram a coesão do grupo. A recuperação gradual da economia capitalista reduziu o apelo das propostas radicais. E a ascensão do nazismo na Alemanha gerou desconfiança crescente em relação a qualquer ideologia que propusesse a concentração de poder nas mãos de uma elite não eleita.
A Segunda Guerra Mundial representou o golpe final. Com o mundo mobilizado para o esforço bélico, as discussões sobre reorganização social perderam espaço. A Technocracia Inc. continuou existindo formalmente por décadas, mas jamais recuperou a relevância dos primeiros anos. Joshua N. Goldman manteve suas convicções até o fim da vida, publicando ocasionalmente textos defendendo o planejamento científico da sociedade.
A herança familiar e a formação de Elon Musk
Joshua N. Goldman faleceu sem ver seu projeto realizado. Sua filha, Maye Musk, seguiu um caminho completamente diferente, tornando-se modelo e nutricionista de renome internacional. Mas o ambiente intelectual em que foi criada deixou marcas profundas. As discussões sobre ciência, planejamento e organização social faziam parte do cotidiano familiar.
Elon Musk cresceu ouvindo histórias sobre o avô e suas ideias. Embora raramente fale sobre Joshua N. Goldman em público, o empresário demonstra familiaridade com conceitos que ecoam o pensamento tecnocrata. Sua insistência em que problemas complexos devem ser resolvidos por especialistas técnicos, sua desconfiança em relação a políticos profissionais e sua ambição de pensar em escala planetária encontram paralelos evidentes nas propostas do avô.
O documentário da Brasil Paralelo explora essas conexões sem afirmar que Musk seja um tecnocrata consciente. A obra sugere, no entanto, que o ambiente familiar pode ter moldado sua visão de mundo de maneiras sutis mas significativas. A crença de que a ciência e a engenharia oferecem soluções superiores às da política tradicional é um fio condutor que liga as duas gerações.
As implicações contemporâneas do pensamento tecnocrata
A história de Joshua N. Goldman permanece relevante porque as ideias que ele defendia não desapareceram. Pelo contrário, em pleno século XXI, o pensamento tecnocrata ressurge com força renovada. A ascensão das grandes empresas de tecnologia, a crescente complexidade dos problemas globais e a desconfiança generalizada nas instituições democráticas criaram um ambiente propício para propostas que prometem eficiência em troca de participação popular.
Especialistas ouvidos pela produção do documentário alertam para os riscos dessa tendência. A concentração de poder nas mãos de uma elite técnica não eleita pode produzir decisões tecnicamente corretas, mas socialmente injustas. A eliminação do debate político, com sua bagunça e imperfeição, também elimina mecanismos importantes de controle social e prestação de contas.
A experiência histórica da Technocracia Inc. oferece lições valiosas. O movimento fracassou não apenas por circunstâncias externas, mas também por contradições internas. A obsessão com a impessoalidade não eliminou as disputas de poder dentro da organização. A crença na superioridade técnica não impediu erros de avaliação e planejamento. E a rejeição da política não protegeu o movimento das pressões e interesses que caracterizam qualquer atividade humana coletiva.
O valor do documentário para o debate público
A produção da Brasil Paralelo representa uma contribuição significativa para o debate sobre tecnologia, poder e democracia. Ao resgatar a história de Joshua N. Goldman, o documentário oferece material para reflexões que vão muito além da curiosidade genealógica sobre a família de Elon Musk. A obra convida o espectador a pensar sobre questões fundamentais do mundo contemporâneo.
Como equilibrar a necessidade de conhecimento técnico com a exigência de participação democrática? Qual o papel dos especialistas em uma sociedade que valoriza a igualdade política? Até que ponto a eficiência justifica a concentração de poder? Essas perguntas não têm respostas fáceis, mas ignorá-las seria irresponsável em um momento em que as decisões tecnológicas afetam a vida de bilhões de pessoas.
O documentário também cumpre uma função histórica importante. Ao recuperar documentos, fotografias e depoimentos sobre a Technocracia Inc., a produção preserva a memória de um movimento que, embora derrotado, influenciou debates posteriores sobre planejamento econômico e organização social. A história de Joshua N. Goldman merece ser conhecida não como curiosidade, mas como capítulo relevante da história das ideias políticas no século XX.
A pergunta que permanece
Joshua N. Goldman morreu acreditando que a humanidade caminharia inevitavelmente para o planejamento científico integral. Sua visão não se concretizou na forma que ele imaginava, mas elementos de seu pensamento sobrevivem em discursos contemporâneos sobre eficiência, inovação e modernização. A pergunta que sua história levanta permanece atual: é possível conciliar o conhecimento técnico com a soberania popular, ou essas duas forças estão condenadas a um conflito permanente?
O documentário Technocracia, da Brasil Paralelo, não oferece respostas definitivas. Em vez disso, apresenta os fatos, contextualiza as ideias e permite que cada espectador tire suas próprias conclusões. A obra cumpre assim a função mais nobre do jornalismo documental: informar, provocar reflexão e contribuir para um debate público mais qualificado.
A história do avô de Elon Musk é, em última análise, a história de uma ideia que se recusa a morrer. O sonho de uma sociedade governada pela razão técnica continua seduzindo mentes brilhantes em todo o mundo. Cabe a cada geração decidir se esse sonho representa uma promessa de progresso ou uma ameaça à liberdade.
Fontes
Documentário Technocracia, produzido pela Brasil Paralelo, disponível na plataforma oficial da produtora.
Arquivos históricos da Technocracy Inc., incluindo panfletos, fotografias, mapas e registros de discursos do movimento.
Documentos biográficos da família Musk, incluindo entrevistas publicadas e materiais de arquivo familiar.
Estudos acadêmicos sobre movimentos tecnocráticos no Canadá e nos Estados Unidos durante a Grande Depressão.
Registros históricos sobre Joshua N. Goldman e sua atuação como líder da Technocracia Inc. no Canadá.
Publicações especializadas em história das ideias políticas e movimentos sociais do século XX.