O Brasil que celebra assassinas e esquece o gênio da medicina que salvou milhares de vidas
Enquanto criminosas ganham filmes e séries, o legado científico de Enéas Carneiro segue ignorado pelo cinema nacional
O Cinema Brasileiro e a Memória Seletiva
A indústria audiovisual brasileira consolidou nas últimas décadas um padrão editorial que merece análise cuidadosa. O país produziu filmes, séries e documentários sobre algumas das criminosas mais notórias de sua história recente, enquanto figuras de contribuição científica, médica e intelectual comprovada permanecem absolutamente ausentes das telas. Este desequilíbrio não reflete apenas preferências comerciais. Ele revela uma escolha deliberada sobre quais narrativas merecem espaço na memória coletiva nacional.
O caso de Enéas Ferreira Carneiro é particularmente ilustrativo dessa distorção. Nascido em Rio Branco, no Acre, em 5 de novembro de 1938, Enéas construiu uma trajetória singular em múltiplas frentes. Formou-se médico pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro em 1962. Especializou-se em cardiologia. Tornou-se uma das maiores autoridades brasileiras em eletrofisiologia cardíaca. Publicou obra de referência sobre eletrocardiograma e vetorcardiograma em 1977. Formou milhares de médicos em cursos de extensão que se tornaram referência nacional. Ingressou na política no final dos anos 1980. Concorreu à Presidência da República em três eleições consecutivas. Elegeu-se deputado federal em 2002 com a maior votação nominal da história do país até aquele momento. Faleceu em 6 de maio de 2007, aos 68 anos, vítima de leucemia.
Nenhuma dessas realizações foi transformada em obra audiovisual. Não existe um único longa-metragem sobre sua vida. Não há documentário sobre sua contribuição à cardiologia brasileira. Não há série que reconstrua sua trajetória política. O silêncio é total e duradouro.
Enquanto isso, Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga receberam tratamento completamente distinto. Suzane, condenada pelo assassinato dos próprios pais em 2002, tornou-se personagem central de dois filmes lançados em 2021 pela plataforma Amazon Prime Video: A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais. As produções reconstroem o crime, exploram a psicologia da assassina e alcançaram grande repercussão nacional. Elize Matsunaga, condenada pelo assassinato e esquartejamento do marido em 2012, protagonizou a série documental Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, produzida pela Netflix e lançada em 2021, com quatro episódios dedicados ao caso.
A comparação é inevitável e desconfortável. O país que encontra recursos, tempo e disposição para esmiuçar cada detalhe da psicopatia de Suzane von Richthofen e da frieza calculista de Elize Matsunaga não demonstrou qualquer interesse em contar a história de um homem que dedicou sua vida à ciência, à medicina e à formação de gerações de profissionais de saúde. A discrepância revela muito sobre as prioridades culturais do Brasil e sobre o tipo de memória que se decide preservar ou apagar.
A Lógica Comercial do True Crime
O fenômeno da espetacularização do crime real não é exclusividade brasileira. O gênero True Crime cresceu exponencialmente em todo o mundo nas últimas duas décadas, impulsionado pela expansão das plataformas de streaming e pela fragmentação das audiências. Documentários sobre assassinos em série, crimes passionais e casos não resolvidos tornaram-se produtos altamente lucrativos, com audiência fiel e engajada.
No Brasil, o fenômeno encontrou terreno fértil. O país possui uma longa tradição de cobertura policial sensacionalista, que remonta aos programas de televisão dos anos 1990 e se estende aos podcasts e canais do YouTube na atualidade. A migração dessa lógica para o cinema e para o streaming foi natural e previsível. Produtores identificaram no crime real uma fórmula de sucesso: histórias com começo, meio e fim definidos, personagens extremos, conflitos intensos, julgamentos dramáticos e um público já familiarizado com os casos.
Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga se encaixam perfeitamente nessa fórmula. Seus crimes envolvem traição familiar, dinheiro, sexo e violência extrema. Os julgamentos foram amplamente cobertos pela imprensa. Os detalhes sórdidos alimentaram anos de especulação e curiosidade mórbida. Quando as plataformas de streaming decidiram investir nessas histórias, encontraram um público ávido e preparado para consumir.
Enéas Carneiro, por outro lado, não se encaixa nessa lógica. Sua história não contém sangue. Não há crimes a serem desvendados. Não há reviravoltas sensacionais. Sua trajetória exige um tipo de narrativa que o cinema comercial brasileiro tem demonstrado pouca disposição em produzir: um mergulho profundo na história recente do país, na ciência médica brasileira, na política nacional das décadas de 1980 e 1990, nos debates econômicos e geopolíticos que moldaram o Brasil contemporâneo. Exige, em suma, um esforço intelectual que vai muito além da fórmula consagrada do crime espetacularizado.
O Legado Científico Ignorado
A contribuição de Enéas Carneiro à cardiologia brasileira é vasta, documentada e duradoura. Sua obra de referência, O Eletrocardiograma e o Vetorcardiograma, publicada em 1977, transformou a prática clínica no país. O livro sistematizou o conhecimento sobre a atividade elétrica do coração, desmistificou a interpretação de vetorcardiogramas e arritmias e tornou o eletrocardiograma um instrumento diagnóstico acessível a médicos de todas as especialidades.
A relevância dessa contribuição não pode ser subestimada. O eletrocardiograma é um dos exames mais utilizados em todo o mundo para a detecção de infartos, arritmias, isquemias e outras condições cardíacas potencialmente fatais. Em unidades de terapia intensiva, prontos-socorros e emergências, a leitura correta desse exame pode significar a diferença entre a vida e a morte. Ao sistematizar o conhecimento sobre a atividade elétrica do coração e torná-lo acessível a médicos de todas as especialidades, Enéas Carneiro reduziu margens de erro em diagnósticos críticos e elevou o padrão do atendimento cardiovascular no Brasil por décadas.
A base teórica e investigativa construída por Enéas serviu de alicerce para a criação de seus cursos de extensão, que formaram milhares de médicos, residentes e cardiologistas em todo o território nacional. Seus cursos de eletrocardiograma, ministrados durante anos no Rio de Janeiro e em outras capitais, tornaram-se referência obrigatória para qualquer profissional que desejasse dominar a leitura de exames cardíacos. A didática impecável, a profundidade teórica e a capacidade de traduzir conceitos complexos em linguagem acessível caracterizavam suas aulas e palestras, que lotavam auditórios e transformavam a compreensão da cardiologia para sucessivas gerações de médicos.
O Pensador Político e o Fenômeno Eleitoral
A trajetória de Enéas Carneiro não se limita à medicina. A partir da década de 1980, ele ingressou na vida pública e tornou-se uma das figuras políticas mais singulares da história recente do Brasil. Suas campanhas presidenciais, em 1989, 1994 e 1998, marcaram época por sua retórica contundente, seu nacionalismo explícito e suas críticas ferozes ao modelo econômico neoliberal que se consolidava no país.
Enéas defendia a soberania nacional, o desenvolvimento tecnológico autônomo, o fortalecimento da indústria nacional e a valorização da ciência brasileira. Suas propostas incluíam a construção da bomba atômica como instrumento de dissuasão e afirmação geopolítica, a estatização de setores estratégicos da economia e a priorização da educação científica. Seu discurso, proferido em tom grave e pausado, com frases curtas e impacto retórico calculado, conquistou milhões de eleitores e tornou-se um fenômeno de comunicação política sem precedentes no Brasil.
Nas eleições de 1994, Enéas Carneiro obteve 4.671.457 votos, ficando em terceiro lugar na disputa presidencial, atrás apenas de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1998, repetiu o feito com 1.447.090 votos. Sua legenda, o Partido de Reedificação da Ordem Nacional, o PRONA, elegeu bancadas expressivas de deputados federais, incluindo o próprio Enéas, que se tornou deputado federal pelo estado de São Paulo em 2002, com 1.573.112 votos nominais, a maior votação da história do país até aquele momento.
Enéas Carneiro faleceu em 6 de maio de 2007, aos 68 anos, vítima de leucemia, deixando um legado político que permanece objeto de intenso debate. Para seus admiradores, ele representou a resistência intelectual contra o pensamento único e a defesa intransigente da soberania nacional. Para seus críticos, suas propostas eram consideradas radicais e anacrônicas. O que não se pode negar é a singularidade de sua trajetória: um médico, cientista e professor que se tornou um dos políticos mais votados do país sem jamais abrir mão de suas convicções, de seu estilo peculiar e de sua independência intelectual.
O Apagamento da Memória Científica Brasileira
A ausência de uma cinebiografia sobre Enéas Carneiro não é apenas uma lacuna cultural, mas um sintoma do apagamento sistemático da memória científica brasileira. O cinema nacional demonstrou, ao longo de sua história, capacidade de produzir biografias memoráveis de figuras políticas, artísticas e esportivas. No entanto, cientistas e médicos raramente recebem o mesmo tratamento, a menos que estejam envolvidos em escândalos ou controvérsias que possam ser exploradas comercialmente.
O contraste com o tratamento dispensado a criminosas como Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga é revelador. As produções sobre essas figuras não se limitam a reconstruir os crimes, mas mergulham em suas psicologias, exploram suas infâncias, entrevistam familiares, reproduzem diálogos e criam narrativas complexas que humanizam as assassinas. Há, nesse esforço, uma lógica mercadológica clara: a audiência do True Crime é fiel, engajada e crescente. O mesmo público que consome documentários sobre serial killers americanos também se interessa por casos brasileiros, e as plataformas de streaming identificaram nessa demanda uma oportunidade de negócio altamente lucrativa.
Enéas Carneiro, por outro lado, não se encaixa nessa lógica. Sua história não contém sangue, não há crimes a serem desvendados, não há reviravoltas sensacionais. Sua trajetória exige um tipo de narrativa que o cinema comercial brasileiro tem demonstrado pouca disposição em produzir: um mergulho profundo na história recente do país, na ciência médica brasileira, na política nacional das décadas de 1980 e 1990, nos debates econômicos e geopolíticos que moldaram o Brasil contemporâneo. Exige, em suma, um esforço intelectual que vai muito além da fórmula consagrada do crime espetacularizado.
O resultado dessa omissão é o empobrecimento da memória nacional. Milhões de brasileiros conhecem detalhes da vida de Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, mas desconhecem completamente a contribuição de Enéas Carneiro à cardiologia nacional, sua obra científica, seus cursos de formação médica ou seu pensamento político. O apagamento não é obra do acaso, mas consequência direta de escolhas editoriais e comerciais que determinam quais figuras merecem ser lembradas e quais devem ser esquecidas.
As Possibilidades de Representação Audiovisual
A produção de uma obra audiovisual sobre Enéas Carneiro não seria apenas um ato de justiça histórica, mas também uma oportunidade de explorar narrativas complexas e instigantes. Sua infância no Acre, sua formação médica no Rio de Janeiro, sua ascensão como autoridade em eletrofisiologia, sua entrada tardia na política e sua transformação em fenômeno eleitoral constituem material biográfico riquíssimo, capaz de sustentar um longa-metragem, uma série documental ou uma minissérie dramática de alto nível.
A história de Enéas é, em muitos aspectos, a história do Brasil das últimas décadas: a migração do Norte para o Sudeste, a expansão do ensino superior, a consolidação da medicina científica, a crise econômica dos anos 1980, a redemocratização, o debate sobre o neoliberalismo, a globalização e a soberania nacional. Contar sua trajetória é contar a história de um país que se transformou profundamente, e que ainda hoje debate as mesmas questões que Enéas levantou em seus discursos: a dependência tecnológica, a desindustrialização, a submissão aos interesses estrangeiros, a urgência de investir em ciência e educação.
A obra científica de Enéas Carneiro, por sua vez, permanece atual e relevante. Seu livro sobre eletrocardiograma e vetorcardiograma continua sendo referência para médicos e estudantes de medicina em todo o país, décadas após sua publicação. Seus cursos formaram profissionais que hoje ocupam posições de destaque em hospitais, universidades e instituições de pesquisa. O legado científico de Enéas não é apenas histórico: ele está vivo, ativo e operante na prática médica diária de milhares de cardiologistas brasileiros.
A Dívida do Cinema Brasileiro
O cinema brasileiro tem uma dívida com Enéas Carneiro. Uma dívida que não se mede apenas em termos de representação, mas em termos de responsabilidade histórica. Enquanto o país celebrar suas criminosas e ignorar seus cientistas, a memória nacional permanecerá distorcida, incompleta e injusta. A produção de uma cinebiografia sobre Enéas não seria um favor à sua memória, mas um ato de resgate da própria identidade brasileira, de reconhecimento da importância da ciência e do pensamento crítico em um país que insiste em valorizar o espetáculo em detrimento da substância.
O silêncio das telas sobre Enéas Carneiro é, em última análise, um silêncio sobre o próprio Brasil: sobre sua ciência, sua medicina, sua política, seus dilemas e suas contradições. Romper esse silêncio é uma tarefa que cabe aos produtores culturais, aos cineastas, aos roteiristas e às plataformas de streaming que decidem, a cada ano, quais histórias merecem ser contadas. Enquanto essa decisão não for tomada, o contraste entre a celebração de assassinas e o esquecimento de um dos maiores médicos e pensadores do país continuará a envergonhar a cultura brasileira e a revelar as prioridades distorcidas de sua indústria do entretenimento.
Fontes Consultadas
Acervo bibliográfico da Biblioteca Nacional do Brasil, seção de obras raras e publicações médicas do século XX.
Registros históricos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo referentes aos processos criminais de Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga.
Publicações científicas indexadas na Biblioteca Virtual em Saúde, mantida pelo Ministério da Saúde, referentes à cardiologia e eletrofisiologia brasileira.
Arquivos do Tribunal Superior Eleitoral referentes às eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, incluindo resultados oficiais e registros de candidatura.
Registros da Câmara dos Deputados referentes ao mandato parlamentar de Enéas Carneiro, incluindo discursos, proposições legislativas e participação em comissões.
Obras publicadas pela editora Atheneu sobre cardiologia, eletrofisiologia e eletrocardiograma, incluindo a edição original de 1977 de O Eletrocardiograma e o Vetorcardiograma.
Catálogos de produção das plataformas Amazon Prime Video e Netflix referentes aos anos de 2021 e 2022, incluindo fichas técnicas e sinopses oficiais das produções citadas.
Documentos públicos do Conselho Federal de Medicina referentes à carreira, formação e atuação profissional de médicos brasileiros.
Arquivos históricos de jornais e revistas brasileiros que cobriram as campanhas presidenciais de Enéas Carneiro e os julgamentos de Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga.
Registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde referentes ao óbito de Enéas Ferreira Carneiro.
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