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Curiosidades

O ex-oficial da CIA John Kiriakou afirma que a agência pode acessar as câmeras e os microfones de celulares e laptops

By Régis Andrade
24 de outubro de 2026 5 Min Read
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Ex oficial da CIA diz que câmeras e microfones de celulares e laptops já podem ser acessados em ações remotas e seletivas

A confirmação feita por um veterano da agência de inteligência norte-americana reacendeu um debate que, longe de ser especulativo, encontra lastro em documentos técnicos tornados públicos há quase uma década. John Kiriakou, que atuou por quinze anos na CIA e chefiou operações de contraterrorismo no Paquistão após os atentados de 11 de setembro, afirmou sem rodeios que a agência tem capacidade de acessar câmeras e microfones de celulares e laptops, além de transformar aparelhos domésticos em instrumentos de escuta. A declaração, feita em entrevista ao canal britânico LADbible, não se apoia em suposição: ancora-se no que ficou conhecido como Vault 7, o maior vazamento de documentos classificados da história da agência, ocorrido em 2017.

O Vault 7 veio a público em março daquele ano, quando o WikiLeaks começou a divulgar milhares de arquivos internos da CIA que descreviam, em detalhes operacionais, ferramentas de invasão desenvolvidas pelo Centro de Guerra Cibernética da agência. O material não se resumia a códigos ou nomes de programas: incluía manuais de uso, notas técnicas e instruções passo a passo para comprometer dispositivos específicos. Entre os alvos descritos estavam iPhones, aparelhos Android, computadores com Windows, sistemas Linux, roteadores, televisores inteligentes e até componentes embarcados de veículos. A existência do vazamento é um fato estabelecido, e seu conteúdo foi amplamente analisado por pesquisadores de segurança e veículos de imprensa ao redor do mundo.

O programa que mais chamou atenção foi batizado de Weeping Angel. Desenvolvido em parceria com o serviço de inteligência britânico MI5, o Weeping Angel permitia infectar televisores inteligentes da linha Samsung F-series e colocá-los em um estado de “falso desligamento”. O LED indicador de que o aparelho estava ligado era apagado, mas o televisor continuava funcionando em segundo plano: o microfone embutido permanecia ativo, captando conversas e ruídos do ambiente, e o áudio era transmitido pela rede sem fio para um servidor controlado pela agência. O modo de escuta só era interrompido quando o proprietário ligava a TV novamente e o malware se desativava temporariamente para não ser percebido. O funcionamento foi descrito em detalhes nos documentos vazados e corroborado por análises técnicas independentes.

A menção de Kiriakou ao controle remoto de veículos também encontra respaldo no material do Vault 7. Os documentos revelavam que a CIA desenvolvera ferramentas capazes de interagir com sistemas embarcados de automóveis, o que, em tese, permitiria assumir o controle de funções críticas do veículo. O ex-oficial afirmou que a tecnologia poderia ser usada para simular acidentes, uma possibilidade que, segundo ele, foi o elemento que mais o surpreendeu nas revelações. A existência de tais ferramentas não implica uso indiscriminado, mas demonstra que o arsenal técnico da agência extrapola os limites dos dispositivos de comunicação tradicionais.

É indispensável, no entanto, separar com precisão a capacidade técnica da ideia de uma vigilância automática e universal. Os documentos do Vault 7 não descrevem um sistema que varre indiscriminadamente os dispositivos de toda a população. O que o material evidencia é a existência de ferramentas de invasão seletiva, voltadas a alvos previamente escolhidos em operações de inteligência. Para que um celular ou laptop seja comprometido, é necessário que o dispositivo seja infectado por meio de uma ação direcionada, que pode envolver desde o envio de um arquivo malicioso até o acesso físico ao aparelho. Uma vez instalado o implante, o atacante pode capturar áudio ambiente, acionar câmeras e acessar dados antes ou depois da criptografia. Aplicativos de mensagens como Signal e WhatsApp não são necessariamente quebrados em seus protocolos criptográficos; o que ocorre é que o próprio aparelho, já comprometido, se torna uma janela aberta para tudo o que vê, digita ou fala.

A dimensão internacional dessas capacidades também foi abordada por Kiriakou. Ele afirmou que não se trata de uma exclusividade norte-americana: serviços de inteligência do Reino Unido, França, Alemanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Rússia, China, Israel e Irã desenvolveram e utilizam ferramentas semelhantes. A avaliação é corroborada por especialistas. Em 2017, analistas australianos afirmaram que a ASIO, o serviço de inteligência do país, provavelmente tinha acesso a tecnologias equivalentes em razão da estreita cooperação com os Estados Unidos. Um diretor de centro de pesquisa em software de uma universidade australiana declarou que a agência “absolutamente” teria essa capacidade, embora em escala possivelmente menor, dada a diferença orçamentária. Outro pesquisador classificou como “altamente provável” que o país dispusesse das mesmas ferramentas, ainda que o governo não discuta o assunto publicamente. A lógica é a de que o desenvolvimento de implantes cibernéticos não é monopólio de uma nação, mas parte do repertório de Estados com aparatos de inteligência consolidados.

O caso do Vault 7 teve, ainda, um desdobramento judicial que confirma a gravidade atribuída pelas autoridades ao vazamento. Joshua Schulte, engenheiro de software da CIA responsável pela subtração e divulgação dos arquivos, foi condenado a quarenta anos de prisão. O governo dos Estados Unidos descreveu o episódio como o maior roubo de informações classificadas na história da agência, com danos severos às operações e à segurança nacional. A sentença, proferida em 2024, incluiu condenações por espionagem e posse de material de abuso sexual infantil, mas o núcleo da pena esteve ligado ao vazamento dos segredos cibernéticos da CIA.

A trajetória do próprio Kiriakou confere peso e, ao mesmo tempo, complexidade às suas declarações. Ele foi o primeiro oficial norte-americano a confirmar publicamente, em rede nacional, que a CIA utilizava técnicas de tortura, incluindo o afogamento simulado, contra prisioneiros. A revelação o levou a uma condenação a trinta meses de prisão por vazamento de informação classificada, tornando-o a única pessoa ligada ao programa de interrogatórios a cumprir pena atrás das grades. Desde então, construiu uma segunda carreira como crítico das práticas da agência e comentarista de segurança nacional. Sua fala atual não é, portanto, a de um observador externo, mas a de alguém que conhece a engrenagem por dentro e que, ao optar por romper o silêncio, perdeu a proteção institucional que antes o resguardava.

A afirmação de que a CIA pode acessar câmeras e microfones de celulares e laptops não deve ser lida como uma sentença de que todos os dispositivos estão permanentemente sob escuta. A conclusão mais precisa, sustentada pelos documentos e pelo depoimento do ex-oficial, é que o arsenal técnico existe, está documentado e é operado de forma seletiva contra alvos de interesse. A implicação prática para o usuário comum é que a segurança de um aparelho não depende apenas da criptografia das mensagens, mas da integridade do próprio dispositivo. Um celular comprometido expõe tudo o que vê, ouve e digita, independentemente da robustez do aplicativo que se utiliza para conversar. A fronteira entre a capacidade estatal e a privacidade individual, nesse cenário, deixa de ser uma questão abstrata e passa a depender da arquitetura técnica dos equipamentos que carregamos no bolso e deixamos na sala de estar.

Fontes consultadas

The Times of India. “Former CIA spy warns agency’s tools can takeover your phone, TV, and even your car”. 9 de dezembro de 2025.

INSIDE. “維基解密:透過 Weeping Angel,三星智慧電視可被 CIA、MI5 用來監聽”. 2 de dezembro de 2025.

Security Ledger. “MEH CIA: Agency’s Hacking Tools Targeted Known, Patched Holes”. 9 de março de 2017.

Congressional Record. “Presidential Pardon for John Kiriakou”. 17 de novembro de 2014.

The New Daily. “Australian agencies likely have same spying tools as CIA: experts”. 8 de março de 2017.

ABC News (Austrália). “Ex-CIA engineer sentenced for leaking hacking secrets to WikiLeaks”. 2 de fevereiro de 2024.

Global Security Mag. “Vault 7: The CIA’s Cyber Weapons”. 28 de junho de 2026.

Tags:

câmeras e microfonescelularesciaespionagemJohn Kiriakoulaptopsprivacidadesegurança digitalVault 7vigilância
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Régis Andrade

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