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Política

O pedido de desculpas de Kim Jong-un que nunca existiu

By Régis Andrade
1 de novembro de 2026 5 Min Read
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Vídeo viral atribui a Kim Jong-un desculpas por vencer com 99,93%; checagem mostra fala antiga de 2025 sem citar eleição.

Na madrugada de 18 de março de 2026, o mundo acordou com uma notícia que parecia saída de um roteiro de ficção política. A agência estatal norte-coreana KCNA havia divulgado os resultados das eleições para a Assembleia Popular Suprema, realizadas três dias antes, e o número era ao mesmo tempo previsível e perturbador: o partido no poder e seus aliados haviam obtido 99,93% dos votos. A participação foi de 99,99%, e todos os 687 assentos foram preenchidos por candidatos do regime. Em um país onde a unanimidade era a regra desde a década de 1960, o 0,07% de votos contrários representou uma fissura estatística minúscula, mas carregada de significado. AKCNA, em um gesto raro, admitiu publicamente a existência de votos de rejeição, algo que não ocorria desde 1957.

O sistema eleitoral norte-coreano, contudo, não oferece espaço para competição real. Cada distrito eleitoral apresenta um único candidato, previamente aprovado pelo aparato do partido, e o eleitor é convocado a depositar seu boletim em uma urna “sim” ou em uma urna “não”, à vista de fiscais e demais presentes. O voto não é secreto, e a escolha pelo “não” carrega um custo pessoal que dissidentes no exterior descrevem como potencialmente catastrófico. Analistas interpretam a divulgação do 0,07% não como um sinal de abertura democrática, mas como uma encenação calculada para projetar a imagem de um regime que tolera uma oposição simbólica e controlada.

Foi nesse cenário de formalidade coreografada que uma narrativa paralela começou a circular nas redes sociais. Segundo publicações que se multiplicaram no X (antigo Twitter) e no Instagram, Kim Jong-un teria reagido ao resultado com um pedido de desculpas público, algo inédito na dinâmica de culto à personalidade que sustenta seu governo. O líder teria dito que o 0,07% de votos contrários o deixou “profundamente ferido” e que a falta de unanimidade “mexeu bastante com ele”. A promessa seguinte seria tão direta quanto o tom de arrependimento: esforçar-se-ia para que, na próxima eleição, a aprovação atingisse os 100% desejados. Ele também teria assegurado que os eleitores que não o apoiaram não sofreriam represálias nem discriminação.

A história, que acumulou milhões de visualizações em poucos dias, encontrou terreno fértil no imaginário popular. Em um país onde o líder é retratado como infalível, a ideia de um Kim Jong-un vulnerável ao afeto — ou à sua ausência — de uma fração mínima da população soava quase como ficção. Publicações satíricas compararam o episódio à angústia de um parceiro que revisa obsessivamente os likes de uma rede social, sugerindo que o regime trataria o voto contrário não como uma estatística, mas como um erro sistêmico a ser depurado. A viralização, no entanto, não resistiu ao escrutínio jornalístico.

Agências de checagem de fatos na Europa e na América Latina rapidamente desmontaram a narrativa. O site francês 20 Minutes foi categórico: não há “nenhum traço dessa declaração fora das redes sociais”. O portal chileno Mala Espina Check rastreou o vídeo que acompanhava as postagens virais e descobriu que ele não tinha relação alguma com as eleições de março de 2026. O clipe, de 32 segundos, mostrava Kim Jong-un em uma arena, vestindo uma jaqueta de couro preta, enquanto a plateia chorava e aplaudia. A busca reversa levou ao YouTube, onde o registro completo, com 24 minutos de duração, havia sido publicado em outubro de 2025, durante as celebrações do 80º aniversário da fundação do Partido dos Trabalhadores da Coreia. A transcrição do discurso, disponível no site da Korean Friendship Association, não continha qualquer menção a eleições, desculpas ou promessas de 100%.

O site francês Actu Lorient reforçou a conclusão: a KCNA, a agência oficial do regime, não publicou nenhuma transcrição de um pronunciamento de Kim Jong-un sobre o resultado eleitoral, e veículos internacionais como a Reuters não corroboraram a existência da declaração. O silêncio oficial, aliado à origem do vídeo, sepultou a hipótese de um pedido de desculpas genuíno. O que restou foi a constatação de que a história, embora falsa, havia capturado algo real: a obsessão do regime pela perfeição estatística como extensão da propaganda de Estado, e a curiosidade global sobre os 0,07% que ousaram dizer “não” em um sistema desenhado para não admitir recusas.

Enquanto a farsa viral se espalhava, os desdobramentos políticos reais seguiam seu curso. A nova Assembleia Popular Suprema foi convocada para sua sessão inaugural em 22 de março, com uma pauta que incluía a reeleição de Kim Jong-un como presidente da Comissão de Assuntos Estatais e uma revisão constitucional destinada a codificar formalmente uma postura hostil em relação à Coreia do Sul. A composição do novo parlamento revelou uma rearrumação significativa no núcleo do poder: mais de 70% dos deputados eram novos, um sinal de consolidação da autoridade de Kim e de renovação geracional na elite dirigente. Entre os nomes confirmados estavam Kim Yo-jong, a influente irmã do líder, e a ministra das Relações Exteriores, Choe Son-hui, enquanto o ex-presidente da Assembleia, Choe Ryong-hae, ausentou-se da lista após ser destituído durante o congresso do partido.

A distância entre a realidade documentada e a fábula viral expõe uma dinâmica recorrente na cobertura da Coreia do Norte: a dificuldade de distinguir o que o regime diz do que o mundo deseja ouvir. O pedido de desculpas de Kim Jong-un nunca existiu, mas a história persistiu porque oferecia uma narrativa reconfortante — a de um ditador finalmente confrontado com a sua própria imperfeição. Os fatos, no entanto, apontam para um cenário menos teatral e mais sombrio: um sistema eleitoral que não é um mecanismo de escolha, mas um ritual de confirmação, e um líder que, longe de se desculpar por 99,93%, utiliza cada fração de dissidência como matéria-prima para reforçar o mito da unanimidade. A Coreia do Norte segue, assim, imune às desculpas que nunca pediu e às perguntas que jamais responderá.

Fontes consultadas: Qazinform (Cazaquistão), Deutschlandfunk (Alemanha), RTK Live (Kosovo), Gazeta Express (Kosovo), Jang (Paquistão), News18 (Índia), NDTV (Índia), 20 Minutes (França), Crítica (Panamá), Mala Espina Check (Chile), Actu Lorient (França), Rai News (Itália), NTV (Turquia), Informador (México), Reuters, KCNA.

Tags:

checagemCoreia do Norteeleiçõesfake newsKim Jong-un
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Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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