Prefeito Ricardo Nunes pede ao Google que não troque o Brasil pelo Paraguai durante inauguração em São Paulo
O microfone ainda estava aberto quando a formalidade se rompeu. O auditório do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, carregado de história e revestido pelo peso simbólico de décadas de ciência aplicada brasileira, testemunhou um desabafo que nenhum cerimonial conseguiria prever. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, abandonou o tom protocolar que costuma guiar inaugurações oficiais e dirigiu-se ao presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, com a urgência de quem sabe que está disputando investimentos contra um relógio que corre mais rápido que a burocracia nacional. A frase, proferida no meio do evento que marcava a entrega do segundo Centro de Engenharia da gigante de tecnologia no país, soou como um clamor que misturava angústia e convencimento. O gesto foi pessoal, mas o recado traduzia uma aflição que percorre federações industriais, governos estaduais e ministérios há pelo menos uma década e meia.
O estopim para a fala incomum não era um dado abstrato projetado em tela ou um relatório com gráficos ascendentes. Era um fenômeno concreto, mensurável e que vem redesenhando o mapa produtivo da América do Sul em silêncio. O regime de maquila paraguaio, estruturado juridicamente desde o ano 2000 e turbinado a partir de 2007 com adesão massiva de empresas brasileiras, oferece condições que as federações patronais brasileiras classificam como imbatíveis no curto prazo. O mecanismo funciona com precisão cirúrgica: uma companhia pode importar componentes, máquinas e matérias primas com isenção total de tributos aduaneiros, processar esses insumos em território paraguaio utilizando mão de obra local ou expatriada e, ao final, exportar o produto acabado para o Brasil pagando apenas o imposto sobre o valor agregado no país vizinho. A alíquota efetiva do Imposto de Renda sobre essas operações frequentemente não ultrapassa um dígito. A tributação sobre o faturamento bruto pode ser até oito vezes menor do que a brasileira. Para um industrial que produz autopeças, calçados, componentes eletrônicos ou confecções, a matemática é devastadoramente persuasiva.
A profundidade do movimento migratório já está registrada em estatísticas oficiais. O número de empresas que mantêm filiais ou plantas inteiras operando sob a Lei de Maquila paraguaia alcança 232 empreendimentos originários do Brasil. O dado não representa intenções ou protocolos de viabilidade. São contratos firmados, fábricas em funcionamento, linhas de produção ativas do outro lado da fronteira, muitas vezes separadas das matrizes brasileiras apenas pela Ponte da Amizade. A proximidade geográfica, aliada à brutal diferença de carga fiscal e à ausência de amarraduras trabalhistas e ambientais que no Brasil consomem departamentos jurídicos inteiros, criou um corredor de atração que tem sugado principalmente indústrias de transformação do Sul, Sudeste e Centro Oeste. Cidades como Hernandarias, Ciudad del Este e Minga Guazú se tornaram polos industriais discretos, mas altamente competitivos, povoados por empresários que falam português, faturam em reais e produzem sob bandeira paraguaia.
Foi a consciência aguda desse escoamento silencioso que fez Ricardo Nunes se despir momentaneamente do prefeito para assumir o tom de quem implora por um voto de confiança no território que governa. Ao dizer “O Google não vai pra lá, pelo amor de Deus, fabriquem aqui”, ele não estava meramente agradecendo pela instalação do novo centro de engenharia. Estava pedindo que a empresa de tecnologia, símbolo máximo da nova economia e farol para decisões de outros conglomerados globais, reafirmasse publicamente que o ecossistema brasileiro de talentos ainda vence a equação dos impostos. A informalidade da súplica, carregada de uma expressão coloquial que ecoa conversas de gabinete e mesas de negociação, funcionou como um choque de realidade na cerimônia. Em um átimo, o discurso sobre inovação, transformação digital e cidades inteligentes cedeu lugar à crueza da competição fiscal entre nações.
A resposta de Fábio Coelho não veio na mesma chave emocional, mas foi construída com a solidez de quem precisa tranquilizar um mercado sem desdenhar do anfitrião. O executivo, que comanda as operações da companhia no país, articulou sua fala em torno de um conceito que, para o setor de tecnologia, tem tanto valor quanto um incentivo fiscal: a qualidade e a resiliência da mão de obra. Ele descreveu o profissional brasileiro como alguém que enfrenta adversidades, que se adapta a cenários instáveis e que atinge um nível de sofisticação técnica comparável ao de polos tradicionais como Israel, Índia e Irlanda. Ao afirmar que o Brasil é um mercado com pessoas resilientes, trabalhadoras e com alto nível de complexidade técnica, Coelho entregou a Nunes exatamente o argumento que ele buscava. Era a confirmação de que a decisão de expandir os centros de desenvolvimento em território brasileiro não era filantropia corporativa ou inércia contratual. Era cálculo estratégico baseado em inteligência competitiva.
O palco físico onde essa negociação simbólica se desenrolou contribui para a narrativa de continuidade. O prédio que agora abriga o novo centro de engenharia pertenceu ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o IPT, uma instituição centenária que ajudou a construir pontes, barragens, motores e padrões de qualidade que sustentaram a industrialização brasileira no século vinte. As paredes que antes testemunhavam ensaios de resistência de concreto e análises de ligas metálicas agora receberão estações de trabalho com telas de altíssima definição, laboratórios de inteligência artificial e salas de prototipagem de software. A capacidade máxima prevista é de quatrocentos engenheiros, número que posiciona o espaço como um dos maiores centros de desenvolvimento do Google fora dos Estados Unidos. A inauguração não se trata de um coworking colorido ou de um escritório de representação comercial. Trata se de um núcleo de criação de tecnologia pura, onde serão concebidos, testados e aprimorados produtos que rodam em bilhões de dispositivos ao redor do planeta.
Dentro dessa estrutura funcionarão dois equipamentos que não existiam em nenhum outro país da América Latina até então. O primeiro é o Google Safety Engineering Center, um centro dedicado exclusivamente a engenharia de segurança digital. Ali, equipes multidisciplinares trabalharão em algoritmos de proteção contra ameaças cibernéticas, sistemas de criptografia, mecanismos antifraude e arquiteturas de navegação segura que impactam diretamente os mais de dois bilhões de usuários dos serviços da empresa. O segundo é o Accessibility Discovery Center, voltado para o desenvolvimento de soluções de acessibilidade digital. Engenheiros, designers e especialistas em experiência do usuário utilizarão o espaço para criar e testar interfaces que permitam a pessoas com deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva utilizar produtos como o buscador, o sistema de mapas e a plataforma de vídeos sem barreiras. A presença simultânea desses dois centros em São Paulo sinaliza que a subsidiária brasileira ascendeu no organograma global da corporação, deixando de ser apenas um mercado consumidor relevante para se tornar um polo de exportação de tecnologia e conhecimento.
As operações efetivas começam em julho de 2026, mas o processo seletivo e a montagem das equipes já estão em curso. A escolha de São Paulo como sede não é trivial. A cidade concentra a maior densidade de profissionais de tecnologia do hemisfério sul, abriga as principais universidades que alimentam o mercado com pesquisadores em ciência da computação e mantém uma malha de conexões aéreas que permite intercâmbio ágil com os escritórios da empresa em Nova York, Zurique, Tel Aviv e Bangalore. A decisão de permanecer e expandir na capital paulista, portanto, ancora se em um tripé de fatores que o regime de maquila paraguaio ainda não consegue oferecer: massa crítica de cérebros, infraestrutura de pesquisa e conexão global instantânea.
O episódio inteiro, do apelo do prefeito ao anúncio dos novos centros, funciona como uma radiografia das contradições brasileiras expostas em uma única tarde. De um lado, um sistema tributário que comprime margens, multiplica obrigações acessórias e empurra para fora do país justamente as plantas industriais que geram empregos de renda média, aquelas que formam contramestres, técnicos e operadores especializados. Do outro lado, um ecossistema de inovação que resiste, apoiado em cérebros formados em universidades públicas, em um mercado consumidor interno de proporções continentais e em uma cultura de criatividade que o ambiente de negócios hostil, paradoxalmente, ajuda a forjar. A cena de Ricardo Nunes implorando ao presidente do Google para que não cruze a fronteira condensa essa dualidade em poucos segundos. Ela mostra que o país é capaz de sediar centros de engenharia de classe mundial e, ao mesmo tempo, perder para um vizinho com um vigésimo do seu Produto Interno Bruto a capacidade de fabricar componentes elétricos, confeccionar jaquetas e montar peças automotivas.
Enquanto a solenidade se encerrava, a sensação que pairava entre os presentes era ambivalente. O Google havia reafirmado sua aposta no talento local e entregue um equipamento de ponta que projeta São Paulo no mapa global da tecnologia. Mas o fantasma das duzentas e trinta e duas empresas que fizeram o caminho inverso, saindo de território brasileiro para se instalar a poucos quilômetros dali, do outro lado da fronteira, permanecia como uma lembrança incômoda. A engenharia de software venceu a maquila, ao menos por enquanto. Mas o pedido angustiado do prefeito, registrado em vídeos e citações que correram as redes de notícias, já estava incorporado ao repertório das discussões sobre competitividade nacional. Ele serviu para lembrar que a guerra por investimentos não se trava apenas com taças de espumante e discursos de inauguração. Trava se, muitas vezes, com apelos sinceros proferidos diante de um microfone que ainda estava aberto.
Os dados referentes ao número de 232 empresas brasileiras que aderiram ao regime de maquila no Paraguai desde 2007 estão disponíveis no Observatório de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e nos relatórios estatísticos do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai sobre o regime de maquila. As informações comparativas sobre a carga tributária e os diferenciais de competitividade entre Brasil e Paraguai para indústrias de transformação estão documentadas em estudos técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em publicações da Confederação Nacional da Indústria e em análises do Observatório de Complexidade Econômica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As declarações do prefeito Ricardo Nunes e do presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, foram registradas durante evento público de inauguração realizado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo, com cobertura jornalística de agências de notícias, veículos de imprensa econômica e publicações especializadas em tecnologia. Os detalhes sobre a capacidade para 400 engenheiros, a presença do primeiro Google Safety Engineering Center e do primeiro Accessibility Discovery Center da América Latina, bem como o início das operações previsto para julho de 2026, constam no comunicado oficial distribuído pela assessoria de imprensa do Google Brasil e em materiais institucionais da Prefeitura do Município de São Paulo sobre a inauguração.