Superbactéria considerada crítica pela OMS é encontrada pela primeira vez em alimento no Brasil
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesca de São Paulo trouxe à tona uma descoberta inédita e preocupante para a saúde pública brasileira. Pela primeira vez no país, a bactéria Citrobacter telavivensis, considerada um microrganismo de prioridade crítica pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi identificada em alimentos destinados ao consumo humano.
A detecção ocorreu durante uma pesquisa voltada à análise microbiológica de ostras frescas comercializadas em mercados dos estados de São Paulo e Santa Catarina. O resultado chamou a atenção da comunidade científica por envolver uma bactéria associada à resistência antimicrobiana, um dos maiores desafios da medicina moderna e uma preocupação crescente em todo o mundo.
Segundo os pesquisadores, a bactéria foi encontrada em amostras de ostras coletadas para análise laboratorial. Apesar da descoberta, todas as amostras avaliadas estavam em conformidade com os critérios atualmente exigidos pelas inspeções sanitárias brasileiras. Isso significa que os produtos analisados não apresentavam irregularidades dentro dos parâmetros oficiais de fiscalização em vigor.
A identificação da Citrobacter telavivensis em alimentos representa um marco importante para a vigilância sanitária e para o monitoramento de microrganismos resistentes. Embora a presença da bactéria não indique automaticamente risco imediato de surtos ou contaminação em larga escala, especialistas destacam que o achado demonstra a necessidade de ampliar os sistemas de monitoramento microbiológico em toda a cadeia de produção e comercialização de alimentos.
A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, vírus, fungos ou parasitas desenvolvem mecanismos capazes de sobreviver aos medicamentos tradicionalmente utilizados para combatê-los. Como consequência, tratamentos se tornam menos eficazes, infecções passam a ser mais difíceis de controlar e aumenta o risco de complicações graves e mortes.
A Organização Mundial da Saúde classifica a resistência aos antibióticos como uma das principais ameaças globais à saúde pública do século XXI. O problema afeta sistemas de saúde em diferentes países e compromete avanços conquistados ao longo de décadas no tratamento de doenças infecciosas.
Os números mais recentes reforçam a gravidade da situação. Dados divulgados pelo Sistema Global de Vigilância de Resistência Antimicrobiana e Uso de Antimicrobianos (GLASS) mostram que a proporção de infecções bacterianas resistentes apresentou crescimento significativo nos últimos anos. Entre 2018 e 2023, uma em cada seis infecções bacterianas registradas já apresentava algum nível de resistência a antibióticos, representando um aumento superior a 40% no período analisado.
Diante desse cenário, autoridades internacionais vêm intensificando esforços para conter o avanço das chamadas superbactérias. Em maio de 2025, durante a Assembleia Mundial da Saúde, foi aprovado um novo Plano Global de Ação com vigência entre 2026 e 2036. A estratégia busca fortalecer o monitoramento epidemiológico, ampliar pesquisas científicas, incentivar o uso racional de antibióticos e promover medidas de prevenção em hospitais, comunidades e setores produtivos.
Especialistas alertam que o avanço da resistência antimicrobiana pode gerar impactos comparáveis ou até superiores aos de grandes crises sanitárias enfrentadas pela humanidade. Estudos internacionais indicam que, caso medidas efetivas não sejam implementadas, as infecções causadas por microrganismos resistentes poderão provocar até 39 milhões de mortes anuais até 2050. A projeção supera estimativas atuais relacionadas a diversos tipos de câncer e evidencia a dimensão do desafio enfrentado pela saúde global.
A descoberta da Citrobacter telavivensis em ostras comercializadas no Brasil não significa que exista uma ameaça imediata aos consumidores, mas reforça a importância da vigilância contínua, da pesquisa científica e da adoção de políticas públicas voltadas ao combate da resistência antimicrobiana. O caso também destaca a necessidade de atualização constante dos protocolos de monitoramento para acompanhar a evolução de microrganismos capazes de desafiar os tratamentos disponíveis atualmente.
Fontes:
Universidade de São Paulo (USP)
Instituto de Pesca de São Paulo
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Sistema Global de Vigilância de Resistência Antimicrobiana e Uso de Antimicrobianos (GLASS)
Assembleia Mundial da Saúde 2025 sobre Resistência Antimicrobiana