Sem apresentar qualquer evidência, Trump afirma que eleição no Brasil “pareceu fraudada”
Declaração do presidente dos Estados Unidos ocorre um dia após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Superior Eleitoral e contrasta com a posição de líderes internacionais, inclusive de aliados do republicano
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, que a eleição presidencial brasileira, vencida no domingo por Luiz Inácio Lula da Silva, “pareceu mais uma eleição fraudada” e classificou o processo como “terrível” e “muito estranho”. A declaração foi feita a jornalistas em rápida entrevista, sem que o presidente americano apresentasse qualquer indício, prova ou evidência de irregularidade no pleito brasileiro.
“Eu não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. As eleições precisam ser incontestáveis, e isso me pareceu muito ruim”, declarou Trump, segundo registros da imprensa presentes no momento da fala. Em outro momento, ao ser questionado se pretendia adotar alguma medida em relação ao resultado brasileiro, o presidente americano desconversou: “Eu não estou governando o Brasil. Estou governando os Estados Unidos”.
Ainda na mesma manifestação, Trump fez questão de elogiar o presidente reeleito. “Eu gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação dada foi muito estranha”, afirmou, em referência à extensão do horário de votação determinada no domingo. A fala gerou estranheza justamente pela combinação entre a acusação sem provas e a sinalização de proximidade com o petista.
O resultado do segundo turno foi confirmado oficialmente na noite de domingo, 25, pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, que proclamou a reeleição de Lula com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,74% dos votos válidos. O ministro destacou a segurança jurídica do processo e telefonou tanto para Lula quanto para o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, informando o resultado a ambos.
A declaração de Trump sobre uma suposta fraude veio na contramão de líderes da América Latina, inclusive de governantes de direita alinhados ideologicamente ao republicano. O presidente do Chile, José Antonio Kast, a presidente do Peru, Keiko Fujimori, o presidente do Equador, Daniel Noboa, e o presidente do Paraguai, Santiago Peña, parabenizaram Lula pela reeleição ainda no domingo e na segunda-feira. A exceção entre os principais nomes da região foi o presidente argentino Javier Milei, que manteve silêncio.
No governo brasileiro, a reação foi imediata. O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a declaração de Trump como “totalmente equivocada” e rebateu a acusação sem provas. “Primeiro não se interfere na política de outro país. Essa é uma regra basilar. Segundo, não tem nenhum referencial para dizer isso. Aliás, o Brasil é um exemplo pro mundo, de urna eletrônica, de segurança jurídica. Democracia é assim: você ganha eleição, você perde eleição, é o povo que decide”, afirmou Alckmin à Rede Vanguarda.
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, também rebateu a fala do americano e sugeriu ironia ao apontar que eventuais problemas de desinformação não partiram da Justiça Eleitoral brasileira. “Só se ele está se referindo à Meta”, declarou Amorim, em referência à empresa de tecnologia proprietária de plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp.
A “prorrogação” mencionada por Trump foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de estender por duas horas o horário de votação em razão de denúncias de redução da frota de transporte público em diversas cidades do país. A medida, inédita na história eleitoral brasileira, foi tomada para garantir o direito de voto de eleitores afetados pela falta de ônibus. Um levantamento do portal g1 indicou que apenas 35.521 votos foram registrados após as 17h, número que, segundo o próprio TSE, não teve o condão de alterar o resultado final da disputa.
A fala de Trump também ecoou a estratégia do candidato derrotado. Flávio Bolsonaro (PL) recusou-se a reconhecer a derrota na noite de domingo e chegou a anunciar que pediria a anulação do pleito, alegando que a prorrogação do horário havia “mudado as regras do jogo”. Na segunda-feira, porém, a campanha do senador divulgou uma nota em que agradecia os cerca de 60 milhões de votos recebidos e afirmava que ele assumiria “a liderança da oposição”, embora ainda sinalizasse que preparava uma ofensiva jurídica para tentar cassar a chapa de Lula.
A declaração do presidente americano ocorre em um momento de recomposição da geopolítica latino-americana. Desde a volta de Trump à Casa Branca, em 2025, uma série de presidentes de direita ou próximos a ele foram eleitos na região. A vitória de Lula foi a primeira de um governo de esquerda desde então e interrompeu essa sequência favorável ao republicano. Ainda assim, um diplomata brasileiro ouvido em caráter reservado avaliou que, apesar das críticas, o tom de Trump indicou que ele não deverá tomar nenhuma ação concreta contra o Brasil no curto prazo, e que a relação entre os dois países não deve sofrer mudanças significativas.
A acusação sem provas de Trump contra o sistema eleitoral brasileiro repete um padrão já conhecido do presidente americano, que insiste, sem apresentar evidências, que a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2020 foi fraudada. Desta vez, porém, a alegação foi direcionada a uma democracia estrangeira cujo resultado havia sido proclamado e reconhecido pela autoridade eleitoral máxima do país poucas horas antes, com ampla margem de votos e chancela de observadores e líderes internacionais.
Fontes consultadas: BBC News Brasil, O Globo, R7, O Povo, Senado Federal, Agência Brasil, G1, CNN Brasil, Revista Fórum, CBN, Anadolu Agency, LBC, La Política Online, Nexo Jornal.