Flávio Bolsonaro é intimado pela PF a entregar passaportes, fica proibido de deixar o Brasil
Senador é intimado pela PF a entregar passaportes e fica proibido de deixar o Brasil por decisão de Moraes nesta segunda.
A menos de vinte e quatro horas após o encerramento do segundo turno que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Flávio Bolsonaro, derrotado na disputa presidencial, tornou-se alvo de uma medida judicial que restringe sua liberdade de locomoção e o obriga a entregar seus documentos de viagem. A determinação, assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, foi cumprida pela Polícia Federal na manhã desta segunda-feira, quando agentes federais abordaram o parlamentar na saída da residência do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
A abordagem ocorreu de forma direta, na rua, sem que Flávio tivesse sido previamente notificado sobre o teor da ordem judicial. O senador relatou o episódio em vídeo divulgado em suas redes sociais, no qual confirmou ter recebido a intimação para entregar os passaportes comum e diplomático no prazo de vinte e quatro horas, além de comunicar que está proibido de deixar o território nacional. A decisão também impõe a suspensão de qualquer contato entre o parlamentar e o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio e figura central de um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e transações financeiras irregulares.
A ordem judicial proferida por Moraes está diretamente vinculada a um processo que investiga a relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, cujos desdobramentos mais recentes incluem o bloqueio de até seis bilhões de reais em bens do advogado, determinado na semana anterior. No centro da apuração está a empresa Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que mantinha uma conta bancária no banco Santander na qual o senador figurava como usuário master, condição que, segundo a Polícia Federal, lhe conferia amplos poderes de acesso e gerenciamento sobre os recursos.
A investigação ganhou contornos mais nítidos a partir da análise de dados armazenados na nuvem do advogado, que revelaram correspondências entre uma secretária de Tomaz e a instituição financeira tratando do cadastro do parlamentar. A Polícia Federal sustenta que o perfil de usuário master indica participação econômica ou societária de fato na Alcazar Holdings, e menciona registros de festas, encontros e pagamentos de viagens do senador realizados pelo advogado. Willer Tomaz deixou o Brasil em agosto, o que, de acordo com os investigadores, representaria risco de destruição de provas, motivo pelo qual Moraes também determinou o cancelamento dos passaportes do advogado, a quebra de seus sigilos bancário, fiscal e cambial e a suspensão das atividades econômicas de suas empresas.
Em sua manifestação pública, Flávio Bolsonaro atribuiu a decisão do ministro a uma declaração feita por seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se encontra nos Estados Unidos e responde a mandado de prisão em aberto no Brasil desde o início de outubro. Na avaliação do senador, a fala de Eduardo, que teria sugerido que Flávio deixasse o país em caso de derrota eleitoral, foi utilizada como fundamento para a restrição imposta por Moraes. O parlamentar questionou a proporcionalidade da medida e indagou se a mesma decisão teria sido tomada caso ele tivesse vencido a eleição, sugerindo que a ordem foi proferida na noite do domingo, logo após a confirmação do resultado desfavorável.
A eleição presidencial de 2026 foi decidida com 51,79% dos votos válidos para Lula e 48,21% para Flávio Bolsonaro, em um segundo turno que o senador iniciou na liderança, tendo obtido 47,03% no primeiro turno contra 45,16% do petista. A derrota representou um revés significativo para o clã Bolsonaro, que sofreu sua segunda derrota consecutiva para Lula, e deixou Flávio sem mandato eletivo pela primeira vez em vinte e quatro anos, uma vez que ele optou por disputar a Presidência em vez de concorrer à reeleição ao Senado. Inicialmente, o senador recusou-se a reconhecer o resultado e chegou a anunciar que pediria a anulação do pleito, alegando irregularidades no processo eleitoral, mas, ao longo do dia seguinte, recuou da intenção de contestar a validade da votação e passou a concentrar sua estratégia jurídica em uma ação que pede a cassação da chapa vitoriosa por suposto abuso de poder político e econômico, sem, contudo, apresentar elementos probatórios detalhados.
A situação de Flávio Bolsonaro se soma a um cenário familiar de crescente pressão judicial. Seu pai, Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar desde março de 2026, após condenação a vinte e sete anos e três meses de reclusão por envolvimento na trama golpista que tentou impedir a posse de Lula em 2023. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, está nos Estados Unidos e teve mandado de prisão expedido por Moraes em oito de outubro, após condenação a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo, em razão de articulações para evitar a condenação do pai. A visita de Flávio a Jair Bolsonaro na manhã desta segunda-feira, que precedeu a intimação, foi o último compromisso público do senador antes de ser abordado pelos agentes federais.
A defesa de Flávio Bolsonaro ainda não se manifestou oficialmente sobre a decisão, e não há informação confirmada sobre se a entrega dos passaportes foi efetivada dentro do prazo estipulado pela Polícia Federal. O Supremo Tribunal Federal informou que o processo tramita em segredo de justiça e que não comentaria o mérito antes da análise de eventuais recursos. A Procuradoria-Geral da República também não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
Fontes consultadas
Agência Brasil. Flávio é proibido de deixar o país e terá que entregar passaportes. 26 out. 2026.
Agência Brasil. Moraes manda Flávio entregar passaporte e o proíbe de deixar o país. 26 out. 2026.
Agência Brasil. Moraes expede mandado de prisão contra Eduardo Bolsonaro. 8 out. 2026.
BBC News Brasil. Derrota de Flávio enfraquece os Bolsonaro, mas não ofusca nova força da direita com eleições. 26 out. 2026.
CNN Brasil. Moraes manda Flávio entregar passaporte e não se comunicar com Willer. 26 out. 2026.
Correio do Povo. Flávio Bolsonaro diz que Moraes determinou entrega de passaportes após visita ao pai. 26 out. 2026.
G1. Moraes manda bloquear R$ 6 bi de Willer Tomaz e determina que bancos informem dados da empresa Alcazar. 23 out. 2026.
G1. Moraes determina que Flávio Bolsonaro entregue passaporte e proíbe que ele deixe o país. 26 out. 2026.
Jornal de Brasília. Moraes bloqueia R$ 6 bi de advogado ligado a Flávio Bolsonaro. 23 out. 2026.
Jornal de Brasília. Flávio Bolsonaro diz que foi intimado pela PF a entregar passaporte e que está proibido de deixar o país. 26 out. 2026.
O Liberal. Flávio Bolsonaro é intimado pela PF a entregar passaporte. 26 out. 2026.
Poder360. Flávio desiste de pedir anulação da vitória de Lula nas urnas. 26 out. 2026.
R7. Moraes proíbe Flávio Bolsonaro de manter contato com advogado Willer Tomaz. 26 out. 2026.
Xinhua. Urgente: Flávio Bolsonaro se recusa a reconhecer derrota no segundo turno da eleição presidencial do Brasil. 26 out. 2026.