A deputada dos quase 2 milhões de votos e os projetos copiados
Eduarda Campopiano, mais votada de SP, reaproveitou textos de aliados e erros geográficos em 14 de 20 projetos na Câmara
A deputada estadual mais votada da história de São Paulo, Eduarda Campopiano, do Partido Liberal, construiu uma ascensão política rápida e intensa. Aos 23 anos, ela foi eleita em 2026 com 1.956.238 votos, depois de ter sido vereadora em Praia Grande, no litoral paulista, pelo mesmo partido. Sua trajetória começou nas redes sociais, onde ganhou projeção ainda adolescente com discursos contrários ao feminismo e ao aborto, favoráveis ao acesso de mulheres a armas de fogo e críticos às cotas raciais. Aos 21 anos, em 2024, foi eleita vereadora com 3.583 votos. Dois anos depois, alcançou a maior votação para deputado estadual em São Paulo.
A atuação parlamentar de Campopiano, no entanto, passou a ser examinada com mais atenção depois que uma apuração detalhada comparou os projetos de lei que ela apresentou durante o mandato como vereadora com propostas existentes em outras câmaras municipais e assembleias legislativas do país. O levantamento analisou as versões originalmente protocoladas dos 20 projetos apresentados por ela em Praia Grande e encontrou correspondências textuais em pelo menos 14 deles. As semelhanças variam de artigos específicos a conjuntos extensos de dispositivos e justificativas, com passagens idênticas ou adaptadas de forma mínima. Em dois documentos, a adaptação deixou referências a lugares completamente diferentes da cidade em que a parlamentar atuava.
Um programa de educação financeira destinado a Praia Grande, por exemplo, fala em beneficiar cidadãos paulistanos. Já uma proposta sobre multas pelo consumo de maconha na presença de crianças e adolescentes e em espaços públicos destina recursos a organizações no município da Serra, no Espírito Santo, a mais de 700 quilômetros de distância da cidade em que ela era vereadora. Entre os textos reaproveitados estão também propostas de políticos próximos de Campopiano, como o vereador e deputado federal eleito Lucas Pavanato, do Partido Liberal de São Paulo, e a deputada estadual Ana Campagnolo, do Partido Liberal de Santa Catarina, que a parlamentar aponta como inspiração política ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira, de Minas Gerais. A proximidade com esse grupo marca a trajetória de Eduarda Campopiano, que recebeu apoio eleitoral de Nikolas e fez campanha associada a Pavanato.
Em entrevista, a deputada eleita afirmou que sua candidatura e seu trabalho parlamentar são ideológicos. Segundo ela, a legislatura na Assembleia Legislativa de São Paulo será muito mais ideológica do que a que teve como vereadora. Campopiano declarou que pretende intensificar o combate cultural e que tudo que se torna política pública um dia já foi uma ideia, uma discussão sobre moral, sobre o que é certo e errado. Ela disse que quer combater o que chama de bandidolatria no Brasil, seja com bandidos de colarinho branco, seja no combate ao crime do dia a dia, e afirmou que não quer que o aborto seja apenas proibido, mas impensável.
O primeiro caso identificado na comparação é o Projeto de Lei 64/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril de 2026. A proposta cria um programa de educação financeira nas escolas municipais de Praia Grande. O texto reproduz trechos inteiros do Projeto de Lei 875/2021, do vereador de São Paulo Rubinho Nunes, do União Brasil, que criava o programa Jovem Capitalista. Na versão de Campopiano, a iniciativa passou a se chamar Programa de Educação Financeira, mas a justificativa manteve menções ao Jovem Capitalista. No encerramento, preservou a afirmação de que o programa viabiliza uma realidade mais agradável e um futuro mais próspero aos cidadãos paulistanos, sem trocar o termo usado no projeto de São Paulo. A redação e a sequência de diversos artigos também coincidem.
Outro caso é o Projeto de Lei 68/2026, protocolado por Campopiano em 11 de maio de 2026. Ele prevê multas administrativas pelo consumo de maconha na presença de crianças e adolescentes e em espaços públicos. Há passagens semelhantes às de uma proposta da Câmara Municipal de Serra, no Espírito Santo, assinada em 23 de janeiro de 2025 pelos vereadores Pastor Dinho, do Partido Liberal, e Agente Dias, do Republicanos. Um dos trechos diz que os recursos obtidos com as sanções seriam destinados a organizações no município da Serra, em vez de Praia Grande.
Há ainda o Projeto de Lei 73/2025, de 24 de junho de 2025, que previa a obrigatoriedade dos hospitais públicos de emitirem diariamente boletim médico a respeito do estado de saúde e das condições de tratamento do paciente internado. O texto do projeto cita ao menos uma fonte obtida no ChatGPT, com uma nota de rodapé que traz um link com a marcação utm source igual a chatgpt.com, indicando que o endereço foi copiado de uma resposta da ferramenta de inteligência artificial. Além disso, aponta, para embasar seu amparo jurídico, a lei orgânica de outra cidade, São José, possivelmente o município de Santa Catarina, mas essa informação não aparece no documento.
Três dos projetos analisados se relacionam diretamente a políticos próximos de Eduarda Campopiano, do mesmo partido. Dois têm dispositivos iguais aos de propostas do vereador e deputado federal eleito Lucas Pavanato. O terceiro reproduz o programa apresentado pela deputada estadual Ana Campagnolo. As justificativas desses três documentos de Praia Grande não mencionam os projetos originais, nem atribuem os textos aos dois parlamentares.
O Projeto de Lei 2/2026 de Campopiano, apresentado em 4 de fevereiro, propõe sanções administrativas por maus-tratos a animais. O texto coincide em diversos artigos com o Projeto de Lei 43/2026 de Pavanato, de 29 de janeiro. Os dois documentos citam a mesma lista de condutas, como privar o animal de alimento, água ou abrigo, abandoná-lo e negligenciar assistência veterinária. Preveem advertência, multas de R$ 2 mil a R$ 50 mil e apreensão do animal. O projeto de Eduarda cita até mesmo, de forma equivocada, um órgão que só existe na cidade de São Paulo, não em Praia Grande, conforme confirmado pela própria prefeitura da cidade, a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico.
O segundo caso é o Projeto de Lei 63/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril. Ele autoriza a Guarda Civil Municipal a usar provisoriamente veículos, equipamentos e outros bens apreendidos relacionados à prática de crimes. O texto reproduz dispositivos do Projeto de Lei 76/2026 de Pavanato, publicado em São Paulo em 11 de fevereiro.
Há ainda o Projeto de Lei 112/2026, apresentado em Praia Grande em 5 de agosto. Ele institui o Programa Meninos Fortes, de proteção e acolhimento de estudantes do sexo masculino vítimas ou expostos à violência escolar e ao bullying. Uma proposta de mesmo nome, da deputada Ana Campagnolo, foi assinada em 13 de julho. Já a de Eduarda Campopiano é de agosto. Os artigos têm redação praticamente igual, com a troca da rede estadual de Santa Catarina pela rede municipal de Praia Grande.
Pastor Dinho afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o tema já era objeto de projetos em outras cidades e na própria Câmara dos Deputados. Segundo ele, não foram enviados arquivos editáveis para Campopiano, mas foi realizado um contato entre os dois parlamentares, que conversaram sobre o projeto. Em nota, afirmou que não há necessidade de autorização alguma, porque o projeto é público e está à disposição da sociedade brasileira e de qualquer parlamentar. A reportagem buscou os demais parlamentares para que comentassem a semelhança dos textos, mas não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto. A tentativa de contato com Eduarda Campopiano também não teve retorno até o fechamento da apuração.
Para Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas, disseminar boas práticas entre municípios é desejável, mas isso deve envolver adaptações às necessidades locais e reconhecimento da origem da proposta. Segundo ele, é sempre recomendável que se dissemine, que se inspire, que se façam as adaptações. Uma iniciativa que funciona em determinado município não necessariamente terá o mesmo resultado em outro sem esses ajustes. Teixeira não considera a reprodução sem crédito uma prática comum. Na avaliação do professor, omitir a origem significa apropriar-se indevidamente do trabalho de outra pessoa. Em parte das justificativas, Campopiano reconhece iniciativas semelhantes de outros municípios.
A circulação de propostas entre diferentes casas legislativas não se limita aos projetos de Campopiano. A Lei de Direitos Autorais exclui da proteção ideias, procedimentos normativos e textos de leis e demais atos oficiais. Há exemplos de bancos de textos destinados a apoiar outros mandatos. A Câmara de Sobral, no Ceará, por exemplo, disponibiliza modelos e orienta vereadores a adaptá-los às peculiaridades de seus municípios. Há também práticas já conhecidas de reutilizar textos entre parlamentares e até entre candidatos. Em 2024, um levantamento identificou nove propostas contra a linguagem não binária com ementas idênticas em diferentes assembleias legislativas pelo país. No mesmo ano, uma apuração jornalística revelou que centenas de candidatos a prefeito usavam propostas idênticas em planos de governo e, em certos casos, deixavam no texto até o nome de outra cidade.
O caso de Eduarda Campopiano expõe uma tensão entre a construção de uma imagem política baseada em pautas ideológicas e a prática legislativa cotidiana. A parlamentar mais votada de São Paulo chegou ao posto com um discurso de combate cultural e moral, mas seus primeiros projetos como vereadora revelam um método de trabalho que, segundo a apuração, reproduz textos de aliados e de outros parlamentares sem a devida atribuição. Os erros geográficos e as referências a órgãos e cidades de outros estados reforçam a impressão de que os documentos foram adaptados de forma apressada, sem revisão suficiente para a realidade de Praia Grande. A ausência de resposta de Campopiano e de parte dos demais envolvidos mantém em aberto a explicação oficial para as semelhanças. O caso também levanta questões sobre produtividade parlamentar, autoria de propostas e o papel dos bancos de textos legislativos em um sistema que, embora permita a inspiração entre casas, exige responsabilidade e transparência na apresentação das iniciativas.
Fontes consultadas: BBC News Brasil, Agência Brasil, G1, O Globo, UOL, Agência Lupa, Fundação Getulio Vargas, Câmara Municipal de Praia Grande, Assembleia Legislativa de São Paulo, Assembleia Legislativa de Santa Catarina e Câmara Municipal de São Paulo.