Adolescente de 13 anos desaparece ao fugir com homem que conheceu no Discord em GO, e bilhete chama atenção
Ana Clara Alves Silva desapareceu na madrugada de domingo após sair de casa para encontrar pessoa que conheceu no Discord; polícia localizou a jovem em imóvel abandonado e prendeu suspeito por estupro de vulnerável e cárcere privado
A adolescente Ana Clara Alves Silva, de 13 anos, foi localizada pela Polícia Civil de Goiás na tarde desta quarta-feira (9), em Anápolis, após três dias desaparecida. A jovem havia saído de casa na madrugada de domingo (6) e deixado uma carta de despedida para a irmã mais velha, de 15 anos. Um homem de 19 anos foi preso em flagrante sob suspeita de aliciamento, estupro de vulnerável e cárcere privado.
De acordo com informações divulgadas pela delegada Aline Lopes, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Anápolis, a adolescente foi encontrada em um imóvel abandonado, trancado pelo lado de fora com corrente e cadeado. O suspeito teria deixado a jovem no local enquanto trabalhava. A polícia informou que ele havia alugado uma casa para onde os dois pretendiam se mudar no fim da tarde desta quarta-feira.
A investigação aponta que o homem conheceu Ana Clara por meio do aplicativo Discord, plataforma de comunicação digital que permite conversas por texto, voz e vídeo. Segundo relatos repassados à polícia, os dois mantinham contato frequente pela internet, e a proximidade teria se intensificado até que ele a convenceu a fugir de casa.
Carta de despedida mobilizou família e autoridades
O desaparecimento foi percebido pelo pai da adolescente, Fábio Soares, na manhã de segunda-feira (7), quando foi chamar a filha para tomar café e encontrou apenas a filha mais velha no quarto. Inicialmente, ele procurou Ana Clara dentro de casa, pois ela costumava se esconder como brincadeira. Ao não encontrá-la, a família localizou a carta deixada no quarto.
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No texto endereçado à irmã, Ana Clara afirma que tomou uma decisão difícil e que estava indo embora com uma pessoa que amava. A adolescente demonstra incerteza sobre seu retorno e pede que a irmã siga a própria vida.
Em um dos trechos, a jovem escreve: “Eu amo você, mas eu precisei fazer isso. Estou indo embora pra bem longe com uma pessoa que eu amo. Provavelmente eu estou muito longe agora. Eu amo você e o pai. Amo muito. Essa decisão que eu tomei foi difícil, muito. Escuta as músicas que eu escutava com você. Não sei se eu vou voltar. Talvez eu volte, talvez não”.
A carta também contém pedidos para que a irmã seja feliz e realize seus sonhos. Ana Clara escreve que deseja que a familiar “cresça e seja feliz”, que “case, tenha filhos” e seja “um orgulho pro pai”. Em um momento de preocupação explícita com o bem-estar da irmã, a adolescente pede: “não pense de jeito maneira em se matar”. O texto é assinado com a expressão “Com amor e cuidado: Ana, sua Maninha”.
Pai relata desconhecimento sobre uso do aplicativo
Em entrevista à TV Anhanguera, o pai da adolescente afirmou que não sabia que a filha utilizava o Discord para conversar com outras pessoas. Segundo ele, o celular era permitido principalmente para que Ana Clara mantivesse contato com a mãe, que mora em outro estado.
“Tudo isso é muito novo para mim. Eu não sabia que a minha filha usava o aplicativo Discord. Para falar a verdade, não sei mais o que pensar”, declarou Fábio Soares. O pai também demonstrou incerteza sobre a identidade e a idade da pessoa com quem a filha teria saído. “Não sei se trata de um pirralho. Eu não sei se se trata de um pedolão. Eu não sei o que passa, mas eu tô desesperado”, desabafou.
De acordo com informações repassadas por amigas da adolescente à família, Ana Clara mantinha contato com um homem que dizia ter 28 anos. A jovem teria se referido a ele como seu “amor da vida” e contado às colegas que ele havia prometido levá-la para morar no Canadá. As amigas relataram ainda que tentaram convencer Ana Clara a desistir da ideia de fugir, mas não obtiveram sucesso.
Rastros digitais foram analisados durante as buscas
Durante as diligências, equipes de inteligência das polícias Civil e Militar analisaram imagens de câmeras de segurança e a movimentação digital da adolescente. Poucas horas antes de desaparecer, Ana Clara fez uma transferência de R$ 10,49 por Pix para a irmã. O celular da menina perdeu o sinal por volta de 1h da manhã de segunda-feira, enquanto o perfil dela no Discord apresentou atividade durante a madrugada, antes de ser desconectado.
A Polícia Civil chegou a investigar a possibilidade de que Ana Clara estivesse em Araguatins, no Tocantins, mas a suspeita não foi confirmada. Segundo a corporação, a pessoa encontrada na cidade era outra jovem de Goiânia, com nome e características físicas semelhantes às da adolescente desaparecida.
Suspeito foi preso no local de trabalho
O homem de 19 anos foi localizado e preso no local onde trabalhava. Após a abordagem, ele indicou aos investigadores o imóvel abandonado onde a adolescente estava. A polícia informou que ele será autuado pelos crimes de estupro de vulnerável e cárcere privado.
Ana Clara recebeu atendimento psicológico e foi entregue aos responsáveis. O suspeito permanece na delegacia à disposição da Justiça. A investigação segue sob sigilo da DPCA de Anápolis e deverá apurar as circunstâncias em que a adolescente deixou a residência, como ocorreu o contato entre os dois e o período em que permaneceram juntos.
Caso levanta alerta sobre segurança digital
O episódio chama atenção para os riscos envolvendo o contato de crianças e adolescentes com desconhecidos pela internet. Em situações de aproximação virtual, criminosos podem utilizar perfis falsos, estabelecer vínculos de confiança e, posteriormente, tentar marcar encontros presenciais ou afastar a vítima do convívio familiar.
Em 12 de agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspendesse as funcionalidades de transmissão ao vivo e compartilhamento de vídeos no Brasil. A medida foi tomada após relatório da Secretaria Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça identificar falhas nos mecanismos de verificação de idade e de proteção de menores na plataforma.
Segundo a ANPD, há evidências de que o recurso “Go Live” era usado em casos de violência, assédio, incentivo à automutilação e ao suicídio envolvendo crianças e adolescentes. O Discord informou que a caracterização da plataforma feita pela ANPD não reflete o que a empresa construiu nem os investimentos que faz para a segurança dos usuários, mas a ferramenta de transmissão foi retirada do ar.
Procurado pela reportagem, o Discord afirmou ter “um profundo compromisso com a segurança dos usuários” e disse contar com sistemas voltados à prevenção da disseminação de conteúdos proibidos e do aliciamento na plataforma. A empresa informou ainda que trabalha com outras companhias de tecnologia e organizações de segurança para aprimorar a proteção no ambiente digital. A plataforma destacou que seus Termos de Serviço estabelecem idade mínima de 13 anos para utilização do serviço e citou a Central da Família, que disponibiliza a pais e responsáveis ferramentas para acompanhar a experiência dos adolescentes.
FONTES
BRASIL. Polícia Civil de Goiás. Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Anápolis. Informações sobre o caso Ana Clara Alves Silva. Goiânia, 9 set. 2026.
SOARES, Fábio. Entrevista concedida à TV Anhanguera. Anápolis, 8 set. 2026.
AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Determinação de suspensão de funcionalidades do Discord no Brasil. Brasília, 12 ago. 2026.
DISCORD. Nota oficial sobre segurança de usuários. São Paulo, 9 set. 2026.
G1. Menina de 13 anos desaparece e deixa carta de despedida para a família. Goiânia, 8 set. 2026.
MAIS GOIÁS. Homem convenceu menina de 13 anos a fugir de casa e a manteve presa em imóvel abandonado de Anápolis, diz delegada. Anápolis, 9 set. 2026.