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Crença

Papa Leão XIV aprova documento que aproxima cosmovisão budista da espiritualidade de São Francisco

By Régis Andrade
10 de setembro de 2026 6 Min Read
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Texto da Comissão Teológica Internacional sobre o cuidado da “Casa comum” estabelece paralelo entre a iluminação de Buda e a percepção franciscana de fraternidade cósmica, propondo nova terminologia teológica para o pecado ecológico e defendendo o diálogo inter-religioso como caminho para a conversão ambiental

A Comissão Teológica Internacional publicou um documento que estabelece uma aproximação inédita entre a cosmovisão budista e a espiritualidade de São Francisco de Assis, no âmbito de uma reflexão mais ampla sobre o cuidado da criação. O texto, intitulado “Cuidar da nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”, foi aprovado pela maioria dos membros da comissão e autorizado para publicação pelo Papa Leão XIV, após apresentação ao cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé.

O documento é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025 e foi publicado durante o Tempo da Criação, período em que a Igreja Católica dedica atenção especial às questões ambientais. O ponto de partida do texto é o que descreve como uma “tripla mutação” ocorrida ao longo dos séculos: a perda da percepção espontânea da natureza como criação de Deus, o surgimento de uma visão cada vez mais antropocêntrica e predatória na relação entre o homem e a criação, e a propagação de uma crise planetária sem precedentes.

Aproximação entre Buda e São Francisco

No parágrafo dedicado ao budismo, o documento afirma que, durante sua iluminação, Buda teria percebido a “interconexão radical de todos os fenômenos naturais”. Essa experiência, segundo o texto, “o aproxima, de algum modo, da percepção da fraternidade e sororidade cósmicas vivida por São Francisco de Assis”.

A comparação é apresentada predominantemente a partir das categorias budistas de interconexão, compaixão e ahimsa — o princípio de não-violência —, aproximando-as da experiência cristã de São Francisco. O trecho não estabelece um contraponto claro entre a cosmovisão budista e a doutrina católica tradicional sobre a diferença essencial entre o homem e os demais seres vivos, o pecado original, a ordem da criação e a mediação única de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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O documento destaca ainda que o trabalho de cuidado com a criação não pode ser realizado apenas pela Igreja Católica, mas requer contribuição entre diversas religiões e a ciência. Há um reconhecimento explícito de boas contribuições fora do catolicismo, como a interconexão de tudo que existe, o respeito pelos seres vivos e um entendimento sobre a responsabilidade que o homem possui.

Estrutura trinitária da criação

O primeiro capítulo do documento, intitulado “A Casa Comum, obra do Deus trinitário”, destaca “a marca não apenas divina, mas também trinitária” presente na criação. Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade — sinal de “uma realidade sagrada e oculta” que encontra sua “máxima elevação” na Eucaristia — e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua vocação desenvolvendo corretamente as relações com Deus, com os outros e com a criação.

O texto afirma que “nada nem ninguém é uma mônada” e que “tudo está inter-relacionado” para formar “uma única comunidade de vida”. A reflexão é ilustrada com o ensinamento de quatro Doutores da Igreja: Santo Agostinho, Santa Hildegarda de Bingen, São Boaventura de Bagnoregio e Santo Tomás de Aquino.

No diálogo com as visões científicas e filosóficas do cosmos, o documento sustenta que a fé no Deus criador oferece algo que a ciência não consegue proporcionar. Se a cosmologia reflete sobre como o mundo surgiu, a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não simplesmente física, e chama livremente à existência aquilo que, por si só, não existiria.

Antropocentrismo situado e a centralidade da Eucaristia

O segundo capítulo, “O ser humano na Casa comum”, parte da reflexão sobre o homem criado à “imagem e semelhança de Deus” para reafirmar que as diferenças de etnia, gênero, cultura ou status social não implicam uma hierarquia. Utilizá-las para discriminar ou subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus.

A proposta da teologia cristã para a relação do ser humano com a natureza procura evitar “dois extremos inaceitáveis”: o “antropocentrismo predatório”, que considera a humanidade como “dona absoluta de toda a criação”, e o “biocentrismo” ou “ecocentrismo”, que absolutiza a natureza. No meio estaria o “antropocentrismo situado”, que vê o ser humano como “administrador e servidor da criação”.

O documento descreve a Eucaristia como uma “escola ecológica” da qual flui “uma espiritualidade capaz de sustentar e encorajar a conversão ecológica que tão urgentemente precisamos empreender como família humana”. O ser humano oferece a criação a Deus em Cristo e, em troca, implora a bênção de Deus em Cristo para todas as coisas.

Pecado contra a Criação e contra o Criador

O documento propõe uma nova formulação teológica: falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, expressão que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da criação. A formulação evita tanto a linguagem puramente científica — como “ecocídio” — quanto a dispersão da responsabilidade.

“Propomos compreender este pecado contra a nossa Casa comum como um ‘pecado contra a criação e contra o Criador’, na medida em que viola o significado da criação pretendido por Deus Criador”, afirma o documento. Ao falhar em cuidar da Casa comum com sabedoria e visão de longo prazo, “não apenas deixamos de respeitar o plano de Deus e maltratamos a criação, mas também prejudicamos nossos próximos, especialmente os mais pobres e as gerações futuras”.

O texto resume alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o desaparecimento da diversidade biológica — que “não é um luxo exótico”, mas “um fator-chave” para a segurança alimentar —, a poluição atmosférica, a piora da qualidade da água, a guerra que acelera “brutalmente” a destruição do meio ambiente e as repercussões “extremamente graves” sobre os mais pobres, explorados em seus recursos naturais e forçados à migração.

O momento histórico atual “exige de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata apenas de uma exigência ética, mas também teológica”.

Diretrizes para a conversão ecológica

O terceiro capítulo oferece diretrizes operacionais articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa. Da relação com Deus deriva a “lógica jubilar”, que, baseada na fraternidade, na solidariedade, na gratuidade e na humildade, conduz à justiça social.

Da relação consigo mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida saudável, atento ao consumo responsável. Da relação com a criação decorrem princípios como a reverência, a sustentabilidade, a escuta do “clamor comovente” da Terra, o respeito pela vida, a ascese e o jejum, e um compromisso diferenciado de acordo com as responsabilidades das diversas nações.

Da relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana, a destinação universal dos bens, a fraternidade, a misericórdia e a opção preferencial pelos pobres. Por fim, o documento reflete sobre a contribuição oferecida pelas diversas religiões para o cuidado da criação.

Contexto e recepção

O secretário-geral da Comissão Teológica Internacional, padre Piero Coda, destacou que a proposta de “compreender o pecado contra o ambiente de maneira semelhante a como as noções de pecado social e estruturas de pecado foram progressivamente consolidadas” é de particular importância. “Isso ressalta a profunda seriedade da ‘virada ecológica’ que desafia nossa consciência hoje, exigindo uma conversão que — para ser plenamente eficaz nos níveis cultural, social, econômico e político — deve primeiramente encontrar expressão nos níveis espiritual e religioso”.

O documento convida a uma “virada ecológica”, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, e encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.

A publicação ocorre no contexto do pontificado de Leão XIV, eleito em maio de 2025. O documento retoma e aprofunda a linha iniciada pelo Papa Francisco, que em 2015 publicou a encíclica Laudato si’, a primeira dedicada ao ambiente e às alterações climáticas.


Fonte: Comissão Teológica Internacional, Cuidar da nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário. Publicado em 2 de setembro de 2026, com autorização do Papa Leão XIV. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_doc_20260821_prendersi-cura-casa-comune_it.html 

Tags:

BudaCasa ComumComissão Teológica Internacionaldiálogo inter-religiosoLaudato si'papa leão xivpecado ecológicoSão Francisco de Assisvaticano
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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