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Crença

Após 4.300 anos, montanha de 157 metros na Turquia pode revelar paradeiro da Arca de Noé, descrito na Bíblia

By Régis Andrade
28 de setembro de 2026 6 Min Read
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Após 4.300 anos, pesquisadores usam georradar e LiDAR para investigar estrutura de 157 metros perto do Monte Ararat hoje

Há quase oito décadas, uma formação rochosa de contorno ovalado e proporções invulgares repousa sobre uma colina árida no leste da Turquia, a cerca de trinta quilômetros do cume do Monte Ararat. Vista de cima, a estrutura alongada lembra o casco de uma embarcação de grandes dimensões, e essa semelhança tem alimentado uma das buscas mais persistentes e controversas da arqueologia moderna. Agora, uma investigação científica de larga escala, conduzida com autorização oficial do governo turco, promete trazer respostas definitivas sobre a verdadeira natureza desse enigmático relevo conhecido como Formação Durupınar.

A história do sítio começa em 1948, quando fortes tempestades e um terremoto alteraram a topografia da região, expondo contornos que até então permaneciam ocultos. Um pastor local teria sido o primeiro a notar o formato peculiar do terreno. No entanto, foi apenas em 1959 que a formação ganhou notoriedade internacional, quando o capitão da Força Aérea Turca İlhan Durupınar identificou oficialmente o contorno a partir de fotografias aéreas, dando origem ao nome pelo qual o local é conhecido até hoje. Desde então, a estrutura atrai tanto arqueólogos quanto entusiastas da chamada arqueologia bíblica, dividindo opiniões entre aqueles que enxergam nela os vestígios de uma construção antiga e os que a consideram apenas mais uma curiosidade geológica esculpida pelo tempo.

A nova fase da pesquisa é coordenada pelo arqueólogo Cenker Atila, professor da Universidade Sivas Cumhuriyet, e conta com a participação de aproximadamente vinte cientistas e estudantes provenientes de cinco países. O projeto recebe apoio do grupo americano Noah’s Ark Scans, liderado pelo pesquisador Andrew Jones, que atua como vice-chefe do projeto. Os trabalhos de campo mais recentes foram realizados entre o final de junho e o início de setembro, ao longo de aproximadamente noventa dias, e envolveram uma combinação de métodos não invasivos e perfurações controladas para investigar o subsolo sem recorrer imediatamente a escavações em larga escala.

Entre as tecnologias empregadas estão o georradar, que emite ondas eletromagnéticas para mapear reflectores subterrâneos; a tomografia de resistividade elétrica, que mede a variação da resistência do solo à passagem de corrente para identificar cavidades e materiais distintos; o LiDAR, que utiliza pulsos de laser para gerar modelos tridimensionais detalhados da superfície; imagens térmicas captadas por drones; e análises químicas de amostras de solo. Um pequeno robô subterrâneo chamado Gopher, originalmente projetado para rastrear marsupiais na Austrália, também foi mobilizado para inspecionar espaços internos inacessíveis aos pesquisadores, capturando imagens e coletando material em galerias profundas.

Os levantamentos geofísicos realizados até o momento revelaram a presença de estruturas com ângulos retos e possíveis compartimentos semelhantes a salas, localizados a cerca de nove metros de profundidade. Em alguns pontos, os refletores apontam para camadas sobrepostas e vazios preenchidos por sedimentos, o que a equipe interpreta como potencial evidência de complexidade interna difícil de explicar apenas por processos naturais. Segundo Andrew Jones, algumas das possíveis cavidades estão situadas entre três e quatro metros abaixo da superfície, enquanto outras se estendem até profundidades de aproximadamente treze metros. Cinco anomalias proeminentes detectadas por um sistema de radar avançado parecem formar um possível sistema de túneis com extensão estimada em cerca de quarenta e seis metros e altura média superior a quatro metros.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores veio das análises laboratoriais de amostras de solo coletadas em setembro de 2024 e processadas nos meses seguintes. Os resultados indicaram que o interior da formação contém quase três vezes mais matéria orgânica do que as áreas externas analisadas. Além disso, foi detectado um teor de potássio significativamente mais elevado no interior, elemento frequentemente associado a cinzas de madeira, e uma diferença acentuada nos níveis de pH entre as amostras internas e externas. Uma análise separada apontou uma concentração de carbono cerca de quarenta por cento maior no interior da formação em comparação com as áreas vizinhas. Segundo a equipe, esse conjunto de alterações químicas sugere que o material interno passou por um histórico de decomposição de matéria carbonácea em ambiente relativamente fechado, o que poderia indicar a presença de madeira, resina ou restos animais em algum momento do passado.

As perfurações de núcleo realizadas em 2026 representaram um passo importante na investigação. Uma das perfurações atingiu dezoito metros de profundidade, enquanto outras alcançaram entre cinco e oito metros. Mais de trezentas amostras foram coletadas durante o trabalho de campo e enviadas para análise em laboratórios da Universidade de Ankara. Durante as perfurações, os pesquisadores relataram ter encontrado camadas ricas em matéria orgânica a cerca de quatro ou cinco metros abaixo da superfície, seguidas por uma camada misteriosa e extremamente dura que chegou a danificar a broca utilizada no equipamento. A equipe também analisa grandes blocos de pedra perfurados encontrados no povoado de Arzap, a cerca de dezesseis quilômetros do sítio. Essas pedras, algumas com mais de duas toneladas e furos centrais, são apontadas por alguns pesquisadores como âncoras de arrasto, conhecidas como drogue stones, utilizadas por embarcações antigas para estabilizar a navegação em mares agitados.

A controvérsia sobre a natureza da Formação Durupınar, no entanto, está longe de ser resolvida. Um artigo publicado em 1996 na revista acadêmica Journal of Geoscience Education classificou a estrutura como uma formação rochosa natural, resultado de processos geológicos comuns, e descreveu alegações anteriores sobre a arca como infundadas. Geólogos que estudaram a área afirmam que o formato de barco pode ser explicado por dobramentos e erosão de camadas sedimentares, sem necessidade de intervenção humana. Pesquisadores que realizaram escavações iniciais no local relataram ter encontrado apenas solo e rochas, concluindo que se tratava de uma feição geológica formada naturalmente. Por outro lado, defensores da hipótese da arca sustentam que a combinação de ângulos retos, vazios internos e anomalias químicas não se encaixa em um modelo puramente natural. O próprio coordenador Cenker Atila tem adotado um tom cauteloso em declarações públicas, afirmando que a equipe ainda não alcançou uma conclusão definitiva, mas que os resultados obtidos são surpreendentes e deverão ser publicados em breve em formato de artigo científico e livro.

A dimensão temporal do debate remete ao período Calcolítico. Datações preliminares de amostras do solo e de sedimentos sugerem atividade humana na região entre 3.500 e 5.000 anos atrás, faixa que alguns pesquisadores associam ao contexto em que a narrativa bíblica situa o dilúvio. O livro do Gênesis, no capítulo 8, versículo 4, afirma que a arca repousou sobre as montanhas de Ararat após as águas baixarem. O termo Ararat é associado por estudiosos ao antigo reino de Urartu, que ocupou partes da atual Armênia e do leste da Turquia. A identificação do Monte Ararat como o pico específico mencionado no texto é uma tradição posterior, mas consolidou-se na cultura popular e orientou séculos de expedições à região. A Formação Durupınar, no entanto, não está no cume do Ararat, mas em uma área de colinas próxima ao Monte Tendürek, o que alimenta tanto o ceticismo dos geólogos quanto a expectativa dos defensores da hipótese.

Durante a temporada de 2026, os pesquisadores também reportaram a recuperação de fragmentos de cerâmica no local, que, segundo a equipe, podem ser provenientes de um período anterior ao dilúvio na tradição abraâmica. A antigüidade e a procedência desses artefatos ainda precisam ser estabelecidas por meio de análises laboratoriais. A expectativa é que os resultados completos da investigação sejam publicados no início do verão de 2027, após a conclusão das análises de todas as amostras coletadas durante o trabalho de campo. Até lá, a Formação Durupınar permanece como um enigma aberto, dividindo opiniões entre aqueles que veem nela um capítulo perdido da história bíblica e aqueles que a consideram apenas mais uma curiosidade geológica esculpida pelo tempo.

Fontes consultadas: NTV Haber, Geo.tv, CNN Brasil, Extra, Daily Mail, Daily Sabah, El Universo, Akşam Gazetesi, Sözcü Gazetesi, Aventuras na História, Journal of Geoscience Education, Universidade Sivas Cumhuriyet, Noah’s Ark Scans.

Tags:

Arca de Noéarqueologia bíblicadescoberta arqueológicaFormação DurupınargeorradarLiDARMonte AraratTurquia
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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