Às vésperas das eleições brasileiras, governo do presidente Donald Trump envia autoridades para a América do Sul
Landau e Segura desembarcam na América do Sul na semana decisiva do 2º turno e elevam tensão política com o Brasil agora
O governo dos Estados Unidos confirmou o envio de duas de suas mais destacadas autoridades diplomáticas para uma missão oficial na América do Sul que se estenderá de 19 a 26 de outubro, período que coincide exatamente com a semana decisiva do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para o domingo, 25 de outubro. A comitiva será chefiada pelo vice-secretário de Estado, Christopher Landau, e contará com a presença do secretário-assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Juan Pablo Segura, em uma agenda que percorrerá as capitais Assunção e Buenos Aires, com eixos temáticos voltados para investimentos, comércio bilateral e cooperação em segurança regional.
No Paraguai, o vice-secretário Landau liderará uma delegação comercial composta por empresas norte-americanas interessadas em explorar oportunidades de investimento no país, além de manter encontros com o presidente Santiago Peña e outras autoridades do alto escalão governamental. As conversas em Assunção devem abordar a ampliação do comércio bilateral, o aprofundamento da cooperação em segurança regional e o combate ao crime transnacional, em um momento de intensa fragmentação política no oficialismo paraguaio, que enfrenta uma crise interna deflagrada pelo rompimento entre o presidente Peña e o ex-presidente Horacio Cartes, com disputas que já se orientam para a formação de novos movimentos internos e para a sucessão presidencial de 2028.
A passagem pela Argentina concentrará a atenção sobre o Corredor Andes-Atlântico, iniciativa bilateral lançada em setembro durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e que prevê investimentos da ordem de 7 bilhões de dólares em infraestrutura de transporte, energia e logística, com financiamento do Banco Exim dos Estados Unidos e foco no desenvolvimento e no comércio de hidrocarbonetos e minerais críticos. Do total previsto, cerca de 6 bilhões de dólares estariam destinados à infraestrutura energética e 1 bilhão de dólares ao setor logístico, incluindo obras ferroviárias, em um projeto que analistas interpretam como uma tentativa de Washington de ampliar sua presença na região e reduzir a influência da China sobre os recursos estratégicos argentinos. Em Buenos Aires, Landau tem encontros previstos com o presidente Javier Milei, com o chanceler Pablo Quirno e com líderes do setor privado e do Congresso, em uma visita que também prepara o terreno para a eventual chegada do vice-presidente JD Vance ao país em novembro.
A dimensão política da viagem, no entanto, é amplificada pelo histórico dos dois enviados. Christopher Landau foi uma das vozes mais ativas do governo americano na aplicação de sanções com base na Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem acusou de liderar uma campanha de censura, de detenções arbitrárias e de processos politizados, chegando a afirmar publicamente que o magistrado teria destruído a relação historicamente próxima entre Brasil e Estados Unidos ao tentar aplicar a lei brasileira em território americano. Juan Pablo Segura, por sua vez, antes mesmo de assumir o cargo de secretário-assistente, já havia criticado decisões da Justiça brasileira contra aliados de Jair Bolsonaro e afirmado que Moraes, já sancionado pelos Estados Unidos por violações de direitos humanos, continuava usando as instituições brasileiras para silenciar a oposição e ameaçar a democracia, além de questionar multas aplicadas a empresas norte-americanas que se recusaram a censurar pessoas nos Estados Unidos.
O cenário eleitoral brasileiro em que a comitiva desembarca é de absoluta imprevisibilidade. As pesquisas de intenção de voto divulgadas na semana anterior à viagem apontavam um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, com levantamentos que oscilavam entre vantagens numéricas de um e de outro candidato dentro da margem de erro. O governo Trump, por meio do Departamento de Estado, afirmou em resposta a parlamentares democratas que apoia o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo, mas não respondeu de forma clara se reconheceria o resultado da eleição, o que ampliou a apreensão nos meios políticos de Brasília quanto ao real propósito da missão diplomática na semana do pleito.
A agenda oficial divulgada pelo Departamento de Estado não faz qualquer menção ao Brasil ou ao processo eleitoral brasileiro, restringindo-se a investimentos, comércio e segurança regional, mas a coincidência temporal e o perfil dos enviados produziram repercussão imediata. Nas redes sociais brasileiras, a visita passou a ser interpretada por parte dos usuários como um sinal de que os Estados Unidos estariam se posicionando para acompanhar de muito perto o desfecho da disputa, enquanto analistas de política externa avaliam que a viagem combina uma agenda econômica e de segurança com um simbolismo político que dificilmente passará despercebido na semana que decide o futuro da Presidência brasileira.
Fontes consultadas: Departamento de Estado dos Estados Unidos; CBN/Globo; Correio Braziliense; La Nación (Paraguai); Última Hora (Paraguai); La Política Online (Paraguai); El Nacional (Paraguai); La Tribuna (Paraguai); Infobae (Argentina); Swissinfo/EFE; ANSA Latina; Radio Nacional (Argentina); Clarín (Argentina); La Nación (Argentina); La Capital (Argentina); O Povo; Jornal de Brasília; Crusoe; GZH; Valor International; Gazeta do Povo; UOL Notícias; Gazeta News; Terra Brasil Notícias; Jornal Terceira Opinião; Diário do Centro do Mundo; Acontece Paraná; CLM Brasil; Tribunal Superior Eleitoral; Agência Brasil.