Salto alto, máquina e metamorfose: o vale-tudo que pode virar a eleição
Flávio repete erros de Lula e petista reage com máquina e metamorfose na reta final da disputa presidencial em 2026
A nove dias da votação que definirá o próximo presidente da República, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) mergulhou em uma contradição que intriga aliados e adversários. Depois de sair na frente no primeiro turno, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato do PL passou a repetir, ponto por ponto, o script que levou o petista à desvantagem na etapa inicial. A leitura é compartilhada nos bastidores das duas campanhas: Flávio absorveu a arrogância, a autossuficiência e o salto alto que marcaram a campanha de Lula antes da primeira votação e, ao invés de capitalizar a vantagem, comemorou antecipadamente um resultado que ainda estava indefinido.
O senador abandonou os temas que maior impacto tinham contra o adversário, como a segurança pública, as críticas ao Supremo Tribunal Federal e as observações sobre o alto custo de vida do brasileiro. Em vez disso, ressuscitou a figura do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e passou a priorizar a defesa de sua soltura, uma pauta que não dialoga com a maioria do eleitorado. Ao falar apenas para a própria bolha, Flávio repetiu o erro do petista e deixou de avançar sobre o eleitorado médio, justamente no momento em que a vantagem numérica exigia expansão e não retração.
Do outro lado, Lula sentiu o peso de terminar o primeiro turno atrás do concorrente, algo inédito desde sua primeira vitória em 2002. Inicialmente sem pauta e sem discurso, o presidente identificou as falhas da própria campanha, promoveu um choque de arrumação na equipe e trocou a coordenação da candidatura. Na sequência, abusou do uso da máquina pública como cabo eleitoral e lançou uma sequência de pacotes de bondades a poucos dias do segundo turno. Monitoramento de órgão ligado ao Senado aponta que os benefícios anunciados pelo governo já mobilizam 298,4 bilhões de reais em 2026, sem que se saiba como pagar a conta depois. O pacote inclui reajuste de 15% no piso do Bolsa Família, ampliação do Desenrola, zeramento de tributos federais sobre a gasolina, aumento do subsídio ao diesel, perdão de dívidas para microempreendedores individuais e promessa de tarifa zero no transporte coletivo aos finais de semana.
O petista também resgatou a capacidade de ser uma metamorfose ambulante, marca de sua primeira vitória em 2002. Lula alterou o tom do discurso, passou a defender pautas antes rejeitadas por ele, engatou uma fala mais rígida contra a criminalidade e, para surpresa geral, acenou até para a redução da maioridade penal. A reação do presidente contrasta com a aposta do senador do PL em uma agenda bolsonarista que, segundo aliados, não dialoga com o eleitorado médio.
As pesquisas eleitorais captam o movimento. Levantamento Quaest divulgado em 14 de outubro mostrou Flávio com 46% das intenções de voto contra 44% de Lula, um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No dia seguinte, o Datafolha apontou 47% para Flávio e 45% para Lula no cenário estimulado, e 51% a 49% nos votos válidos, também configurando empate técnico. A oscilação, embora dentro da margem, acendeu o alerta na campanha do PL: um candidato cheio de si corre o risco de esvaziar a própria vantagem, e o senador pode estar em apuros se a tendência de queda se confirmar.
Enquanto Flávio aposta no script que já se mostrou desgastante para o adversário, Lula combina a máquina pública com a metamorfose eleitoral para tentar reverter o quadro. A leitura unânime nos bastidores é que o senador absorveu os erros de Lula e agora repete a postura que levou o petista à desvantagem no primeiro turno. O presidente, por sua vez, usa a estrutura do governo e a capacidade de mudar de pele para tentar virar o jogo em um vale-tudo final que promete definir os rumos da eleição.
Fontes consultadas: Pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro de 2026, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08729/2026. Pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro de 2026, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00466/2026. Levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, divulgado em 16 de outubro de 2026. Editorial do Correio 24 Horas publicado em 16 de outubro de 2026.