Bispo responde a declarações de Lula e dispara: ‘Na igreja de Cristo, o diabo não põe a pata’
Dom Devair rebate propostas de Lula sobre celibato e ordenação feminina, defendendo autonomia e tradição católica no país.
O bispo da Diocese de Piracicaba, Dom Devair Araújo da Fonseca, reagiu com veemência às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre mudanças na estrutura e nas práticas da Igreja Católica. Em vídeo divulgado nas redes e reproduzido por veículos locais, Dom Devair afirmou categoricamente que “na Igreja de Cristo, o diabo não põe a pata”, posicionamento que marca uma rejeição clara às propostas de revisão do celibato clerical e da ordenação de mulheres mencionadas pelo presidente durante encontro com lideranças religiosas.
As falas de Lula, proferidas em ambiente de diálogo inter-religioso, defenderam a possibilidade de flexibilização de normas históricas da Igreja Católica, incluindo o fim do celibato obrigatório para padres e a abertura para que mulheres possam ser ordenadas como sacerdotes e bispos. As sugestões do chefe do Executivo provocaram reação imediata em setores conservadores do clero e entre fiéis que veem nas tradições e na doutrina elementos centrais da identidade católica.
Dom Devair classificou a intervenção como inadequada e ressaltou que a administração pública já enfrenta desafios complexos que demandam atenção integral dos governantes. Para o bispo, a proposição de mudanças internas à Igreja por parte de autoridades políticas configura uma intromissão que desrespeita a autonomia institucional e o processo deliberativo próprio da hierarquia eclesiástica.
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No vídeo, o bispo explicou que a Igreja possui canais e instâncias próprias para debater questões doutrinárias e disciplinares, e que qualquer alteração de caráter estrutural deve emergir desses processos internos. Ele enfatizou ainda a importância de preservar a liberdade de consciência dos fiéis e a independência das decisões religiosas frente a pressões externas de natureza política.
A declaração de Dom Devair insere-se em um debate mais amplo sobre os limites da atuação política em temas religiosos e sobre a forma como mudanças de costumes e práticas são discutidas dentro das comunidades de fé. Especialistas em direito constitucional e em relações entre Estado e Igreja apontam que, embora o debate público seja legítimo, a interferência direta do poder público em normas internas de confissões religiosas pode gerar tensões institucionais e questionamentos jurídicos.
Repercussões entre fiéis e lideranças eclesiásticas foram imediatas. Em paróquias e grupos de base, a manifestação do bispo foi recebida com apoio por parte de setores que defendem a manutenção das práticas tradicionais; por outro lado, movimentos por reformas internas da Igreja interpretaram as falas do presidente como um estímulo ao debate sobre inclusão e atualização de normas. O episódio reacendeu discussões que vinham sendo travadas em diferentes países sobre o papel do celibato, a participação feminina nos ministérios ordenados e a resposta institucional da Igreja a demandas sociais contemporâneas.
Analistas religiosos observam que mudanças de grande impacto na disciplina e na teologia católicas costumam decorrer de processos longos, envolvendo sínodos, consultas teológicas e deliberações no âmbito do magistério. Nesse sentido, a proposta de um agente externo, ainda que influente, tende a encontrar resistência tanto por razões doutrinárias quanto por questões de autonomia institucional.
A fala de Dom Devair também trouxe à tona a sensibilidade do tema no plano político. Ao afirmar que políticos devem concentrar-se nas responsabilidades do governo, o bispo sublinhou a necessidade de separar o campo das decisões públicas do campo das decisões religiosas, sem, contudo, impedir que cidadãos e autoridades participem do debate público como indivíduos e eleitores.
O confronto de posições entre o presidente e o bispo de Piracicaba evidencia a complexidade do diálogo entre Estado e religião em um país plural. O episódio deverá continuar a gerar manifestações públicas, debates em meios de comunicação e reflexões internas na Igreja sobre como responder a pressões externas sem abrir mão de sua autonomia e de seus processos deliberativos.
Fonte: Jornal da Cidade Online.