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BRASIL: Arara-azul-grande entra para a lista de espécie ameaçado de extinção após 12 anos

By Régis Andrade
13 de setembro de 2026 5 Min Read
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Maior papagaio do mundo, a espécie foi reclassificada como Vulnerável após incêndios destruírem seu habitat no Pantanal.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima confirmou o retorno da arara-azul-grande à Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção. A ave, símbolo da biodiversidade brasileira e maior papagaio do mundo em tamanho, havia sido retirada da relação em 2014, após um longo ciclo de recuperação populacional, e agora reaparece classificada na categoria Vulnerável, o primeiro nível de risco reconhecido pela legislação ambiental do país.

A atualização foi formalizada por meio da Portaria MMA nº 1.704, publicada no Diário Oficial da União em 18 de junho de 2026. O documento é resultado de um longo processo de avaliação técnica conduzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, autarquia federal responsável por monitorar o estado de conservação da fauna brasileira, com apoio de pesquisadores, universidades e organizações da sociedade civil dedicadas à proteção ambiental.

Uma trajetória de quase meio século entre risco e recuperação

A relação da arara-azul-grande com a lista oficial de espécies ameaçadas remonta à década de 1980, quando o tráfico de animais silvestres e a caça ilegal reduziram drasticamente as populações da ave em seu habitat natural. Estima se que mais de 10 mil exemplares tenham sido retirados da natureza naquele período, o que levou à primeira inclusão formal da espécie entre os animais em risco de desaparecimento.

Nas décadas seguintes, programas de conservação, reprodução assistida e fiscalização contra o tráfico de fauna permitiram uma recuperação populacional considerada expressiva pelas autoridades ambientais. Esse esforço resultou, em 2014, na retirada da arara-azul-grande da lista oficial, um marco então celebrado como exemplo de sucesso em políticas de conservação no Brasil.

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Passados 12 anos, contudo, o cenário voltou a se deteriorar. A nova avaliação técnica do ICMBio identificou agravamento suficiente no estado de conservação da espécie para justificar sua reinclusão, desta vez na categoria Vulnerável.

O papel dos incêndios florestais no agravamento do risco

De acordo com a análise técnica que fundamentou a atualização da lista, a principal causa do novo risco enfrentado pela arara-azul-grande está relacionada à destruição de seu habitat natural, agravada pelos incêndios florestais recorrentes no Pantanal, bioma que concentra a maior parte da população remanescente da espécie.

A ave depende de um número reduzido de espécies arbóreas, entre elas o manduvi, tanto para alimentação quanto para nidificação. Essas árvores, em geral de grande porte e crescimento lento, funcionam como estrutura essencial para a reprodução da espécie, já que a arara-azul-grande utiliza cavidades naturais em troncos antigos para colocar seus ovos. Quando essas árvores são consumidas pelo fogo, a espécie perde simultaneamente fonte de alimento e local de reprodução, um efeito duplo que compromete sua capacidade de se recuperar mesmo em anos seguintes.

A frequência e a intensidade das queimadas no Pantanal nos últimos ciclos ambientais têm sido apontadas como um dos principais fatores de pressão sobre a biodiversidade da região, afetando não apenas a arara-azul-grande, mas um conjunto amplo de espécies que dependem da vegetação nativa do bioma para sobreviver.

Os números da nova Lista Nacional de Espécies Ameaçadas

A Portaria MMA nº 1.704 de 2026 reúne, em seus dois anexos, a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção e a Lista Nacional Oficial de Espécies de Fauna Extintas. Juntas, elas substituem a versão anterior, publicada em 2022, e incorporam os resultados mais recentes das avaliações de conservação conduzidas pelo ICMBio.

Ao todo, a nova lista de espécies ameaçadas reúne 790 espécies e subespécies da fauna terrestre e de mamíferos marinhos brasileiros. Esse total representa um aumento em relação às 764 espécies e subespécies que constavam na versão de 2022, um crescimento líquido de 26 táxons, resultado tanto da inclusão de novos registros quanto da reclassificação de espécies que já figuravam na relação anterior.

Do total de 790 espécies e subespécies ameaçadas, a distribuição por grupo taxonômico é a seguinte: 264 são invertebrados terrestres, 242 são aves, 123 são répteis, 102 são mamíferos e 59 são anfíbios. Já em relação ao grau de ameaça, 168 espécies estão classificadas como Criticamente em Perigo, sendo que, dentro desse grupo, 25 são consideradas Possivelmente Extintas na natureza. Outras 285 espécies encontram se na categoria Em Perigo, enquanto 337 integram a categoria Vulnerável, na qual a arara-azul-grande foi reclassificada.

A Lista Nacional Oficial de Espécies de Fauna Extintas, por sua vez, permanece com nove espécies reconhecidas oficialmente como extintas no território brasileiro, sendo seis aves, dois anfíbios e um mamífero, o roedor conhecido como roedor de Vespucci, que ocorria exclusivamente no arquipélago de Fernando de Noronha.

Segundo o ICMBio, cerca de 180 espécies e subespécies passaram a integrar a lista nesta atualização por terem apresentado agravamento em seu estado de conservação, enquanto aproximadamente 150 espécies foram retiradas da relação, por apresentarem sinais de recuperação populacional.

O que muda com a reclassificação como espécie Vulnerável

A escala oficial de ameaça de extinção adotada pelo governo brasileiro reconhece três graus principais de risco, em ordem crescente de gravidade: Vulnerável, Em Perigo e Criticamente em Perigo, havendo ainda categorias específicas para espécies possivelmente extintas na natureza ou extintas na natureza selvagem. A classificação da arara-azul-grande como Vulnerável indica que, apesar de a espécie ainda manter populações relativamente estáveis em algumas regiões do país, o conjunto de ameaças já identificadas é suficiente para justificar medidas de proteção reforçadas.

Na prática, a inclusão formal na lista oficial confere à espécie prioridade em planos de ação nacionais voltados à conservação, direciona recursos públicos e parcerias institucionais para pesquisa e proteção de habitat, e amplia o respaldo legal para ações de fiscalização contra caça, tráfico e degradação ambiental em áreas de ocorrência da ave.

Impacto sobre a gestão ambiental em biomas estratégicos

A atualização da lista tem reflexos diretos sobre a gestão ambiental de biomas considerados estratégicos para a conservação da biodiversidade brasileira, entre eles a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica. No caso da arara-azul-grande, o Pantanal ocupa posição central, já que concentra a maior parcela da população remanescente da espécie e é justamente onde os incêndios florestais têm causado os impactos mais severos sobre seu habitat.

Especialistas em conservação de fauna apontam que, embora o desmatamento continue sendo identificado como a principal pressão estrutural sobre a biodiversidade nacional, outros fatores como impactos de grandes empreendimentos, poluição, caça ilegal, tráfico de animais silvestres e atropelamentos em rodovias que cruzam áreas de ocorrência das espécies também contribuem de forma significativa para o agravamento dos riscos identificados nesta atualização.

O caso da arara-azul-grande é descrito por técnicos ambientais como um exemplo emblemático de como espécies altamente especializadas, dependentes de recursos naturais específicos e localizados, podem ver décadas de esforço de conservação ameaçadas por eventos climáticos extremos concentrados em curtos períodos de tempo, reforçando a necessidade de políticas de prevenção e combate a incêndios florestais como parte integrante das estratégias de proteção da fauna brasileira.

Fontes: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (gov.br); Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); CNN Brasil; Apremavi; Ambiental Mercantil.

Tags:

arara-azul-grandebiodiversidadeespécies ameaçadasextinçãofauna brasileiraICMBioincêndios florestaismeio ambienteMMAPantanal
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