Brasil conquista seu melhor desempenho histórico e entra no Top 16 dos passaportes mais poderosos do mundo
Documento brasileiro atinge a 16ª posição e garante entrada em 169 países sem visto, igualando o melhor desempenho sul-americano
O brasileiro que planeja cruzar fronteiras nos próximos meses encontrará um cenário mais favorável do que em qualquer outro momento da história recente. O passaporte nacional acaba de conquistar sua colocação mais alta no ranking que mede o poder de mobilidade internacional, assumindo a décima sexta posição em um universo de quase duzentas nações avaliadas. O documento verde e amarelo agora garante entrada desembaraçada em cento e sessenta e nove destinos ao redor do globo, um número que iguala o desempenho da vizinha Argentina e coloca ambos os países no mesmo degrau de prestígio diplomático.
A progressão brasileira não aconteceu por acaso. Ao longo dos últimos ciclos de atualização do índice, o país vinha costurando entendimentos silenciosos com nações da Ásia, da África e do Leste Europeu, regiões que tradicionalmente impunham barreiras burocráticas aos cidadãos do hemisfério sul. Cada nova isenção concedida representa semanas ou meses de negociações técnicas conduzidas pelo Itamaraty, que atua para convencer governos estrangeiros de que o viajante brasileiro preenche todos os requisitos de segurança, estabilidade financeira e baixo risco migratório. O resultado prático aparece na tela do check-in: menos formulários, menos taxas consulares, menos tempo de espera e mais destinos disponíveis com a simples apresentação do passaporte válido.
A fotografia completa do levantamento revela uma hierarquia global que vai muito além da posição brasileira. No cume solitário da lista, Singapura ostenta um poder de acesso quase irrestrito. Os portadores do passaporte vermelho da cidade-Estado asiática cruzam as fronteiras de cento e noventa e dois países sem qualquer exigência de visto. A liderança isolada de Singapura se explica por uma engenharia diplomática que combina neutralidade política, pujança econômica e um sistema interno de controle que inspira confiança absoluta nos parceiros internacionais.
Logo abaixo do líder máximo, três nações compartilham a segunda colocação em um empate técnico que diz muito sobre a nova geografia do poder global. O Japão, tradicional potência de mobilidade, mantém sua posição de destaque sustentado por décadas de relação respeitosa com praticamente todos os blocos regionais. A Coreia do Sul, impulsionada por sua indústria cultural e tecnológica, consolida sua presença entre as elites diplomáticas. E os Emirados Árabes Unidos, com uma ascensão meteórica nos últimos anos, demonstram como investimentos estratégicos e uma política externa agressiva de acordos bilaterais podem transformar uma nação do Oriente Médio em potência de trânsito global.
A Suécia, ocupando o terceiro posto de forma isolada, representa a tradição europeia de passaportes valorizados. O documento sueco carrega consigo a reputação de um dos sistemas de cidadania mais confiáveis do mundo, ancorado em instituições sólidas e em uma economia que dispensa apresentações. A presença escandinava no pódio reforça a percepção de que estabilidade política interna e respeito a tratados internacionais são ingredientes indispensáveis para quem deseja ver seu passaporte abrir portas ao redor do planeta.
Na base da pirâmide da mobilidade, a realidade é brutal e revela o abismo que separa as nações prósperas das zonas de conflito prolongado. O Afeganistão ocupa a lanterninha do ranking com um passaporte que praticamente não oferece acesso facilitado a lugar nenhum. A situação afegã decorre diretamente do colapso institucional que se seguiu à tomada do poder pelo Talibã, evento que isolou o país da comunidade internacional e transformou seu documento de viagem em um dos menos úteis do mundo. A Síria, dilacerada por mais de uma década de guerra civil, e o Iraque, que ainda carrega as cicatrizes de intervenções militares e instabilidade crônica, completam o trio de nações cujos cidadãos enfrentam as maiores dificuldades para circular livremente. Para essas populações, conseguir um visto para o exterior não é apenas uma questão de planejamento de viagem, mas frequentemente um obstáculo intransponível que separa famílias e inviabiliza oportunidades.
O levantamento também joga luz sobre movimentos históricos que redefiniram a mobilidade global nas últimas duas décadas. Os Estados Unidos, que em dois mil e seis figuravam no topo absoluto do ranking, exibindo um passaporte que era sinônimo de liberdade de movimento, hoje aparecem estacionados na décima posição. A trajetória descendente americana começou com o endurecimento das políticas de reciprocidade e se acentuou com a adoção de posturas unilaterais que afetaram a percepção internacional sobre o país. Trata-se de um declínio simbólico que espelha as transformações de um mundo cada vez mais multipolar, onde o poder de trânsito já não obedece exclusivamente à lógica das superpotências tradicionais.
Entre os vizinhos sul-americanos, o caso mais emblemático de perda de prestígio pertence à Bolívia. O país andino protagonizou a queda mais acentuada do período analisado, despencando da vigésima nona posição para o sexagésimo terceiro lugar. O tombo boliviano reflete instabilidades políticas internas que se repetiram em ciclos, crises econômicas que corroeram a confiança internacional e o enfraquecimento dos canais diplomáticos que antes asseguravam isenções vantajosas. Enquanto Brasil e Argentina consolidam sua posição de destaque, a Bolívia vê seu passaporte perder valor em um continente onde a integração regional já foi apontada como caminho para o fortalecimento coletivo. O contraste entre os vizinhos evidencia que a mobilidade internacional não é um bem permanente, mas uma conquista que exige manutenção constante, estabilidade institucional e uma política externa capaz de se adaptar às exigências de um planeta em permanente reconfiguração.
Fontes:
Henley & Partners – Henley Global Passport Index 2024
International Air Transport Association – Timatic Database