Fé fatal: profeta entra em jaula de leões e morre devorado na Nigéria
Profeta nigeriano recria Daniel na cova dos leões em 1991, mas é atacado e morto pelas feras diante do público em Ibadan
No domingo de Páscoa de 1991, o Zoológico da Universidade de Ibadan, no estado de Oyo, sudoeste da Nigéria, recebia um público numeroso. Famílias inteiras aproveitavam o feriado para visitar o local, um dos mais tradicionais do país, fundado em 1948 como centro de pesquisa e transformado em zoológico completo em 1974. Entre os visitantes daquele dia estava Daniel Abodunrin, um pregador que se apresentava como profeta e bispo, e que não havia ido até lá para admirar os animais. Sua intenção era outra, bem mais audaciosa: recriar ao vivo o episódio bíblico de Daniel na cova dos leões, narrado no sexto capítulo do Livro de Daniel.
Abodunrin chegou ao zoológico vestindo uma túnica vermelha esvoaçante e carregando uma Bíblia de grande porte debaixo do braço. Segundo relatos da época, ele se aproximou dos tratadores e pediu insistentemente para ser autorizado a entrar no recinto dos leões. A solicitação foi negada de imediato, como seria de se esperar. Nenhum funcionário em sã consciência permitiria que uma pessoa entrasse voluntariamente em uma jaula com felinos selvagens. No entanto, após muita insistência, o profeta teria conseguido acesso ao espaço. Outras versões do ocorrido afirmam que ele simplesmente pulou a cerca e invadiu o recinto sem autorização alguma. Independentemente da forma como entrou, o fato é que ele se colocou diante dos animais.
Já dentro da jaula, o profeta começou a recitar versículos bíblicos em alta voz, falava em línguas e clamava pelo “Deus de Daniel” para que realizasse maravilhas. Testemunhas relatam que ele gritava expressões como “Jah, Jah, Jah”, uma forma abreviada de Jeová. Em um primeiro momento, os leões recuaram para um canto da jaula, comportamento comum em felinos selvagens quando se deparam com algo desconhecido em seu território. Abodunrin interpretou a reação como um sinal de que o milagre estava em andamento e se aproximou ainda mais dos animais, continuando a entoar orações.
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A trégua, porém, durou pouco. Em questão de segundos, os leões avançaram sobre o profeta com violência. Abodunrin tentou lutar pela vida, mas sua força não era páreo para a das feras. Ele foi arrastado, dilacerado e devorado diante de dezenas de pessoas que assistiam horrorizadas. A túnica vermelha que vestia ficou em farrapos ensanguentados, e a Bíblia que carregava, arremessada durante o ataque, terminou coberta de poeira no chão da jaula. Uma debandada geral tomou conta do zoológico, com visitantes correndo em pânico enquanto os funcionários tentavam, sem sucesso, intervir.
O corpo do profeta foi recolhido e sepultado posteriormente. O episódio gerou comoção e dividiu opiniões na Nigéria. Enquanto muitos condenaram a atitude de Abodunrin como um ato de fanatismo e imprudência, outros argumentaram que os leões estavam possuídos por espíritos malignos e chegaram a exigir que os animais fossem sacrificados. As autoridades do zoológico recusaram o pedido, alegando que os leões apenas reagiram a uma ameaça em seu território, seguindo seus instintos naturais.
O caso de Daniel Abodunrin tornou-se uma das histórias mais lembradas da Nigéria quando o assunto é a linha tênue entre fé e fanatismo. Três décadas depois, o episódio continua sendo citado como um alerta sobre os perigos de se testar a própria sorte em nome de convicções religiosas. A tragédia do profeta que quis ser Daniel e encontrou a morte na jaula dos leões permanece como um retrato doloroso da fronteira entre a devoção e a imprudência.
Fontes consultadas para esta matéria: Pulse.ng, GhanaWeb, Legit.ng, Oyo Affairs, Radio Nigeria Ibadan, Latest Nigerian News, Confiance.com.ng e Paperblog.