Frei Gilson diz que tatuagens serão apagadas no céu e causa polêmica
Religioso afirma que corpo glorioso será igual ao de Cristo e que marcas na pele não existirão na eternidade para sempre
A fala do Frei Gilson sobre tatuagens e a eternidade provocou uma reação em cadeia que ultrapassou os limites das comunidades católicas e se transformou em um dos debates mais intensos das redes sociais brasileiras. O religioso, que construiu uma audiência de milhões de seguidores com transmissões ao vivo na madrugada e um discurso direto, viu uma de suas pregações se espalhar de forma viral e dividir opiniões entre fiéis, teólogos e internautas que, até então, acompanhavam sua trajetória de perto.
Durante a pregação, o frade carmelita afirmou que as tatuagens não terão lugar na eternidade e que aqueles que as possuem verão tais marcas removidas ao receberem um corpo glorioso. A declaração exata foi: “Ao menos no céu não haverá ninguém tatuado. Se tiver, vai ser limpo, porque teremos um corpo glorioso igual ao de Cristo, e o corpo de Cristo não tem tatuagem. Se tiver, vai limpar tudo”. Em outro momento do mesmo sermão, o religioso classificou as tatuagens como vaidade da terra e coisa vazia, e questionou se a prática agradaria ao Espírito Santo, recomendando que os fiéis pedissem orientação divina antes de se tatuarem.
A repercussão foi imediata. O trecho do sermão circulou por plataformas como TikTok, YouTube e Instagram, acumulando milhões de visualizações em poucos dias. A hashtag relacionada ao tema alcançou centenas de milhares de menções, e o nome do Frei Gilson se tornou um dos assuntos mais comentados do país. A polêmica reacendeu um debate antigo sobre os limites entre tradição religiosa e comportamento moderno, mas também expôs fraturas internas no catolicismo brasileiro, dividido entre setores que defendem uma leitura literal das Escrituras e grupos que buscam uma interpretação contextualizada dos textos bíblicos.
Para sustentar sua posição, o Frei Gilson recorreu a uma interpretação literal de passagens do Antigo Testamento, com foco principal no livro de Levítico. O texto bíblico traz orientações sobre não fazer marcas ou incisões no corpo, o que, na visão do religioso, constituiria uma barreira espiritual para os fiéis. Ele também citou passagens do Novo Testamento que tratam do corpo como templo do Espírito Santo, argumentando que a proibição bíblica ainda se aplicaria aos cristãos contemporâneos. A interpretação, no entanto, está longe de ser consenso dentro do cristianismo.
A posição oficial da Igreja Católica sobre tatuagens não é de condenação absoluta. O Catecismo da Igreja Católica não menciona tatuagens especificamente e não estabelece uma proibição geral da prática. A doutrina católica ensina que tatuagens e atos de piercing corporal não são intrinsecamente maus, embora ofereça princípios pelos quais os católicos podem discernir se é pecado tatuar-se em situações particulares. Tatuagens cujas palavras e imagens celebrem o demoníaco, sejam impudicas ou ofendam a caridade seriam imorais, mas isso não equivale a uma proibição generalizada. A Igreja reconhece, inclusive, que tatuagens podem ter finalidades terapêuticas, como as realizadas em pacientes submetidos a radioterapia para câncer, que servem como marcadores para o tratamento.
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Teólogos e estudiosos apontam que as proibições de Levítico eram direcionadas a rituais pagãos específicos da época, nos quais os povos vizinhos de Israel tatuavam-se como sinal de dedicação a divindades falsas. O texto também proíbe cortes de cabelo e aparo da barba, o que, para muitos intérpretes, indica que as normas tinham um contexto cultural e religioso delimitado. Sob a ótica do Novo Testamento, a ênfase recairia sobre o interior do indivíduo, e não sobre a estética externa. O Novo Testamento não traz proibições diretas sobre tatuagens, o que amplia o espaço para diferentes interpretações dentro das igrejas cristãs.
A questão da forma exata do corpo ressuscitado e da preservação de marcas corporais deliberadas, como as tatuagens, tem sido debatida ao longo da história da teologia cristã. Não há consenso teológico sobre se as tatuagens seriam preservadas ou removidas na vida eterna. A teologia católica ensina que os fiéis ressuscitarão com um corpo glorioso, à imagem do corpo ressuscitado de Cristo, mas a natureza exata desse corpo e a relação com as modificações corporais terrenas permanecem objeto de especulação e debate entre teólogos. A teologia do corpo, desenvolvida por São João Paulo II, ensina que o corpo é capaz de tornar visível o que é invisível, e que uma tatuagem não afeta apenas o corpo, mas também a alma, pois a alma é a forma substancial do corpo. No entanto, essa perspectiva não implica necessariamente que as tatuagens sejam pecaminosas ou que impeçam a salvação.
A repercussão nas redes sociais foi marcada por uma divisão profunda. Parte dos internautas criticou o religioso por considerar a fala radical e preconceituosa, enquanto outros saíram em defesa do sacerdote, afirmando que ele apenas reforçou ensinamentos tradicionais da fé. Um usuário declarou: “Caro Frei Gilson, Deus deu uma vida para cada um cuidar, então vá cuidar da sua”. Outro afirmou: “Eu, particularmente, acho um pensamento infantil acreditar que no céu vamos estar com nossos corpos da Terra, ainda mais que a tatuagem chega até ao espírito, à alma”. Uma terceira pessoa fez uma reflexão sobre a incoerência de se exigir pureza corporal: “Conheço muitas pessoas com tatuagem com o coração lindo e conheço muitas pessoas com a Bíblia na ponta da língua e debaixo do braço, com o coração rancoroso, cheio de maldade, cheio de blasfêmia! E, para os que estão criticando: sua sobrancelha é verdadeira? Suas unhas, seus dentes? Se Deus for levar as pessoas para o céu só quem tiver o corpo limpo, não vai um, mas, se ele for levar as pessoas conforme viveram sua vontade, iremos muitos”.
Houve também quem apontasse incoerências ideológicas do religioso, mencionando que o deputado federal Nikolas Ferreira, aliado político do frei, possui tatuagens. Um usuário escreveu: “Só que ele gosta de fazer lives patriotas contra o Lula e a favor da extrema direita. Será que ele sabe que o Nikolas Ferreira é tatuado e o Lula não é?”. Outro citou a passagem de Levítico 19:27 para questionar a coerência do discurso: “Não cortem o cabelo dos lados da cabeça nem raspem a barba rente à pele. Levítico 19:27. Ou seja, Frei Gilson também não vai pro céu”.
A polêmica em torno das declarações sobre tatuagens não é um episódio isolado na trajetória do Frei Gilson. O religioso, cujo nome de batismo é Gilson da Silva Pupo Azevedo, nasceu em São Paulo em 17 de dezembro de 1986 e foi ordenado sacerdote em 7 de dezembro de 2013 pela congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo. Conhecido por liderar o ministério Som do Monte e por suas transmissões ao vivo com pregações, o religioso acumula mais de 12 milhões de seguidores somente no Instagram e chegou a reunir mais de 1 milhão de telespectadores em uma live às 4h da manhã durante a Quaresma. Sua crescente influência digital e seu discurso direto o tornaram uma das figuras mais controversas e, ao mesmo tempo, mais seguidas do catolicismo brasileiro contemporâneo.
Recentemente, o Frei Gilson foi criticado por fazer declarações sobre o papel da mulher dentro da família. Em um sermão, ele teria feito uma leitura do livro de Gênesis para justificar a submissão feminina, classificando o empoderamento feminino como uma ideologia diabólica e reduzindo a existência da mulher à função de mera auxiliar da liderança masculina. As falas repercutiram e a senadora Soraya Thronicke acusou o religioso de misoginia. A jornalista Rachel Sheherazade e a deputada federal Tabata Amaral também criticaram as declarações. O religioso é descrito por veículos de imprensa como um adepto da ala reacionária da Igreja Católica e um fervoroso apoiador bolsonarista, tendo recebido apoio público do ex-presidente Jair Bolsonaro e do deputado Nikolas Ferreira em ocasiões anteriores.
A polêmica em torno das declarações sobre tatuagens reacende um debate que atravessa séculos e que, na era das redes sociais, ganha uma dimensão inédita. Declarações como essa transformam discussões internas em debates públicos e expõem a tensão entre diferentes correntes dentro da Igreja Católica, dividida entre setores mais tradicionais e grupos que buscam uma interpretação mais contextualizada das Escrituras. Para além do debate teológico, a fala do Frei Gilson tocou em uma questão profundamente pessoal para milhões de pessoas que possuem tatuagens e que, a partir da declaração, viram sua fé e sua identidade questionadas publicamente. O episódio evidencia como o discurso religioso, quando amplificado pelas plataformas digitais, pode se tornar um campo de batalha simbólico onde se confrontam visões de mundo, interpretações da fé e projetos de sociedade.
Fontes consultadas: Revista Fórum, IG Gente, O Tempo, G1, Poder360, ND Mais, Boletim Amazônia, D24AM, Amazonas News, Portal da Floresta, Manauara News, Portal Área VIP, Tanabi Notícias, InStyle Brasil, The North Star Catholic, PhilPapers, Caderno Teológico da PUCPR, Arquivo da Assembleia Legislativa da Paraíba, Vatican.va, Santuário Canção Nova, Aleteia.