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Curiosidades

Grupo quer criar cidade de US$ 1 bilhão no Uruguai para testar uma nova sociedade

By Régis Andrade
25 de setembro de 2026 7 Min Read
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Projeto da Praxis quer criar cidade bilionária de US$ 1 bi no Uruguai, para testar nova sociedade com IA já até 2027.

Um grupo de investidores e empreendedores ligados à tecnologia anunciou a escolha do Uruguai para sediar seu primeiro projeto físico de grande escala: uma cidade de aproximadamente US$ 1 bilhão voltada para a era pós-inteligência artificial. A iniciativa é liderada pela startup americana Praxis, fundada e comandada por Dryden Brown, de 30 anos, e será desenvolvida dentro do empreendimento urbanístico +Colonia, próximo a Colonia del Sacramento, no sul do país.

A Praxis se autodefine como a primeira “nação digital” do mundo e reúne cerca de 150 mil membros em sua comunidade online, entre empreendedores, investidores, pesquisadores e profissionais ligados à inteligência artificial e às criptomoedas. Segundo a organização, aproximadamente 2.700 desses membros já manifestaram interesse em se mudar para o Uruguai, o que representaria uma injeção de mais de US$ 1 bilhão em investimentos ao longo dos próximos três anos.

O anúncio foi feito em 22 de setembro de 2026 e confirmado pelo fundador da Praxis em entrevista ao jornal americano The New York Times. “A turnê mundial terminou: escolhemos o Uruguai. É a coisa mais incrível do mundo”, declarou Dryden Brown na ocasião. O executivo afirmou que pretende se mudar para o país já em dezembro, enquanto os primeiros residentes da comunidade devem chegar a partir de meados de 2027, ocupando inicialmente os edifícios já em construção no complexo +Colonia.

A escolha do Uruguai ocorreu após cerca de dois anos de buscas por um local adequado. A Praxis avaliou regiões do Mediterrâneo, considerou instalar-se na Groenlândia e chegou a explorar outros destinos antes de optar pelo território uruguaio. Entre os fatores que pesaram na decisão estão a estabilidade política e econômica do país, a facilidade para obtenção de residência por estrangeiros, a localização estratégica às margens do Rio da Prata e a proximidade com centros urbanos como Buenos Aires e Montevidéu. Brown descreveu o Uruguai como tendo uma “vibe de Suíça na América do Sul”, além de destacar a qualidade das ondas para surfe na região.

O projeto será instalado dentro do empreendimento +Colonia, uma cidade inteligente em desenvolvimento na costa leste de Colonia del Sacramento, a cerca de 800 metros do porto que conecta por ferry com Buenos Aires. O complexo abrange 515 hectares e é liderado pelo empresário argentino Eduardo Bastitta, que também atua como consultor do presidente argentino Javier Milei. A área inicial destinada à comunidade Praxis deve ocupar aproximadamente 350 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de 20% da urbanização total prevista para o +Colonia.

A Praxis planeja construir residências de alto padrão, um resort, espaços comerciais e equipamentos culturais integrados ao desenvolvimento existente. O projeto inclui estúdios, galerias, oficinas, restaurantes, casas noturnas, jardins, praças públicas, um calçadão à beira-mar e um clube de praia. Também estão previstos espaços para produção de fotografia, cinema e música, além de programas de bolsas que poderiam trazer artistas, músicos, designers, escritores e fundadores para a comunidade. Imagens conceituais divulgadas pela empresa mostram edifícios minimalistas com grandes aberturas de vidro, áreas paisagísticas e piscinas com vista para a orla.

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A aquisição dos terrenos será feita de forma gradual. Segundo o acordo firmado entre a Praxis e a empresa de Bastitta, a compra de terras dentro do perímetro do +Colonia começaria no primeiro semestre do próximo ano e se estenderia até o final de 2027. O acordo, no entanto, é em grande parte não vinculante, o que significa que a concretização total do projeto depende de contratos, aquisições e construções subsequentes. No momento do anúncio, a venda das terras ainda não havia sido concluída.

A visão de Dryden Brown para o projeto vai além de um simples empreendimento imobiliário. O executivo descreve a iniciativa como um laboratório para uma nova sociedade, na qual pessoas viveriam e trabalhariam juntas experimentando novos modelos econômicos, culturais e de organização social. Segundo ele, a revolução da inteligência artificial transformará fundamentalmente o papel do trabalho humano e criará uma abundância econômica sem precedentes. “A indústria da IA está desenvolvendo tecnologia que pode mudar fundamentalmente o papel do trabalho humano. Estamos construindo um lugar para explorar o que vem a seguir. Como as pessoas encontram propósito neste mundo? Como transformamos uma riqueza extraordinária em prosperidade e uma civilização que vale a pena viver?”, afirmou Brown em comunicado.

A Praxis afirma que sua cidade pioneirará novas abordagens em cultura, coordenação econômica e tecnologia, projetadas para um futuro moldado pela inteligência artificial geral. A empresa compara o papel da revolução da IA no desenvolvimento da cidade ao impacto que a riqueza criada pelo comércio e pela banca teve para fazer de Florença o centro do Renascimento. Brown também declarou que pretende que a arquitetura da cidade seja uma fusão de elementos góticos com futurismo espacial, e que o projeto sirva como palco para uma nova cultura inspirada na glória da Grécia e na grandeza de Roma.

O financiamento da iniciativa vem de um pool de investidores de peso do Vale do Silício. A Praxis conta com o apoio da Apollo Projects, fundo associado a Sam Altman, CEO da OpenAI, e de firmas de capital de risco como a Paradigm. O nome do bilionário Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, também é citado como um dos apoiadores, por meio de um fundo ligado a ele. Até 2023, a Praxis havia captado quase US$ 20 milhões de empresas e fundos de capital de risco, incluindo a Alameda Research, fundada por Sam Bankman-Fried, que posteriormente entrou em colapso com a FTX. No ano seguinte, a empresa anunciou uma linha de crédito de US$ 500 milhões concedida pela companhia de criptomoedas GEM Digital. Entre os membros da comunidade Praxis estariam corporações como OpenAI, Anthropic, Tesla e SpaceX, além de instituições acadêmicas como Harvard, Oxford, Princeton e Stanford.

O projeto também desperta questionamentos e críticas no Uruguai. O edil da Frente Ampla Pedro Leizagoyen, integrante da Comissão de Acompanhamento do +Colonia na Junta Departamental de Colônia, afirmou que, embora o montante do investimento seja significativo, “por trás de todo projeto dessa magnitude sempre há um porém e, é claro, sempre é preciso controlar e discutir”. Leizagoyen acrescentou que teve conhecimento de que o grupo tentou se instalar em alguns países europeus e não foi autorizado. “Esses empresários da inteligência artificial e da criptomoeda são como um gueto muito fechado de gente que pensa que, para o futuro, a sociedade deve ser administrada de outra forma, que eles são como iluminados do que vem por aí”, declarou.

O edil também questionou o fato de a iniciativa não ter sido discutida no âmbito da força política e criticou a visita do presidente Yamandú Orsi ao projeto +Colonia, da qual, segundo ele, os representantes locais não foram informados. “Isso não caiu muito bem. Sempre fomos muito críticos deste projeto, que não foi discutido no nível da força política”, afirmou.

Críticos do movimento de “network states” (estados-rede), corrente ideológica que inspira projetos como o da Praxis, descrevem essas iniciativas como esforços elitistas de magnatas tecnológicos que buscam se separar da sociedade existente. Analistas apontam que projetos desse tipo levantam preocupações sobre concentração de poder, possível erosão de princípios democráticos e criação de enclaves privados para os muito ricos. Há também ceticismo quanto à viabilidade prática da proposta. Relatos publicados na imprensa americana citam ex-funcionários da Praxis que atribuem a Dryden Brown opiniões racistas e uma visão autoritária de governança, acusações que a empresa não comentou publicamente.

A despeito das controvérsias, o governo uruguaio demonstrou apoio à iniciativa. O presidente Yamandú Orsi confirmou que se reuniria com Dryden Brown em Nova York, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, para discutir o projeto. “Vamos nos reunir amanhã com o CEO. Vimos trabalhando há alguns anos, além dos papéis que cada um de nós tem que cumprir, com a empresa e com as pessoas que estão trabalhando no +Colonia”, declarou Orsi. O mandatário afirmou que “o Uruguai gerou um novo polo de atração” e que Colônia deverá se consolidar como um terceiro polo de desenvolvimento no país, ao lado da área metropolitana de Montevidéu.

Dryden Brown assegurou que a Praxis operará dentro do sistema jurídico uruguaio e que, por enquanto, não é requisito ter uma governança independente. “Ter um lugar de verdade é, tipo, muito, muito legal”, disse o executivo ao The New York Times. Questionado sobre como espera que sua cidade seja tratada pela Justiça uruguaia, Brown respondeu que a comunidade pretende operar dentro das leis existentes no país.

A proposta da Praxis se insere em um movimento mais amplo de criação de “estados em rede” ou “cidades-estado” tecnológicas, que ganhou força nos últimos anos com projetos como o Próspera, em Honduras, financiado por investidores ligados a Peter Thiel. A mudança recente de Thiel para a região do Rio da Prata, onde adquiriu uma mansão em Buenos Aires e está construindo outra propriedade no Uruguai, sinaliza um crescente interesse do capital tecnológico pelo extremo sul da América do Sul como refúgio para experimentos sociais e econômicos.

O impulso por trás dessas iniciativas está, em grande parte, ligado à percepção de que a inteligência artificial generativa e a inteligência artificial geral transformarão radicalmente o mercado de trabalho e a organização social. Em uma publicação em sua conta na rede social X, Dryden Brown escreveu: “Vivemos o momento de mudança tecnológica mais profundo da história da humanidade, mas ninguém está plenamente consciente disso porque, na prática, não há visionários em nossa sociedade que tenham proposto como poderia ser a vida após a chegada da inteligência artificial geral. Para dizer o óbvio, a inteligência artificial vai acabar com todos os empregos e isso acontecerá muito em breve. Portanto, devemos começar a pensar no futuro desde já.”

A expectativa da Praxis é que os primeiros residentes cheguem ao +Colonia em meados de 2027, ocupando os edifícios já em construção no empreendimento enquanto o bairro dedicado à comunidade toma forma. A empresa afirma que pretende mobilizar US$ 1 bilhão em investimentos ao longo dos próximos três anos. O sucesso do projeto, no entanto, dependerá da concretização das compras de terra, da aprovação de projetos arquitetônicos e da efetiva chegada dos residentes que manifestaram interesse em se mudar para o Uruguai.

The New York Times, New York Post, El Observador, El País, La Nación, GZH, Times of India, Forbes Uruguay, La Diária, WION News, Teledoce, Wired em Espanhol, La República, TVR Info e Subrayado.

Tags:

+Coloniacidade bilionáriaDryden Browninteligência artificialPeter ThielPraxisSam AltmanUruguai
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