Lula coleciona papas: feito inédito de quatro pontífices vira meme na web
Presidente já foi recebido por João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV; sequência inédita divertiu internautas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acumula um feito que nenhum outro chefe de Estado brasileiro havia alcançado: ser recebido por quatro pontífices diferentes ao longo de uma única trajetória política. A sequência de encontros com João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV atravessou décadas, sobreviveu a diferentes governos e transformou o presidente em uma figura familiar nos corredores do Vaticano, alimentando uma curiosidade que ganhou as redes sociais e rendeu comentários bem-humorados sobre a longevidade de sua carreira.
A linha do tempo desses encontros começa ainda antes da Presidência, em um período em que Lula era apenas um líder sindical perseguido pelo regime militar. O primeiro contato com João Paulo II ocorreu em 1980, durante a primeira visita do pontífice ao Brasil. Na época, o país vivia os últimos anos da ditadura, e o papa percorreu treze cidades brasileiras, incluindo São Paulo. Lula, que estava cassado do sindicato, conseguiu ser recebido pelo pontífice em uma audiência que ele próprio classificou, anos mais tarde, como um gesto incomum de uma autoridade religiosa em relação a alguém que sofria perseguição política. O encontro no estádio do Morumbi, após uma missa com trabalhadores, marcou o início de uma relação que se estenderia por décadas e que Lula relembrou publicamente quando da morte de João Paulo II, em 2005, destacando a coragem do papa em receber um sindicalista cassado em plena ditadura. Um segundo encontro com João Paulo II ocorreu em 1989, já no Vaticano, quando Lula era deputado federal e candidato à Presidência da República.
A relação com o Vaticano se aprofundou durante o primeiro mandato de Lula. Em maio de 2007, o então presidente já havia se encontrado com Bento XVI no Brasil, durante a visita do pontífice a São Paulo para a abertura da Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe, em Aparecida. O encontro mais formal, no entanto, aconteceu em 13 de novembro de 2008, quando Lula foi recebido em audiência privada no Vaticano. A visita não foi apenas protocolar: dela resultou a assinatura do Acordo Brasil-Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, um instrumento que regulamentou a presença da Igreja no país e que havia sido proposto pela Santa Sé dois anos antes. A agenda do encontro incluiu temas como combate à fome e à pobreza, preservação da paz, migração e refugiados, além de questões ambientais e de energia renovável. A duração da conversa reservada, de cerca de vinte e quatro minutos, foi registrada pela imprensa da época, que também destacou o pedido de Lula por um conselho do papa diante da crise econômica global que se anunciava.
O terceiro pontífice na trajetória de Lula foi Francisco, com quem o presidente manteve uma relação de proximidade que ultrapassou os protocolos diplomáticos. Os dois já haviam trocado cartas quando Lula estava preso, e o papa chegou a enviar uma mensagem pessoal ao então ex-presidente, um gesto que consolidou uma afinidade ideológica em torno de pautas sociais. O encontro presencial no Vaticano ocorreu em 21 de junho de 2023 e durou quarenta e cinco minutos. A conversa abordou a busca pela paz no mundo, a preservação ambiental, a redução da fome e da pobreza e a situação dos povos indígenas. Lula convidou Francisco a retornar ao Brasil para participar do Círio de Nazaré, em Belém, e presenteou o pontífice com uma gravura da Sagrada Família do artista pernambucano J. Borges, enquanto a primeira-dama, Janja da Silva, entregou uma estátua de Nossa Senhora de Nazaré. Francisco, por sua vez, retribuiu com a Mensagem para a Paz daquele ano, o Documento sobre a Fraternidade Humana e um baixo-relevo de bronze com a inscrição “A paz é uma flor frágil”. O encontro foi amplamente divulgado e reforçou a imagem de Lula como um interlocutor privilegiado do pontífice argentino.
O ciclo se completou com Leão XIV, o mais recente pontífice, eleito em maio de 2025. A audiência ocorreu em 13 de outubro de 2025, no Vaticano, e teve como um dos principais objetivos o convite para que o papa participasse da COP30, conferência do clima realizada em Belém. Lula destacou a importância histórica de sediar o evento no coração da Amazônia, mas o pontífice, alegando compromissos do Jubileu, decline informou que enviaria uma representação do Vaticano ao encontro. Ainda assim, o encontro serviu para reafirmar a convergência entre o governo brasileiro e a Santa Sé em temas como justiça social e preservação ambiental. Antes mesmo da audiência, a imprensa já registrava que se tratava da quarta vez que Lula se encontrava com um papa desde o início de sua trajetória política, um marco que nenhum outro presidente brasileiro havia atingido.
A repercussão nas redes sociais foi imediata e tomou conta das plataformas digitais. Internautas compartilharam montagens com as fotos dos quatro encontros, criaram memes e destacaram a raridade da situação. O tom predominante foi o bom humor, com brincadeiras sobre a frequência com que os papas são substituídos. Uma das frases que mais viralizou resumiu o espanto geral: “E olha que papa não é um negócio que troca toda semana, não!”. A tirada capturou a essência da curiosidade: em um mundo onde as lideranças políticas mudam com frequência, a estabilidade do papado contrasta com a volatilidade dos governos, e Lula, de alguma forma, atravessou quatro pontificados. Comentaristas também compararam a trajetória do presidente à de outros líderes políticos, destacando que a sequência de encontros não se limita a uma coincidência de calendário, mas reflete a inserção internacional do Brasil e a longevidade de uma carreira política que sobreviveu a diferentes eras da Igreja Católica.
Cada pontífice representou uma fase distinta da Igreja e um contexto geopolítico específico. João Paulo II simbolizou o fim da Guerra Fria e a luta pelos direitos humanos; Bento XVI trouxe a continuidade doutrinária e o diálogo com o mundo secular; Francisco inaugurou uma era de ênfase na pobreza, na ecologia e na misericórdia; e Leão XIV chega em um momento de novos desafios globais, incluindo a emergência climática e as desigualdades sociais. Lula, de certa forma, testemunhou e participou dessas transições, tornando-se uma figura familiar nos corredores do Vaticano e um interlocutor recorrente da Santa Sé em pautas que vão da fome à paz mundial. A curiosidade que chamou a atenção dos internautas não é vazia: ela revela uma combinação de longevidade política, inserção internacional e uma dose de timing que poucos líderes conseguem reunir.
Fontes consultadas: Agência Brasil, EBC, Governo do Brasil, Vaticano News, EFE, ANSA, G1, CBN Recife, Diário de Pernambuco, Tribuna do Norte, Jornal O Sul, Correio do Povo, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, BBC News Brasil, AP News, entre outros veículos que noticiaram os encontros e a repercussão.