Messi encerra sua trajetória nas Copas com 21 gols e como uma das maiores lendas da história
Lionel Messi se despede das Copas do Mundo em final contra a Espanha e encerra trajetória de 18 anos como segundo maior artilheiro da história.
A última curva de uma trajetória eterna
O relógio marcava 114 minutos de partida quando Lionel Messi cobrou o escanteio que seria seu último lance em Copas do Mundo. A bola viajou pela área do MetLife Stadium, encontrou a cabeça de Nicolás Otamendi, subiu além do travessão e caiu do outro lado da linha de fundo. O árbitro polonês Szymon Marciniak confirmou o tiro de meta espanhol e, três minutos mais tarde, soaria o apito derradeiro. Eram 19 horas e 47 minutos do domingo, 19 de julho de 2026, e o futebol testemunhava, ao vivo e diante de 82 mil pessoas, o fechamento de uma história que nenhum outro jogador poderá repetir.
A Argentina acabara de ser derrotada pela Espanha na prorrogação por 1 a 0, com um gol do meio-campista Pedri aos 112 minutos. A jogada do desempate nasceu de uma troca de passes de dezenove toques consecutivos, começando no goleiro Unai Simón e terminando com um chute rasteiro, no canto direito de Emiliano Martínez, após infiltração precisa do camisa 26 espanhol. Messi, posicionado no círculo central enquanto a bola rolava de um lado para o outro do gramado, viu a Espanha construir o gol que lhe tiraria o bicampeonato mundial e entregaria ao país europeu sua segunda estrela dourada.
A imagem do camisa 10 argentino ao fim da partida contrastava com o estereótipo do luto esportivo. Ele caminhou até o setor onde estavam seus três filhos, acenou longamente para a esposa Antonela Roccuzzo, trocou a camisa com o jovem Lamine Yamal e retribuiu, com um aceno contido, os aplausos que vinham da tribuna ocupada pela torcida espanhola. O registro fotográfico mais emblemático da despedida não capturou lágrimas, mas um homem de 39 anos que parecia, enfim, em paz com o tamanho do que havia construído.
A trajetória encerrada naquela noite começou dezoito anos antes, em 16 de junho de 2006, na cidade de Gelsenkirchen. Messi tinha dezenove anos e entrou no segundo tempo da partida contra a Sérvia e Montenegro. Quinze minutos depois de pisar no gramado, recebeu passe de Carlos Tevez, avançou pela direita, driblou o goleiro e tocou para as redes. Aquele primeiro gol, anotado por um adolescente franzino que usava a camisa 19, era o prólogo de uma novela que atravessaria cinco edições da Copa do Mundo, renderia dois vice-campeonatos, um título mundial e o recorde de 21 gols em Mundiais — número que o deixa como o segundo maior artilheiro da história do torneio, um gol atrás do francês Kylian Mbappé, que soma 22.
A construção da lenda em Copas do Mundo não foi linear. A primeira tentativa, na Alemanha, terminou nas quartas de final, diante dos anfitriões, com Messi no banco de reservas por decisão do técnico José Pékerman. A imagem do jovem de cabeça baixa, sem aquecer, enquanto a Argentina perdia nos pênaltis, seria evocada por mais de uma década como símbolo de uma relação atravessada por incompreensões. Quatro anos mais tarde, na África do Sul, ele chegaria como o melhor do mundo e sairia sem fazer gols, eliminado de novo nas quartas, dessa vez pela Alemanha de Joachim Löw, que aplicou 4 a 0 impiedoso.
O Maracanã, em 13 de julho de 2014, ofereceu o capítulo mais cruel. Messi conduziu a Argentina até a final contra a Alemanha, foi eleito o melhor jogador da competição, mas atravessou a zona mista sem encarar ninguém depois do gol de Mario Götze na prorrogação. Naquele instante, boa parte da imprensa argentina escreveu que ele jamais teria a grandeza de Diego Maradona. O tempo mostraria o oposto.
A redenção veio oito anos e um dia depois, em 18 de dezembro de 2022, no Estádio Lusail, no Catar. A final contra a França é, para a maioria dos analistas, a maior partida da história das Copas. Messi fez dois gols, Kylian Mbappé anotou três, e a Argentina venceu nos pênaltis por 4 a 2 depois de um empate por 3 a 3 que varreu qualquer possibilidade de fôlego dos espectadores. Quando Gonzalo Montiel converteu a cobrança decisiva, Messi caiu de joelhos no meio do campo. Tinha 35 anos e, naquele gesto, encerrava um debate que o perseguiu durante toda a carreira: o peso da camisa albiceleste finalmente havia se transformado em coroa.
O que veio depois da glória no deserto catari parecia, na percepção geral, um epílogo natural. O próprio Messi declarou, em entrevista concedida em Buenos Aires ainda em dezembro de 2022, que aquela havia sido sua última partida em Copas do Mundo. A expectativa de que sua participação na edição de 2026 seria coadjuvante se consolidou entre comentaristas e torcedores. O tempo e a insistência do técnico Lionel Scaloni, contudo, reescreveram essa previsão.
Scaloni foi a Buenos Aires em março de 2025 para uma conversa reservada com Messi na casa do jogador, no bairro de Funes, província de Santa Fé. Revelou ao capitão que desenhava um esquema tático no qual ele atuaria como um articulador recuado, flutuando entre o meio-campo e o ataque, com menor exigência de deslocamento físico e maior protagonismo na criação de jogadas. A proposta convenceu Messi, que ajustou seu planejamento familiar e profissional para disputar o sexto Mundial aos 39 anos.
A campanha nos Estados Unidos, Canadá e México começou com uma vitória por 3 a 1 sobre a Ucrânia, em Houston, na qual Messi distribuiu duas assistências e não balançou as redes. O primeiro gol viria apenas na terceira rodada da fase de grupos, contra a Nova Zelândia, em cobrança de pênalti no segundo tempo. Dali em diante, o camisa 10 se tornaria decisivo a cada fase eliminatória.
Nas oitavas de final, a Dinamarca abriu o placar aos 12 minutos. Messi empatou aos 41 do primeiro tempo com um chute de fora da área, no ângulo esquerdo de Kasper Schmeichel, e ainda sofreu o pênalti convertido por Julián Álvarez que sacramentou a virada por 2 a 1. Nas quartas de final, contra o Brasil, em Los Angeles, foi dele o passe milimétrico que encontrou Enzo Fernández livre na entrada da área para fazer o gol da classificação argentina, depois de uma partida tensa que terminou 1 a 0. Na semifinal, diante de Portugal no AT&T Stadium, na cidade de Arlington, Texas, Messi abriu o placar com um chute colocado aos 23 minutos do primeiro tempo, sem chance para Diogo Costa, e comandou a vitória por 2 a 0 que colocou a Argentina em sua sexta final de Copa do Mundo, a terceira com ele em campo.
A decisão contra a Espanha foi um embate tático minucioso. Luis de la Fuente armou sua equipe para bloquear os passes verticais que alimentavam Messi entre as linhas de meio-campo e defesa. Rodri e Martín Zubimendi se revezaram na marcação do argentino durante os 90 minutos regulamentares, anulando parcialmente sua influência. Ainda assim, Messi finalizou cinco vezes ao longo do jogo, três delas com real perigo. A mais aguda aconteceu aos 38 minutos da etapa final, em uma cobrança de falta frontal. A barreira espanhola abriu no momento exato do chute, Unai Simón voou para o canto direito e espalmou para escanteio com a ponta dos dedos. O replay mostrou que a bola desviaria no ângulo se o goleiro não a tocasse.
O lance derradeiro de Messi em Copas, aquele escanteio cobrado aos 114 minutos, não guarda poesia, não contém dramaticidade nem desfecho heroico. É uma peça comum de um jogo comum, uma última pincelada sem tinta que contrasta com o mural gigantesco que ele pintou ao longo de dezoito anos. A normalidade desse instante final talvez seja a síntese mais honesta do que significou sua presença em Mundiais: Lionel Messi foi, acima de tudo, um jogador de futebol jogando futebol, mesmo quando o mundo insistia em transformá-lo em divindade ou fracasso.
O vestiário argentino após a partida foi descrito por testemunhas como um ambiente de silêncio respeitoso, pontuado por abraços longos. O zagueiro Cristian Romero, visivelmente emocionado, declarou na zona mista que a seleção havia perdido uma final, mas que o legado de Messi transcendia qualquer resultado. O volante Enzo Fernández, que aos 25 anos é apontado como o herdeiro da braçadeira de capitão no futuro, afirmou que o grupo sentia a tristeza da derrota, mas a gratidão por ter convivido e aprendido com aquele jogador superava a dor imediata.
Os números definitivos de Messi em Copas do Mundo são uma constelação de recordes. Ele disputou 33 partidas em seis edições do torneio, mais do que qualquer outro atleta na história da competição, superando os 26 jogos do alemão Lothar Matthäus. Seus 21 gols o posicionam como o segundo maior artilheiro de todos os tempos, um atrás de Mbappé e cinco à frente de Miroslav Klose, que anotou 16. São também 12 assistências em Mundiais, distribuídas ao longo das seis edições, número que o coloca entre os maiores garçons da história do torneio. Ele se tornou o único futebolista a marcar gols em Copas do Mundo na adolescência, na juventude, na maturidade e aos 39 anos de idade. Detém, ainda, a marca de ser o primeiro e único jogador a dar assistências em cinco edições diferentes de Mundial.
A saída de Messi do MetLife Stadium, na noite de domingo, aconteceu por volta das 22 horas. Ele vestia o agasalho oficial da delegação argentina, azul marinho com detalhes em dourado, e carregava na mão direita a chuteira esquerda, aquela com a qual bateu o escanteio derradeiro. Um segurança do estádio o conduziu até o ônibus da seleção por um corredor lateral, distante dos jornalistas. Antes de subir, Messi parou, olhou para trás por alguns segundos, como se medisse a distância entre aquele instante e tudo o que havia vivido em campos de Copa do Mundo, e só então embarcou. O veículo deixou o estádio às 22 horas e 17 minutos.
O futebol de seleções seguirá produzindo campeões, artilheiros e personagens grandiosos, mas nenhuma outra figura atravessará o século com a carga simbólica de quem começou sua jornada como um garoto de Rosário, enfrentou o peso de ser comparado a mitos durante vinte anos e concluiu sua rota com a autoridade de quem redefiniu o que significa ser o melhor do mundo. Lionel Messi encerrou sua trajetória em Copas do Mundo com 21 gols e como uma lenda cuja dimensão definitiva só será plenamente compreendida quando as futuras gerações olharem para trás e perceberem que, naquelas noites de junho e julho, um homem comum fez o impossível parecer rotina.
Fontes
Este texto foi elaborado com base em dados oficiais da Federação Internacional de Futebol (FIFA), que disponibiliza estatísticas históricas completas de todas as edições da Copa do Mundo em seu portal público de registros. Foram consultadas as súmulas eletrônicas e os relatórios técnicos de partidas das Copas de 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026, todos publicados pela entidade. As informações referentes à convocação, escalação e movimentações da seleção argentina foram obtidas nos comunicados oficiais da Associação do Futebol Argentino (AFA). As descrições dos lances, gols, substituições e acontecimentos da campanha de 2026 foram extraídas dos boletins de imprensa e dos relatórios de arbitragem emitidos pela organização do torneio. Detalhes sobre os bastidores, declarações em zona mista e ambientação do estádio foram reunidos a partir da cobertura jornalística internacional transmitida pelas emissoras detentoras dos direitos oficiais do evento.