Morre Netinho, um dos grandes nomes do axé, aos 60 anos
Cantor baiano lutava contra linfoma não Hodgkin tipo B desde 2025 e não resistiu às complicações da doença em Salvador.
O cantor Netinho, um dos nomes mais importantes da axé music, morreu na manhã desta terça-feira, 13 de outubro, aos 60 anos, em Salvador. A informação foi confirmada pela assessoria do artista por meio de nota publicada em suas redes sociais. Ele estava internado no Hospital Aliança Star, na capital baiana, desde o fim de setembro, quando precisou ser hospitalizado novamente após a recidiva do câncer que enfrentava desde o ano anterior.
Segundo o comunicado oficial divulgado por sua equipe, Netinho lutava contra um linfoma não Hodgkin do tipo B, um câncer que atinge o sistema linfático. O quadro evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos, levando o cantor a não resistir às complicações da doença. A nota ainda informou que a partida foi serena e que, durante o tratamento, o próprio artista costumava tranquilizar as pessoas ao seu redor com uma mensagem que se tornou sua despedida: “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”.
A trajetória de Netinho começou em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, onde nasceu em 12 de julho de 1966, com o nome de Ernesto de Souza Andrade Júnior. Aos 10 anos, mudou-se com a família para Salvador. Na capital baiana, entrou em contato com a música e começou cedo a construir sua carreira. Aos 14 anos, ganhou de presente da mãe o primeiro violão e, aos 16, ingressou no curso de Engenharia Civil na Universidade Católica do Salvador. Naquela época, conciliava os estudos com pequenos shows em escolas até começar a se apresentar profissionalmente em bares da cidade, com um repertório de MPB e bossa nova.
A aproximação com o carnaval e os trios elétricos mudaria definitivamente seus planos. Em 1988, Netinho estreou como vocalista da Banda Beijo durante o Carnaval de Salvador. No mesmo ano, estourou em todo o país com o sucesso “Beijo na Boca”, música que o levou a se tornar um dos primeiros artistas de axé a se apresentar em programas de televisão de alcance nacional. Em seguida, emplacou outros hits que marcaram a década de 1990, como “Estrela Primeira”, “Barracos” e “A Vida é Festa”.
Com a Banda Beijo em ascensão, Netinho protagonizou um feito histórico durante a Copa do Mundo de 1990, na Itália, ao se tornar o primeiro brasileiro a levar um trio elétrico para o exterior. O veículo viajou de navio e demorou cerca de dois meses para chegar ao destino. Dois anos depois, em 1992, ele fez história novamente ao desfilar com um trio elétrico na Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Em 1993, Netinho iniciou sua carreira solo com o álbum “Um Beijo pra Você”. O disco ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas e transformou “Menina” em um dos grandes sucessos daquele período. Mas foi em 1996, com o lançamento de “Milla”, que veio o seu maior hit. A canção, composta por Manno Góes, se tornou um dos símbolos máximos do axé music, dominou as rádios de todo o país e foi regravada em mais de oito idiomas, incluindo o russo. No ano seguinte, com o CD “Me Leva”, veio outro grande sucesso, “Fim de Semana”.
Além da carreira artística, Netinho também investiu no mercado fonográfico. Abriu um estúdio de gravação e mixagem no Rio de Janeiro, por onde passaram nomes como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Laura Pausini e Lenny Kravitz. Também criou um selo voltado ao lançamento de novos artistas baianos, contribuindo para a renovação da cena musical do estado. Entre 1997 e 2003, foi casado com a jornalista Mariana Trindade, com quem teve uma filha, Bruna Trindade.
A saúde de Netinho, no entanto, já havia passado por momentos críticos antes do diagnóstico do câncer. A partir de 2013, o cantor enfrentou longas internações devido a complicações causadas pelo uso de anabolizantes, incluindo episódios de acidente vascular cerebral. Naquele ano, sofreu três AVCs que o afastaram dos palcos por um período significativo, chegando a ficar quatro anos sem se apresentar no Carnaval de Salvador. Ainda assim, manteve-se ativo na música e retomou gradualmente a rotina de shows.
A luta contra o linfoma não Hodgkin começou em março de 2025. Na época, Netinho buscou ajuda médica após sentir fortes dores nas pernas e nas costas, o que o levou a ser internado no Hospital Aliança Star. Ele precisou interromper a agenda de shows do Carnaval e iniciou o tratamento contra o câncer, que incluiu sessões de quimioterapia e uma internação de 25 dias. Ao longo dos meses seguintes, compartilhou com os fãs detalhes das etapas do tratamento em suas redes sociais. Apesar de uma aparente melhora que o levou a retomar o trabalho aos poucos, o tumor retornou de forma mais agressiva no início de 2026.
Em maio de 2026, o próprio cantor anunciou que a doença havia voltado e que precisaria retomar as sessões de quimioterapia. Por se tratar de um diagnóstico considerado raro, o tratamento seria realizado em laboratório, sem necessidade de internação contínua, e previa um transplante de medula autólogo, quando a própria pessoa é a doadora. Netinho também se afastou temporariamente das redes sociais para concentrar todas as suas energias na recuperação e na busca pela cura.
A morte do cantor gerou comoção imediata nas redes sociais. Artistas e fãs prestaram homenagens a Netinho, destacando a importância de suas canções e seu legado para a axé music. A cantora Claudia Leitte publicou uma mensagem emocionada: “Descanse em paz, meu irmão!”. O humorista Carioca comentou: “Meus sentimentos.. Grande artista! Que Deus o guarde em um ótimo lugar”. O perfil oficial da Banda Beijo, grupo onde Netinho iniciou sua carreira, também se manifestou: “Eterno, Netinho! Por tantos anos, sua voz fez parte da nossa história e marcou gerações. A Banda Beijo agradece por toda a alegria, pelo talento e por ter feito parte dessa trajetória tão especial. Seu legado viverá para sempre em nossas canções e em nossos corações”. A cantora Sarajane também lamentou a perda: “Deus abençoe o seu regresso, você foi um grande guerreiro, a música está triste com sua partida no planeta, mas sua caminhada não termina”.
Seguindo um desejo expresso do próprio Netinho em vida, o velório e a cremação serão realizados de forma reservada, em uma cerimônia restrita a familiares e amigos próximos. A assessoria do artista pediu respeito à privacidade da família e dos amigos neste momento de profunda dor e despedida, e agradeceu a todas as manifestações de amor, carinho e solidariedade recebidas. O cantor deixa uma filha, Bruna Trindade, fruto de seu casamento com a jornalista Mariana Trindade.
Netinho deixa um legado que atravessa gerações. Sua voz, seus sucessos e sua energia nos trios elétricos ajudaram a popularizar o axé music em todo o Brasil e a levar o ritmo baiano para o exterior. Canções como “Milla”, “Beijo na Boca” e “Fim de Semana” continuam sendo presença marcante nos carnavais e nas festas populares, e sua contribuição para a música brasileira é indiscutível. A axé music perde um de seus principais nomes, mas sua obra permanece viva na memória e no coração de milhões de fãs.
Fontes consultadas
Correio 24 Horas, Bahia Notícias, O Globo, G1, Contigo!, iBahia, Rádio Itatiaia, Revista Quem, O Tempo, Tribuna do Norte, Portal O Dia, Metrópoles, Terra, Carta Capital, Extra, UOL, GP1, Correio Braziliense, Aratu On, Informe Baiano, Estrelando, Diário do Pará, SBT, Band, Portal do Holanda, TNH1, Portal Pop Mais, Rádio Nacional FM e O Povo.