O Amor Que Recusou Partir: A Promessa de Dana e Christopher Reeve
Após o acidente que deixou Christopher Reeve tetraplégico, Dana recusou o divórcio e se tornou sua cuidadora até o fim de ambos
O som dos monitores cardíacos preenchia o quarto 407 do Hospital Universitário de Virgínia quando Christopher Reeve pronunciou as palavras que Dana Morosini Reeve se recusaria a aceitar pelo resto da vida. Era o início de junho de 1995, menos de duas semanas após o galope que terminou com o ator estatelado no chão da competição hípica de Culpeper. Os médicos já haviam confirmado o diagnóstico que soava como sentença: fratura das vértebras C1 e C2, lesão medular completa, tetraplegia irreversível. Christopher, lúcido e respirando por aparelhos, sugeriu à esposa que partisse. Sugeriu que ela não precisava se acorrentar a um corpo que não respondia mais abaixo do pescoço. Pediu que ela reconstruísse a vida longe dali, longe dele, longe dos tubos, das traqueostomias, das infecções pulmonares que se tornariam rotina pelos nove anos seguintes.
Dana sentou-se na beira da cama hospitalar, segurou o que podia do marido e declarou uma frase que jamais foi encontrada em roteiro algum, porque roteiro nenhum daria conta da verdade que ela carregava: “Você ainda é você, e eu te amo”. Não era metáfora. Não era consolo de beira de leito. Era uma decisão irrevogável que reorganizaria completamente a arquitetura emocional, física e financeira daquela família. A partir daquele instante, Dana Reeve deixou de ser apenas a esposa de uma estrela de cinema e se transformou na engenheira-chefe de uma existência que precisava ser reconstruída sobre os escombros de um salto de cavalo mal calculado.
A renúncia ao divórcio oferecido por Christopher não foi um ato isolado de heroísmo romântico. Foi a primeira de uma sequência interminável de renúncias silenciosas que se repetiriam diariamente. Dana abandonou a carreira artística que construía com solidez. Deixou para trás os palcos da Broadway, onde havia brilhado em montagens como “The Devil’s Disciple”, e os sets de televisão onde participava de séries de prestígio. Trocou os holofotes pela penumbra dos quartos adaptados, onde a luz precisava ser controlada para não irritar os olhos hipersensíveis do marido. Trocou os aplausos pelo chiado rítmico do ventilador mecânico, que se tornou a trilha sonora permanente da residência do casal em Bedford, no estado de Nova York.
A rotina de cuidados que Dana assumiu como cuidadora principal exigia um conhecimento técnico que ela adquiriu na urgência, sem tempo para estágios ou formações graduais. Ela precisou aprender a aspirar secreções traqueais para evitar pneumonias aspirativas, uma das principais causas de morte entre tetraplégicos com lesão cervical alta. Precisou dominar o funcionamento do marca-passo diafragmático que, anos depois, permitiria a Christopher respirar sem depender integralmente do respirador artificial por curtos períodos. Precisou entender a farmacologia complexa que mantinha o marido estável: anticoagulantes para prevenir tromboses, relaxantes musculares para controlar espasmos involuntários, antibióticos profiláticos, medicamentos para regular a pressão arterial que despencava sem aviso por conta da disreflexia autonômica, condição típica de lesados medulares cujos corpos perderam a capacidade de autorregular funções vitais básicas.
Dana dormia em intervalos fracionados. Os alarmes dos equipamentos soavam durante as madrugadas e ela se levantava antes mesmo que as enfermeiras de plantão alcançassem o quarto. Conhecia cada som, cada variação de tom, cada silêncio suspeito das máquinas. Sabia distinguir um espasmo muscular benigno de uma crise de disreflexia que poderia desencadear um acidente vascular cerebral. Esse conhecimento empírico, construído na repetição exaustiva de noites em claro, transformou-a em uma especialista informal em cuidados intensivos domiciliares, respeitada pelos médicos que acompanhavam o caso e consultada por outras famílias que enfrentavam situações semelhantes.
A fundação que o casal criou em 1999 nasceu dessa intimidade forçada com o sofrimento alheio. Durante as primeiras viagens de Christopher para palestras e audiências públicas, o ator e a esposa entraram em contato com centenas de pessoas que viviam com lesões medulares e não tinham acesso aos recursos que a fama e o patrimônio do casal proporcionavam. Encontraram famílias falidas por contas hospitalares, cadeirantes presos dentro de casa por falta de rampas, paraplégicos que desenvolviam escaras profundas por não conseguirem comprar colchões pneumáticos adequados. A Christopher Reeve Foundation, rebatizada posteriormente como Christopher and Dana Reeve Foundation, foi estruturada para atacar essas duas frentes simultâneas: o financiamento de pesquisas científicas que buscassem a cura da paralisia e a assistência direta a pacientes que precisavam de equipamentos, adaptações residenciais e suporte psicológico.
Christopher tornou-se a face pública da causa. Dana tornou-se a estrutura invisível que permitia que aquela face aparecesse. Era ela quem negociava com as companhias aéreas o transporte do equipamento médico pesado. Era ela quem mapeava hospitais próximos a cada local de evento, antecipando emergências. Era ela quem posicionava o microfone no ângulo exato para que o sopro de Christopher, que acionava o computador de fala, fosse captado sem ruídos. O mundo via o Super-Homem na cadeira de rodas testemunhando no Senado americano em defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias. O mundo não via a mulher que havia passado a noite anterior inteira monitorando uma oscilação na saturação de oxigênio do marido e que, mesmo assim, estava sentada na primeira fileira, com os olhos fixos nos monitores portáteis escondidos dentro da bolsa.
O falecimento de Christopher Reeve, em 10 de outubro de 2004, decorreu de uma infecção bacteriana que evoluiu para choque séptico e insuficiência cardíaca. A causa mortis oficial, registrada no Northern Westchester Hospital, apontou parada cardiorrespiratória consequente a septicemia originada em uma úlcera de pressão infectada. O corpo que resistira nove anos à tetraplegia sucumbiu a uma complicação que Dana havia combatido diariamente com curativos especiais, mudanças de posição a cada duas horas e vigilância dermatológica constante. A ironia era devastadora e silenciosa. A morte entrou pela porta que ela passara quase uma década tentando manter fechada.
Viúva aos 43 anos, Dana Reeve assumiu a presidência da fundação com o filho do casal, William Elliot Reeve, então com 12 anos, e um luto que ela decidiu processar em movimento. Gravou vídeos institucionais, concedeu entrevistas sobre a continuidade do legado, discursou em galas beneficentes e ampliou o alcance dos programas de bolsas de pesquisa. A postura pública era de serenidade absoluta. Os cabelos loiros impecavelmente penteados, a voz calma de mezzo-soprano treinada nos palcos, as palavras escolhidas com a precisão de quem sabia que cada sílaba seria escrutinada. Nos bastidores, porém, ela lidava com um diagnóstico que manteve em sigilo até agosto de 2005, quando anunciou que estava em tratamento contra um adenocarcinoma de pulmão.
A revelação carregava um detalhe que a opinião pública demorou a processar: Dana Reeve jamais fumou um cigarro na vida. Seu câncer era do tipo não pequenas células, com mutação no gene EGFR, uma alteração genética que atinge desproporcionalmente mulheres jovens, não fumantes e sem histórico familiar. O tumor foi descoberto em estágio avançado, já com metástases, durante exames de rotina que ela realizava justamente por conta do histórico de saúde do marido e da atenção redobrada que desenvolvera em relação a sintomas respiratórios. A doença que mataria Dana era, em sua origem molecular, tão aleatória e imprevisível quanto a queda de cavalo que vitimara Christopher.
O tratamento foi conduzido no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York. Quimioterapia agressiva, radioterapia direcionada, medicamentos de última geração. Dana continuou trabalhando enquanto o corpo cedia. Comparecia a reuniões da fundação usando lenços para cobrir a queda de cabelo. Respondia e-mails institucionais do quarto do hospital. A última aparição pública significativa ocorreu em janeiro de 2006, durante um evento beneficente em homenagem a Christopher. Ela subiu ao palco visivelmente enfraquecida, com o oxigênio suplementar discretamente posicionado atrás do púlpito, e cantou uma canção que havia prometido ao marido anos antes. A plateia, formada por pesquisadores, filantropos e amigos próximos, testemunhou o que seria seu canto de despedida.
Dana Reeve morreu às 19h42 do dia 6 de março de 2006. A causa mortis registrada foi insuficiência respiratória aguda decorrente de progressão metastática do adenocarcinoma pulmonar. O intervalo entre a morte de Christopher e a morte de Dana foi de exatos 17 meses. As duas mortes, separadas por menos de um ano e meio, deixaram William Reeve órfão aos 13 anos, sob a tutela de amigos próximos do casal designados em testamento, entre eles o ator Robin Williams e sua então esposa Marsha, vizinhos e confidentes dos Reeve desde os tempos anteriores ao acidente.
A dimensão trágica dessa cronologia não reside apenas na sucessão de perdas. Reside no fato de que Dana Reeve passou os últimos meses de vida defendendo exatamente a causa que consumira seus anos anteriores: a pesquisa com células-tronco embrionárias, que Christopher havia abraçado como bandeira política e científica, e que ela continuou a defender publicamente mesmo durante o próprio tratamento oncológico. Reside no fato de que a mulher que dedicou quase uma década a preservar a capacidade respiratória do marido morreu exatamente por não conseguir mais respirar. Reside no fato de que a fundação que ambos construíram segue ativa, sediada em Short Hills, Nova Jersey, financiando pesquisas que talvez um dia tornem obsoleta a rotina de cuidados que Dana executou com precisão quase sobre-humana.
O legado do casal está materializado em números que a própria fundação atualiza anualmente: mais de 140 milhões de dólares investidos em pesquisa desde a criação da entidade, mais de 40 milhões em subsídios diretos a pacientes e cuidadores, centros de reabilitação que levam o nome Reeve espalhados por diversos estados americanos. Mas o legado mais profundo é imaterial e está contido na frase que Dana pronunciou naquele quarto de hospital em 1995. Ao recusar o divórcio oferecido, ela não estava apenas reafirmando um voto matrimonial. Estava rejeitando a premissa, ainda hoje enraizada em amplos setores da sociedade, de que a deficiência grave anula a identidade de uma pessoa a ponto de justificar o abandono. Estava declarando, com a autoridade de quem viveu cada minuto daquela escolha, que o valor de uma vida humana não se mede pela capacidade de mover os membros. Estava, enfim, mostrando que o verdadeiro ato de heroísmo não estava em usar capa vermelha, mas em permanecer ao lado de alguém quando todas as facilidades do mundo diziam para partir.