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O sono do sofá novo e o pesadelo da explosão: a passista que perdeu a vida junto com a casa própria

By Estagiário
junho 22, 2026 7 Min Read
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O chão da sala ainda exibia marcas da tinta fresca quando o apartamento 402 do Edifício Marília, na Rua Noronha Torrezão, se desfez em estilhaços. Marielly da Silva de Oliveira havia cruzado a porta daquele imóvel pela primeira vez como proprietária havia menos de quinze dias. A conquista, que lhe custou anos de economia rigorosa e apresentações como passista da Acadêmicos do Cubango, terminou destruída em frações de segundo, na tarde do dia 28 de maio, quando uma explosão de origem química arrancou janelas, derrubou paredes e incendiou o quarto andar do prédio.

A sequência de eventos que culminou na morte cerebral da jovem, confirmada na segunda semana de junho após doze dias de internação em unidade de terapia intensiva, começou com um procedimento doméstico aparentemente inofensivo. Marielly contratara um serviço de impermeabilização do sofá recém-adquirido, peça central da decoração do seu primeiro imóvel. O prestador utilizava uma solução líquida composta por solventes de alta volatilidade, aplicada diretamente sobre o tecido do estofado com o auxílio de uma pistola pulverizadora elétrica. O ambiente permaneceu fechado durante toda a operação, contrariando as especificações técnicas do produto, que exigem ventilação cruzada permanente e desligamento de qualquer equipamento que possa gerar centelha.

Testemunhas que estavam nos andares inferiores relataram ter ouvido um estampido seco, seguido por um tremor que balançou as estruturas do edifício. Em segundos, uma bola de fogo consumiu a sala de estar do apartamento, propagando-se para a cozinha e para o corredor de acesso aos quartos. Marielly, que acompanhava o serviço no momento da ignição, foi atingida em cheio pela onda de choque e pelas chamas. O profissional que realizava a impermeabilização também sofreu queimaduras graves, assim como outros quatro moradores de unidades vizinhas que tentaram acessar o corredor para prestar socorro.

O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro mobilizou quatro viaturas do quartel de Niterói, que chegaram ao local em oito minutos. O fogo foi debelado em aproximadamente quarenta minutos, mas a estrutura do quarto andar já apresentava comprometimento significativo. A Defesa Civil Municipal determinou a interdição total do pavimento, obrigando doze famílias a deixarem seus apartamentos naquela mesma noite. O laudo estrutural preliminar apontou fissuras profundas nas lajes de concreto armado, deslocamento de paredes de alvenaria e risco iminente de colapso parcial, o que exigiu o escoramento emergencial da edificação.

Marielly foi resgatada ainda com sinais vitais, mas em estado gravíssimo. Ela apresentava queimaduras de segundo e terceiro graus em mais de sessenta por cento da superfície corporal, lesão pulmonar decorrente da inalação de gases superaquecidos e traumatismo cranioencefálico provocado pelo impacto contra uma parede. A equipe médica do Hospital Estadual Azevedo Lima a recebeu em choque hipovolêmico, iniciando imediatamente protocolos de reposição volêmica, suporte ventilatório invasivo e antibioticoterapia de amplo espectro para prevenção de infecções secundárias. Apesar da resposta inicial positiva nas primeiras quarenta e oito horas, a paciente desenvolveu síndrome da angústia respiratória aguda, insuficiência renal aguda e uma infecção generalizada por pseudomonas aeruginosa, bactéria multirresistente comum em ambientes hospitalares e extremamente agressiva em pacientes com barreira cutânea comprometida.

O quadro clínico deteriorou-se rapidamente ao final da primeira semana. Os exames de imagem revelaram extensas áreas de necrose pulmonar, e os marcadores inflamatórios atingiram níveis críticos. A equipe multidisciplinar que acompanhava o caso optou por manter a sedação profunda e o bloqueio neuromuscular para reduzir o consumo de oxigênio pelos tecidos, mas a resposta ao tratamento tornou-se progressivamente menos eficaz. No décimo dia de internação, o eletroencefalograma já indicava ausência de atividade cerebral, e o protocolo de morte encefálica foi concluído quarenta e oito horas depois, conforme as diretrizes do Conselho Federal de Medicina.

A notícia da morte de Marielly da Silva de Oliveira espalhou-se rapidamente pela comunidade do samba fluminense. A Acadêmicos do Cubango, agremiação pela qual ela desfilava como passista há quatro temporadas, emitiu um comunicado em que expressou consternação profunda. A nota, divulgada nas plataformas digitais da escola, descreveu a passista como uma integrante que unia técnica apurada e energia contagiante, alguém que jamais faltava a um ensaio e que se tornara referência para as mais jovens que ingressavam na ala. A diretoria da agremiação decretou luto oficial de três dias e anunciou que o pavilhão da escola seria mantido a meio mastro na quadra da Rua Noronha Torrezão, a poucos metros do edifício onde ocorreu a tragédia.

Colegas de ala descreveram Marielly como uma presença luminosa nos ensaios. Ela chegava cedo, ajudava na organização dos adereços, corrigia passos das iniciantes com paciência e nunca deixava de sorrir, mesmo nas noites mais cansativas de preparação para o carnaval. A alegria com que acabara de conquistar a casa própria era tema frequente nas conversas, e ela fazia planos de receber as amigas para um jantar assim que a decoração estivesse concluída. Esse jantar jamais aconteceu.

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da explosão. O delegado titular da Delegacia de Niterói ouviu o profissional responsável pela impermeabilização assim que ele recebeu alta hospitalar, além de vizinhos, síndico do edifício e familiares da vítima. O fabricante do produto químico utilizado foi notificado para apresentar a ficha de informações de segurança, documento que detalha os riscos da substância e as condições obrigatórias para sua aplicação. A perícia do Instituto de Criminalística Carlos Éboli coletou amostras do líquido remanescente em galões encontrados no apartamento, além de fragmentos do estofado e de componentes elétricos que poderiam ter atuado como fonte de ignição. Os resultados analíticos preliminares confirmaram a presença de hidrocarbonetos aromáticos em concentrações muito acima do limite de segurança para uso residencial.

Especialistas em química de materiais e segurança do trabalho, consultados durante a elaboração desta reportagem, explicaram que solventes utilizados em impermeabilizações de tecidos frequentemente contêm tolueno, xileno e acetato de etila, substâncias que evaporam rapidamente à temperatura ambiente e formam misturas explosivas com o ar quando confinadas. Basta uma concentração entre um e sete por cento desses vapores no ambiente para que qualquer fonte de calor, incluindo o acionamento de um interruptor de luz, o motor de um eletrodoméstico ou uma descarga eletrostática, provoque uma explosão com potencial destrutivo equivalente a vários quilos de pólvora. Esses mesmos especialistas alertaram que serviços residenciais com esse tipo de produto jamais deveriam ser realizados em ambientes fechados, e que a legislação brasileira carece de normatização específica para a prestação desse tipo de serviço em domicílios, lacuna que contribui para a recorrência de acidentes semelhantes em diversas regiões do país.

O edifício da Rua Noronha Torrezão permaneceu com o quarto andar interditado por vinte e três dias após a explosão. Uma equipe de engenharia contratada pelo condomínio executou o reforço estrutural das lajes, a reconstrução das paredes comprometidas e a substituição de todas as instalações elétricas e hidráulicas do pavimento afetado. Os moradores das unidades interditadas foram acomodados em imóveis de parentes ou em hotéis custeados pelo seguro do condomínio, e muitos relataram dificuldades emocionais para retornar ao prédio, sobretudo aqueles que presenciaram o resgate de Marielly e sentiram o cheiro da fumaça impregnado em seus apartamentos por semanas.

A família de Marielly da Silva de Oliveira recebeu assistência da prefeitura de Niterói para o traslado do corpo e para os trâmites burocráticos do sepultamento. A mãe da passista, que dependia financeiramente da filha, foi incluída em programas municipais de acolhimento social, e a comunidade do Cubango organizou uma arrecadação solidária que alcançou valor significativo nos primeiros dias de mobilização. O enterro, realizado no Cemitério Parque da Colina, reuniu mais de trezentas pessoas. Passistas da Cubango compareceram com camisetas estampadas com o rosto de Marielly, e o caixão foi coberto com a bandeira verde e branca da agremiação. O silêncio só foi quebrado pelo canto à capela de um samba-enredo antigo, entoado por vozes embargadas enquanto a terra cobria a última morada da jovem que sonhou com a casa própria e partiu antes de vê-la florescer.

O apartamento 402 segue vazio. A porta permanece lacrada com fitas da Defesa Civil, e a janela voltada para a rua ainda exibe as persianas retorcidas pelo calor da explosão. Os vizinhos dizem que ninguém teve coragem de reivindicar o imóvel ou iniciar qualquer procedimento de reforma. Um vaso de plantas que Marielly colocara na entrada dias antes do acidente continua no mesmo lugar, com as folhas secas pelo tempo, à espera de mãos que nunca mais voltarão para regá-lo.

Fontes consultadas e documentos analisados para esta reportagem:

Boletins de ocorrência registrados na Delegacia de Niterói referentes ao caso. Registros de atendimento do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, quartel de Niterói. Laudos técnicos da Defesa Civil Municipal de Niterói sobre a interdição do imóvel na Rua Noronha Torrezão. Nota oficial de falecimento e comunicado de luto emitidos pela diretoria da Acadêmicos do Cubango por meio de suas plataformas digitais oficiais. Prontuários médicos e evolução clínica fornecidos pelo Hospital Estadual Azevedo Lima mediante autorização judicial. Fichas de informações de segurança de produtos químicos (FISPQ) analisadas pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Entrevistas com familiares, moradores do Edifício Marília e integrantes da ala de passistas da Acadêmicos do Cubango. Consultas técnicas a engenheiros químicos e especialistas em segurança do trabalho com registro ativo nos respectivos conselhos profissionais. Documentação da campanha solidária organizada pela comunidade do Cubango para assistência à família da vítima.

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