O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos confirmou nesta quinta-feira uma decisão que promete entrar para os livros de história da maior economia do mundo: a assinatura do presidente Donald Trump passará a ser impressa em todas as cédulas de dólar americano produzidas a partir de junho deste ano. Pela primeira vez desde que os Estados Unidos passaram a emitir papel-moeda, em 1861, a assinatura de um presidente em exercício figurará no instrumento financeiro mais reconhecido do planeta.
A medida, anunciada pelo Secretário do Tesouro Scott Bessent em comunicado oficial divulgado ao longo da tarde desta quinta, rompe com uma tradição de 165 anos de prática ininterrupta. Desde a primeira emissão de cédulas federais americanas, a regra nunca foi questionada: duas assinaturas figuravam obrigatoriamente em cada nota, a do secretário do Tesouro e a do tesoureiro federal. Nomes técnicos. Nomes institucionais. Nunca o nome de quem ocupa o mais alto cargo do poder executivo. Essa fronteira, sutil mas profundamente simbólica, acaba de ser cruzada.
O tesoureiro federal Brandon Beach foi o primeiro a formalizar publicamente o argumento que sustenta a decisão. Em declaração registrada no comunicado do Tesouro, Beach descreveu Trump como o arquiteto do renascimento econômico de uma nova era dourada para a América, afirmando que estampar a assinatura do presidente na moeda nacional não é apenas apropriado, mas plenamente merecido. Bessent, por sua vez, enquadrou a mudança dentro de uma narrativa comemorativa mais ampla, vinculando a decisão às celebrações do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que ocorrerá em 4 de julho de 2026.
Do ponto de vista técnico e legal, a alteração está dentro das prerrogativas do Tesouro americano. A legislação federal que rege a produção das chamadas Federal Reserve Notes concede ao departamento ampla discricionariedade para modificar elementos dos projetos gráficos das cédulas, principalmente quando a justificativa envolve mecanismos de segurança anticifraudes. A lei, no entanto, impõe limites claros: certos elementos são imutáveis, como a expressão “In God We Trust”, e a representação do rosto de pessoas vivas em moedas de circulação corrente é expressamente proibida. Por essa razão, o rosto de Trump não poderá aparecer nas notas, apenas sua assinatura, o que torna a mudança juridicamente viável, ainda que politicamente carregada.
A implementação seguirá um cronograma escalonado. As primeiras cédulas afetadas serão as de 100 dólares, cuja nova impressão, já com a assinatura de Trump e de Bessent, está prevista para ter início em junho. As demais denominações serão convertidas progressivamente ao longo dos meses seguintes. Até lá, o Bureau of Engraving and Printing do Tesouro continuará produzindo cédulas com as assinaturas da ex-secretária Janet Yellen e da ex-tesoureira Lynn Malerba, ambas nomeadas durante o governo Biden. Malerba, portanto, ficará para a história como a última tesoureira federal a ter sua assinatura impressa nas notas americanas dentro do formato secular que vigorou por mais de século e meio.
A decisão não surgiu do nada. Ela integra um movimento mais amplo e deliberado de personalização institucional que marca o segundo mandato de Trump. Nos últimos meses, o nome do presidente foi associado à renomeação de importantes espaços federais e culturais, entre eles o Kennedy Center for the Performing Arts e o U.S. Institute of Peace. Navios de guerra receberam novas designações. Uma comissão federal de artes, cujos membros foram indicados pelo próprio presidente, aprovou o design de uma moeda comemorativa de ouro de 24 quilates com a efígie de Trump para marcar o aniversário de 250 anos da independência americana. Em 2020, durante seu primeiro mandato, Trump já havia determinado que seu nome fosse impresso nos cheques de estímulo econômico enviados diretamente à população americana durante a pandemia de Covid-19, decisão que, à época, gerou acusações de uso político da máquina federal, mas que não tinha o alcance simbólico da moeda corrente.
O dólar americano circula em mais de 180 países. É a moeda de reserva global, o padrão de referência do comércio internacional, o denominador comum de bilhões de transações diárias ao redor do mundo. Não existe, na história moderna das democracias ocidentais, precedente comparável ao que foi anunciado nesta quinta-feira. A assinatura de um presidente vivo, em exercício, impressa em cada nota física produzida por uma das maiores casas de impressão monetária do mundo é, por qualquer ângulo de análise, um fato sem igual.

Para os apoiadores da medida, trata-se de um reconhecimento histórico que reflete a grandeza do momento político vivido pelos Estados Unidos. Para os críticos, é o capítulo mais recente de uma narrativa de fusão entre o Estado e a figura presidencial, um processo que, segundo eles, corrói as distinções entre governo e governante que são pilares da república americana. O debate está aberto e cada dólar que passar de mão em mão daqui para frente será, ele próprio, um documento desse momento.