blank

Trump ironiza e sugere se mudar para a Venezuela para se candidatar à Presidência ao fim de seu mandato nos EUA

Política

Num único dia, Donald Trump conseguiu protagonizar uma reunião de gabinete que misturou negociação de petróleo, comparação com heróis da independência sul-americana e uma autocandidatura improvisada à presidência de um país estrangeiro. O resultado foi uma das cenas mais inusitadas da política internacional em anos recentes e, ao mesmo tempo, um dos retratos mais nítidos do novo equilíbrio de poder que se instalou na América do Sul desde o início de 2026.

A reunião aconteceu na manhã desta quinta-feira, na Sala do Conselho de Ministros da Casa Branca. Era o décimo primeiro encontro formal do tipo desde que Trump iniciou seu segundo mandato, e a pauta principal era a Venezuela. Mas o que chamou a atenção do mundo não foi nenhum dado econômico nem qualquer anúncio de política externa. Foi a frase que o presidente americano lançou ao ar, com aquela mistura característica de ironia e convicção que há décadas desconcerta analistas e encanta apoiadores: ele disse que, ao fim de seu governo nos Estados Unidos, poderia simplesmente mudar de país, instalar-se em Caracas e disputar a presidência venezuelana contra a atual chefe de Estado interina, Delcy Rodríguez. A frase foi dita duas vezes seguidas, com o presidente saboreando cada sílaba enquanto o gabinete ria ao redor da mesa.

A declaração não era o produto de um impulso isolado. Ela surgiu como desfecho natural de uma conversa que o secretário do Interior, Doug Burgum, havia iniciado minutos antes. Burgum havia estado em Caracas no início do mês, numa visita de mais de dez horas que incluiu reuniões com Rodríguez, encontros com o setor privado venezuelano e negociações que, segundo ele, produziram resultados concretos para ambos os lados. Ao relatar a experiência para seus colegas de gabinete, o secretário não se limitou a dados técnicos. Ele descreveu o que viu nas ruas da capital venezuelana como algo que vai além da política, uma espécie de devoção popular ao presidente americano que ele claramente não esperava encontrar com tamanha intensidade.

Burgum afirmou que os venezuelanos enxergam Trump como o equivalente contemporâneo de Simón Bolívar, o militar e estadista que no século XIX conduziu a libertação de vários países sul-americanos do domínio colonial espanhol. A comparação não foi feita como figura retórica. O secretário disse acreditar, com genuína convicção, que a Venezuela erguerá uma estátua em homenagem ao presidente americano. Antes que Burgum terminasse a frase, Trump o interrompeu com uma pergunta que resumiu todo o espírito da reunião: quando exatamente seria inaugurada a estátua? A sala voltou a rir. E então, quase como extensão natural daquele momento de leveza, Trump sugeriu que talvez não precisasse esperar por uma homenagem em bronze, poderia simplesmente ir pessoalmente governar o país.

O que tornava a brincadeira simultaneamente cômica e politicamente carregada era o fato de que, enquanto aquela conversa acontecia em Washington, Nicolás Maduro estava sentado num banco de réus num tribunal federal em Nova York. Era sua segunda audiência desde que foi capturado e transferido para os Estados Unidos em janeiro deste ano, e a sessão desta quinta-feira girava em torno de um problema muito concreto: Maduro não conseguia acessar os recursos financeiros necessários para pagar seus próprios advogados, pois todas as suas contas conhecidas permanecem bloqueadas pelas sanções americanas que ele mesmo ajudou a motivar ao longo de anos de confronto com Washington. O juiz federal responsável pelo caso deliberou sobre a questão sem considerar o ex-líder uma ameaça à segurança nacional, dado que ele já está preso em território americano. As acusações que pesam sobre ele, no entanto, não têm qualquer perspectiva de desaparecer: narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e liderança de uma organização criminosa que, segundo a promotoria federal, utilizava o comércio de entorpecentes não apenas para enriquecimento próprio, mas como instrumento deliberado de desestabilização dos Estados Unidos.

Trump comentou o julgamento durante a mesma reunião de gabinete. Disse que Maduro está sendo processado por uma fração ínfima de seus crimes reais e sugeriu, sem oferecer detalhes, que acusações adicionais podem vir a ser apresentadas. A afirmação foi feita no mesmo tom assertivo com que o presidente costuma tratar questões que considera encerradas, como se a condenação já fosse um detalhe burocrático pendente de formalização, e não um processo judicial complexo com todas as garantias do sistema americano.

Para entender como se chegou a este ponto, é necessário recuar ao início do ano. Em 3 de janeiro de 2026, uma operação conduzida por forças especiais norte-americanas em coordenação com setores dissidentes das Forças Armadas venezuelanas resultou na prisão de Maduro dentro do próprio território venezuelano. A operação foi descrita por Trump como a maior ação militar americana em décadas, e sua execução em solo estrangeiro sem mandado de uma corte internacional gerou debates jurídicos e diplomáticos que ainda não foram inteiramente resolvidos. Maduro foi transferido para os Estados Unidos em questão de horas, e o vácuo de poder que sua ausência criou em Caracas foi preenchido de forma relativamente ordenada, ao menos na aparência, por Delcy Rodríguez.

Rodríguez, que havia servido como vice-presidente sob Maduro após uma trajetória que incluiu as pastas de Relações Exteriores e da Assembleia Nacional Constituinte, assumiu a presidência interina com o respaldo formal do Tribunal Supremo de Justiça venezuelano. A transição, porém, está longe de ser estável. A oposição venezuelana permanece fraturada entre dois polos: um setor que reconhece Rodríguez como interlocutora legítima para a condução de uma transição negociada, e outro que exige o reconhecimento imediato de Edmundo González Urrutia como presidente legítimo, com base nos resultados das eleições de julho de 2024, que a oposição afirma ter vencido com ampla margem. Dentro do próprio aparato de poder chavista, Rodríguez precisa equilibrar as exigências americanas com os interesses de figuras que ainda detêm poder real, entre elas o ministro do Interior Diosdado Cabello e a alta cúpula das Forças Armadas, cujos generais de maior influência foram criteriosamente mantidos em seus postos como parte de um acordo tácito que permitiu a captura de Maduro sem resistência armada organizada.

É dentro desse contexto fraturado e em permanente negociação que a relação entre Washington e Caracas adquiriu as características de uma parceria econômica acelerada. Burgum detalhou durante a reunião de gabinete os termos práticos do que Trump havia descrito como uma parceria estratégica entre os dois países. Nas primeiras duas semanas após a captura de Maduro, os Estados Unidos obtiveram cem milhões de barris de petróleo venezuelano. A produção total do país, segundo dados citados pelo próprio secretário, aumentou em cinquenta por cento desde que empresas norte-americanas retomaram operações no território, petróleo que segue diretamente para refinarias no Golfo do México e contribui, conforme o argumento da administração Trump, para manter os preços dos combustíveis americanos sob controle. Além do petróleo, Burgum mencionou que retornou de Caracas com uma quantidade expressiva em ouro, fruto de acordos voltados ao financiamento de projetos industriais que as duas partes estão construindo em conjunto.

A visita do secretário também produziu resultados simbólicos que, em certas circunstâncias, valem tanto quanto os econômicos. Pela primeira vez em mais de vinte anos, jornalistas da imprensa livre receberam autorização para entrar no Palácio de Miraflores. Burgum descreveu ainda ter visto venezuelanos nas ruas usando camisetas da NBA, um detalhe aparentemente trivial que ele tratou como indicador de algo mais profundo: a velocidade com que a abertura cultural acompanha a abertura econômica quando as condições políticas mudam de forma abrupta. Para uma geração que cresceu sob as restrições do chavismo, a chegada de produtos, imagens e referências culturais americanas tem o peso de uma janela que finalmente foi aberta.

É nesse cenário de transformação acelerada que a afirmação de Trump sobre ser o político com maior intenção de voto na Venezuela precisa ser lida com cuidado. Ela não é completamente infundada, mas também não é completamente precisa. Pesquisas realizadas após a captura de Maduro indicam que uma parcela expressiva da população venezuelana, especialmente entre os segmentos que mais sofreram com o colapso econômico das últimas décadas, demonstra simpatia pela intervenção americana e por Trump pessoalmente. No entanto, os mesmos levantamentos apontam que cerca de um quinto dos venezuelanos ainda manifesta apoio ao legado chavista, e que a euforia do momento não elimina décadas de formação política que muitos cidadãos carregam. A popularidade de Trump em Caracas é real, mas sua extensão é, no mínimo, mais matizada do que o presidente americano sugeriu diante de seu gabinete.

Do ponto de vista estritamente jurídico, a candidatura presidencial venezuelana de Trump seria inviável sem uma reforma constitucional de grande alcance. A Constituição da República Bolivariana da Venezuela exige que o candidato à presidência seja venezuelano nato e não possua outra nacionalidade. Trump, nascido em Nova York, não preenche nenhum dos dois critérios. Analistas de direito constitucional ouvidos pela imprensa internacional foram unânimes ao apontar o obstáculo, embora alguns deles tenham reconhecido, com certa ironia, que a mesma influência americana que tornou possível a prisão de Maduro em solo estrangeiro poderia, em tese, exercer pressão suficiente para viabilizar qualquer reforma que Washington desejasse aprovar em Caracas. É nesse espaço entre a piada e a hipótese que a declaração de Trump continua reverberando.

Ainda durante a reunião desta quinta-feira, o presidente abordou um terceiro eixo da nova relação com a Venezuela: a normalização diplomática. Uma delegação venezuelana chegava a Washington naquele mesmo momento para iniciar os procedimentos que viabilizarão a reabertura da embaixada da Venezuela nos Estados Unidos, estrutura que permanece fechada desde 2019, quando o governo de Nicolás Maduro e a administração Trump romperam formalmente as relações diplomáticas após Washington reconhecer Juan Guaidó como presidente interino. A reabertura representa o passo institucional mais significativo entre os dois países em sete anos e sinaliza que a nova ordem, por mais turbulenta que seja em seus contornos, está sendo construída com a intenção de durar.

No Congresso americano, as reações à declaração de Trump variaram conforme o espectro político de sempre. Entre os aliados republicanos, o entusiasmo foi imediato: o senador Bernie Moreno foi um dos primeiros a compartilhar nas redes sociais uma versão festiva da autocandidatura presidencial venezuelana do presidente. Entre os críticos democratas, a piada foi absorvida como mais um exemplo do que descrevem como a transformação da política externa americana em entretenimento, ainda que alguns reconhecessem, em particular, que os resultados concretos obtidos na Venezuela são difíceis de ignorar. Nos corredores dos organismos internacionais em Genebra e Nova York, o silêncio foi mais eloquente do que qualquer declaração: a operação que resultou na prisão de Maduro em território estrangeiro abriu um precedente cujas implicações jurídicas e geopolíticas ainda estão sendo processadas por chancelarias e tribunais ao redor do mundo.

blank

O que ficou registrado desta quinta-feira de março em Washington é uma imagem que condensa, com eficiência incomum, toda a estranheza do momento histórico em que o mundo se encontra. O presidente mais poderoso do planeta, sentado à cabeceira de uma mesa rodeada por seus ministros, sugeriu que seu próximo projeto político poderia ser governar um país sul-americano cujo antigo líder aguarda julgamento a poucos quarteirões da Torre Trump em Manhattan. A sugestão foi feita em tom de piada. Mas nas últimas décadas, poucas coisas que Donald Trump disse em tom de piada permaneceram apenas como piada por muito tempo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *