Trump declara guerra a quem ainda diz “Inteligência Artificial”
Trump chama de ‘inimigo’ quem usar ‘Artificial Intelligence’ e impõe ‘Super Intelligence’ no governo dos EUA agora mesmo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quinta-feira que a Casa Branca classifica como “inimigo” qualquer pessoa que persista no uso da expressão “Artificial Intelligence” em detrimento do termo “Super Intelligence”. A afirmação foi publicada na rede social Truth Social e representa o capítulo mais recente de uma campanha oficial do governo americano para substituir a nomenclatura da tecnologia em toda a estrutura federal. Trump escreveu que o governo “considera qualquer um que use o termo ‘Artificial Intelligence’, em oposição ao termo novo e mais preciso ‘Super Intelligence’, O INIMIGO!”. O presidente não detalhou quais consequências práticas poderiam decorrer dessa classificação, mas o tom da mensagem sinaliza uma postura de intolerância dentro da própria máquina pública em relação à terminologia anterior.
A escalada retórica ocorre nove dias após Trump ter assinado uma ordem executiva que determinou a substituição oficial da expressão. Assinada em 29 de setembro, a Ordem Executiva 14434, intitulada “Inaugurando a Era da Super Inteligência”, estabelece que todos os departamentos e agências do Poder Executivo devem usar os termos “Super Intelligence” e “SI” em substituição a “Artificial Intelligence” e “AI” em correspondências oficiais, comunicações públicas, documentos de política e demais materiais não estatutários. O texto da ordem sustenta que, à medida que as capacidades tecnológicas continuam a se aperfeiçoar, elas representam não apenas inteligência artificial, mas uma nova era de Super Inteligência, e que o termo capturaria de forma mais adequada a promessa, o potencial e as capacidades em rápida evolução dessas tecnologias.
A ordem executiva vai além da simples mudança de nomenclatura. Ela também inicia um processo para revisar a definição estatutária atual de inteligência artificial, propor uma nova definição federal para Super Inteligência e avaliar emendas conformes à legislação federal existente. Por ora, no entanto, a ordem aplica temporariamente a definição legal vigente de inteligência artificial, prevista no Título 15 do Código dos Estados Unidos, ao termo “Super Intelligence”, o que indica que a alteração é, neste primeiro momento, essencialmente terminológica.
Além da ordem executiva, Trump anunciou em 4 de outubro a criação de uma força-tarefa federal denominada “Super Intelligence Force”, com o objetivo de coordenar os esforços do governo na área e assegurar que os Estados Unidos mantenham a liderança global no setor. Em publicação no Truth Social, o presidente afirmou que o grupo terá a responsabilidade de coordenar a atuação federal para garantir que a América continue a liderar o mundo em Super Inteligência, “que muitos dizem ser maior que a Revolução Industrial e a Internet”, e que protegerá os interesses e melhorará a vida de todos os americanos.
A força-tarefa será liderada por Jay Clayton, Diretor de Inteligência Nacional, e contará com a participação de Andrew Ferguson, presidente da Comissão Federal de Comércio, Emil Michael, subsecretário de Guerra para Pesquisa e Engenharia e diretor de tecnologia do Pentágono, e Scott Kupor, diretor do Escritório de Gestão de Pessoal. O grupo se reportará diretamente a Trump e à chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e terá 120 dias para preparar suas conclusões, examinando leis existentes e possíveis medidas a serem adotadas. Entre as atribuições do grupo está a coordenação do engajamento do governo com consumidores, grupos de interesse público, organizações religiosas, provedores de infraestrutura crítica e empresas de tecnologia.
O anúncio da força-tarefa ocorreu após uma reunião na Casa Branca entre Trump e executivos de grandes empresas de inteligência artificial, que assinaram um acordo voluntário denominado “Acordo da Casa Branca sobre Super Inteligência”, pedindo controles internos mais rígidos e revisões de modelos de IA. A assinatura do acordo e a criação do grupo fazem parte de uma estratégia mais ampla do governo americano de reposicionar a liderança tecnológica do país, especialmente diante da ascensão da China no setor.
A mudança de nomenclatura, no entanto, enfrenta ceticismo significativo. Especialistas questionam a lógica do rebranding, argumentando que “Super Intelligence” é um termo técnico com significado consolidado que não corresponde à tecnologia atualmente disponível. O filósofo Nick Bostrom, que popularizou a expressão em seu livro de 2014, definiu superinteligência como “qualquer intelecto que exceda enormemente o desempenho cognitivo dos humanos em virtualmente todos os domínios de interesse”. Simon Coghlan, professor de ética digital da Universidade de Melbourne, afirmou que o rebranding é enganoso, pois superinteligência tipicamente se refere a um sistema com capacidade de se aprimorar por conta própria. “Duvido que ‘SI’ vai pegar, em parte porque exagera as capacidades atuais da IA”, declarou.
Pedro Domingos, professor de ciência da computação da Universidade de Washington, foi ainda mais direto. “A maior parte da IA não é superinteligência. É apenas um tipo diferente de inteligência”, afirmou. Segundo ele, a medida pode ser vista como um golpe de marketing para reposicionar a tecnologia em um momento de crescente desconfiança pública. Darrell West, pesquisador de política de IA na Brookings Institution, avalia que o presidente está tentando rebatizar a tecnologia à medida que o sentimento público se volta contra ela.
No setor privado, as reações foram mistas. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, apoiou publicamente a mudança, escrevendo que “a superinteligência oferece uma oportunidade extraordinária para avançar em descoberta, produtividade, segurança, saúde e prosperidade”. Elon Musk foi além e anunciou que sua empresa SpaceXAI passaria a se chamar SpaceXSI, em adesão à nova nomenclatura presidencial. No entanto, observadores da indústria e lobistas do setor de tecnologia avaliam que o termo dificilmente será adotado fora do governo federal, e que a mudança pode criar confusão ao misturar um conceito teórico de inteligência sobre-humana com a tecnologia atualmente disponível.
Adam Kovacevich, CEO da coalizão progressista de tecnologia Chamber of Progress, resumiu o sentimento de parte do setor. Segundo ele, a adoção do novo termo por algumas empresas é “uma forma de os CEOs sinalizarem lealdade ao presidente”. A avaliação predominante entre lobistas e observadores da indústria é de que a mudança terá impacto prático limitado e que o termo “SI” provavelmente não se consolidará no vocabulário cotidiano do setor.
A declaração desta quinta-feira, ao classificar como “inimigo” quem usa o termo anterior, adiciona uma dimensão política a um debate que até então se concentrava em questões de nomenclatura e comunicação governamental. A medida pode ter implicações dentro do próprio governo, já que muitos órgãos federais ainda utilizam a nomenclatura antiga em documentos, sites e comunicações oficiais, e a adaptação a “Super Intelligence” e “SI” exigirá uma revisão ampla de materiais e sistemas em toda a estrutura do Poder Executivo. A ordem executiva determina que a substituição seja feita “na máxima extensão permitida por lei”, o que sugere que a implementação plena dependerá de adequações legislativas futuras.
A cruzada de Trump contra o termo “Artificial Intelligence” não é nova. O presidente já havia dito anteriormente que a palavra “artificial” faz a tecnologia soar “falsa”. Em uma enquete realizada em suas redes sociais, Trump chegou a ser acusado de manipular o resultado para favorecer o rebranding, e internautas notaram seu estilo característico de rebatizar conceitos. A enquete, que recebeu milhares de votos, foi compartilhada rapidamente, com alguns usuários fazendo piadas com alternativas como “American Intelligence”.
A medida também ocorre em um momento de intensa disputa geopolítica pela liderança em inteligência artificial. O governo americano tem buscado manter sua vantagem competitiva em relação à China, que investe pesadamente no setor. A criação da Super Intelligence Force e a mudança de nomenclatura fazem parte dessa estratégia de posicionamento dos Estados Unidos como potência dominante na área. Analistas apontam que a medida pode ser interpretada como uma tentativa de introduzir uma nova fase no desenvolvimento da IA, projetando dominância americana em um campo cada vez mais disputado.
Enquanto isso, a ordem executiva e a declaração desta quinta-feira seguem gerando controvérsia. A classificação de “inimigo” para quem usa o termo “Artificial Intelligence” representa uma escalada retórica que pode ter implicações dentro do próprio governo, especialmente considerando que a mudança de nomenclatura ainda está em processo de implementação e que muitos setores da administração federal continuam a empregar a terminologia anterior em suas operações diárias.
Fontes
The Mirror. Trump declares anyone who doesn’t use ‘Super Intelligence’ as ‘the enemy’. 8 de outubro de 2026.
HuffPost. Trump Says Anyone Who Isn’t On Board With His AI Rebrand Is ‘THE ENEMY’. 5 de outubro de 2026.
News18. Trump Labels Those Calling AI ‘Artificial Intelligence’ Instead Of ‘Super Intelligence’ As ‘The Enemy’. 8 de outubro de 2026.
Axios. Trump: Anyone saying “AI” is “THE ENEMY!”. 8 de outubro de 2026.
The Independent. Trump declares anyone who uses the term Artificial Intelligence to be ‘The Enemy!’. 8 de outubro de 2026.
The Korea Times. Trump says anyone who does not call AI ‘super intelligence’ is ‘the enemy’. 8 de outubro de 2026.
Casa Branca. Fact Sheet: President Donald J. Trump Inaugurates The Era of Super Intelligence. 29 de setembro de 2026.
Federal Register. Executive Order 14434 of September 29, 2026 — Inaugurating the Era of Super Intelligence. 2 de outubro de 2026.
Qazinform. Trump announces Super Intelligence Force to coordinate US AI policy. 5 de outubro de 2026.
Xinhua. Trump announces new federal task force to coordinate AI efforts. 4 de outubro de 2026.
NHK World-Japan. Trump announces ‘Super Intelligence Force’. 5 de outubro de 2026.
CNN Politics. Trump announces leadership of AI task force. 4 de outubro de 2026.
BBC. Trump unveils ‘Super Intelligence Force’ to oversee AI policy. 5 de outubro de 2026.
Politico. Trump’s AI rebrand may stop at the White House. 1 de outubro de 2026.
The Independent. Trump’s ‘super intelligence’ is being mocked by tech industry insiders. 2 de outubro de 2026.
SCMP. Trump wants to stamp out the term ‘artificial intelligence’. Why? 2 de outubro de 2026.
DW. Why Trump wants to call artificial intelligence ‘Super Intelligence’. 30 de setembro de 2026.
BBC. Trump super intelligence: Will the president’s attempt to rebrand AI work? 23 de setembro de 2026.
Nature. The science of superintelligence and why AI is still a useful word. 7 de outubro de 2026.
Poynter. Trump renamed AI ‘super intelligence.’ But that term already means something else. 8 de outubro de 2026.