Trump quer Infantino como novo secretário-geral da ONU, afirma New York Post
Presidente americano articula nomeação do chefe da Fifa para suceder António Guterres e provoca reação imediata nas potências do Conselho de Segurança
Gianni Infantino entra na rota da sucessão da ONU por desejo expresso de Donald Trump
O mapa da diplomacia multilateral começa a ser redesenhado a partir de um movimento calculado nos corredores da Casa Branca. Donald Trump decidiu apostar em uma figura que transita com desenvoltura entre palácios presidenciais, estádios lotados e conselhos de administração de alto risco. O presidente dos Estados Unidos formalizou nos bastidores sua preferência para que o suíço Gianni Infantino, mandatário máximo da Federação Internacional de Futebol, assuma a cadeira de secretário-geral das Nações Unidas a partir de janeiro do próximo ano, ocupando o vácuo que será deixado pelo português António Guterres.
A revelação foi trazida a público pelo New York Post e desde então passou a mobilizar chancelarias, missões permanentes e organismos internacionais sediados em Nova York, Genebra e Viena. A movimentação política em torno do nome de Infantino não é fruto do improviso, mas resultado de meses de conversas reservadas, encontros à margem de grandes eventos esportivos e uma sintonia pessoal que aproximou o magnata republicano do cartola que comanda o esporte mais popular do planeta.
Trump enxerga no dirigente um perfil executivo raro, moldado pela necessidade permanente de negociar com governos de todos os continentes, patrocinadores globais, federações nacionais e conglomerados de mídia. Em declarações relatadas por interlocutores, o presidente americano classificou Infantino como alguém capaz de construir pontes onde diplomatas de carreira enxergam abismos. A frase atribuída a Trump de que o suíço “une as pessoas” sintetiza a expectativa de que a liderança do futebol mundial possa traduzir o capital político acumulado nos gramados em resultados concretos no tabuleiro da paz e da segurança internacional.
A sucessão de António Guterres já estava prevista no calendário institucional da organização. O diplomata português cumpre seu segundo mandato consecutivo e se despede do cargo no último dia de dezembro, encerrando um ciclo de nove anos marcado por crises climáticas sucessivas, pela pandemia global de covid, pela guerra na Ucrânia e por tensões renovadas no Oriente Médio. O processo de seleção do próximo secretário-geral segue ritos estabelecidos pela Carta da ONU e por resoluções da Assembleia Geral, mas a prática histórica demonstra que o nome capaz de emergir vitorioso precisa, antes de tudo, navegar com habilidade pelos cinco assentos permanentes do Conselho de Segurança.
A indicação informal de Infantino coloca sobre a mesa uma equação geopolítica complexa. Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido possuem poder de veto sobre qualquer candidatura. Um nome impulsionado pela Casa Branca tende a enfrentar resistências imediatas em Moscou e Pequim, capitais que mantêm relações deterioradas com Washington em múltiplas frentes, da disputa tecnológica à militarização do Indo-Pacífico. A tradição não escrita de rotação regional também joga contra o suíço, uma vez que a Europa Ocidental já forneceu diversos secretários-gerais ao longo das oito décadas da organização, abrindo caminho para candidaturas da África, da América Latina ou da Ásia.
A aliança que sustenta a aposta presidencial americana é ancorada no maior empreendimento esportivo já realizado em solo dos Estados Unidos. A Copa do Mundo de 2026, que terá os estádios americanos como palco principal ao lado de Canadá e México, transformou-se em um ativo político de primeira grandeza. O torneio foi viabilizado integralmente durante a gestão de Infantino na Fifa e representa para Trump uma vitrine planetária de sua visão de grandeza nacional. O republicano jamais escondeu o fascínio por megaeventos e enxerga no futebol uma ferramenta de projeção de poder que dialoga diretamente com eleitorados domésticos e plateias estrangeiras.
A parceria entre os dois personagens consolidou-se em telefonemas, convites para eventos oficiais e gestos públicos de apreço mútuo. Infantino foi recebido no Salão Oval, circulou por propriedades do clã Trump e correspondeu às expectativas do anfitrião com um discurso que valoriza o esporte como vetor de desenvolvimento econômico e pacificação social. Durante o período eleitoral, o dirigente reforçou laços com aliados do então candidato republicano, movimento interpretado como aceno estratégico a uma Casa Branca que voltaria a ser ocupada por Trump.
A eventual confirmação de Infantino como chefe do Secretariado da ONU quebraria um paradigma de quase oitenta anos. Nenhum ocupante anterior do posto máximo da organização multilateral emergiu do universo esportivo. A trajetória do suíço, no entanto, oferece camadas que vão além do futebol. Formado em direito pela Universidade de Friburgo, poliglota e negociador experiente, Infantino ascendeu na hierarquia da Uefa antes de assumir o comando da Fifa em um momento de convulsão institucional causada por escândalos financeiros que derrubaram seus antecessores.
Sua gestão na Fifa expandiu o Conselho da entidade, ampliou o número de seleções participantes da Copa do Mundo e elevou as receitas comerciais a patamares recordes, ainda que sob críticas de organizações defensoras de direitos humanos e de entidades ambientais. A condução dos torneios no Catar e a preparação para o evento na América do Norte expuseram contradições entre o discurso de modernização administrativa e os impactos sociais e ambientais do modelo de megaeventos promovido pela federação internacional.
A reação de setores organizados da sociedade civil não tardou. Redes de ativistas, acadêmicos e ex-funcionários da própria ONU manifestaram reservas contundentes à candidatura de um dirigente cujo currículo não contempla experiência direta em áreas sensíveis como mediação de conflitos armados, gestão de crises humanitárias ou formulação de políticas climáticas globais. O cargo de secretário-geral exige que seu ocupante transite com igual fluência entre a Assembleia Geral e campos de refugiados, entre resoluções do Conselho de Segurança e negociações climáticas anuais.
A ofensiva de Trump para emplacar Infantino testa os limites da influência americana sobre as estruturas multilaterais erguidas no pós-guerra. A escolha do secretário-geral da ONU, mais do que um processo administrativo, constitui um termômetro do estado das relações entre as grandes potências. Cada veto, cada abstenção e cada adesão negociada nos bastidores revela o equilíbrio de forças que molda a ordem internacional contemporânea.
O cronograma que se desenha para os próximos meses prevê a realização de audiências públicas, sabatinas informais e a apresentação de candidaturas formais junto ao Conselho de Segurança. O colegiado, que reúne quinze países, exige um mínimo de nove votos favoráveis sem que nenhum dos cinco membros permanentes utilize o veto. Somente após essa etapa o nome segue para referendo da Assembleia Geral, onde a aprovação costuma ser encaminhada sem sobressaltos.
A comunidade diplomática instalada em Nova York acompanha o desenrolar das articulações com atenção redobrada. Embaixadores e representantes permanentes dedicam-se a decifrar se a iniciativa da Casa Branca configura uma proposta realista ou uma provocação destinada a tensionar o processo sucessório. O precedente de secretários-gerais que emergiram de perfis não convencionais é escasso, mas a história demonstra que crises agudas do multilateralismo costumam abrir espaço para nomes que personificam apostas de ruptura.
A perspectiva de um secretário-geral ungido pelo ocupante da Casa Branca também reacende debates sobre a independência funcional do cargo. Secretários-gerais anteriores protagonizaram embates públicos com presidentes americanos em momentos cruciais, como ocorreu nos anos que antecederam a invasão do Iraque e durante as reiteradas ameaças de retirada de Washington de acordos multilaterais e organismos especializados. A relação simbiótica entre Trump e Infantino acrescenta uma camada inédita de complexidade a essa dinâmica institucional.
O nome de Gianni Infantino já não pertence apenas ao universo das quatro linhas. Ao ser catapultado para o epicentro da disputa pela liderança das Nações Unidas, o cartola suíço personifica uma aposta carregada de simbolismo sobre o futuro da cooperação internacional, sobre os limites entre o entretenimento global e a diplomacia clássica, e sobre a capacidade do esporte de forjar lideranças aptas a gerenciar as urgências de um planeta em ebulição.
O desfecho dessa articulação definirá não apenas o sucessor de António Guterres, mas também a trajetória de uma organização que tenta reafirmar sua relevância em um mundo atravessado por guerras persistentes, deslocamentos populacionais massivos, colapsos ecológicos e uma crise de legitimidade que corrói os alicerces do multilateralismo tradicional.
Fontes: New York Post, registros oficiais do processo de seleção para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas, resoluções da Assembleia Geral da ONU, calendário eleitoral da organização, comunicados institucionais da presidência da Fifa.