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Política

Advogado de militares do caso kids pretos agora acusa a Delta Force dos EUA de tramar sequestro de Lula no Brasil

By Régis Andrade
10 de agosto de 2026 6 Min Read
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Jeffrey Chiquini, pré-candidato a deputado, diz que a unidade de elite americana age à paisana no país; não há provas nem confirmação oficial.

Advogado e pré candidato a deputado federal pelo partido Novo no Paraná Jeffrey Chiquini afirma que militares da unidade de forças especiais do Exército dos Estados Unidos estariam atuando em território brasileiro sem identificação para supostamente elaborar um plano de captura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A declaração foi publicada pelo próprio advogado em seus perfis nas plataformas digitais na tarde deste domingo, dia 9 de agosto de 2026. Segundo a postagem, integrantes da Delta Force, força de operações especiais de elite subordinada ao Comando Conjunto de Operações Especiais do Departamento de Defesa norte americano, já estariam em solo brasileiro em condição despida de uniformes ou insígnias, movimentando se de forma velada para viabilizar uma futura ação de sequestro contra o chefe de Estado brasileiro.

A acusação não veio acompanhada de fotografias, documentos, gravações ou registros de inteligência capazes de oferecer lastro independente ao relato. Até o fechamento desta edição, o Palácio do Planalto não havia emitido comunicado sobre o tema. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República informou, por meio de sua assessoria, que não comenta alegações difundidas exclusivamente em redes sociais. O Ministério da Defesa adotou a mesma postura. A Polícia Federal, instituição responsável por investigar crimes contra a segurança nacional e a atuação de agentes estrangeiros hostis, não confirmou a abertura de qualquer procedimento preliminar para apurar os fatos narrados por Jeffrey Chiquini.

Procurada, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília classificou o relato como desprovido de fundamento. Em nota enviada à imprensa, a representação diplomática afirmou que os Estados Unidos respeitam integralmente a soberania da República Federativa do Brasil e repudiam qualquer alegação que sugira o contrário, acrescentando que as relações bilaterais se pautam pelo diálogo institucional e pelo respeito mútuo entre os dois governos democraticamente eleitos. O Pentágono não comentou declarações de candidatos estrangeiros.

O personagem central da denúncia possui ligação direta com investigações sensíveis que correm na Justiça brasileira. Jeffrey Chiquini é o advogado responsável pela defesa de Filipe Martins, ex assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência no governo de Jair Bolsonaro. Martins responde a acusações no Supremo Tribunal Federal por suposta participação na elaboração de minuta que pretendia submeter as instituições a um regime de exceção após a derrota eleitoral de 2022. Chiquini também representa judicialmente o tenente coronel do Exército Rodrigo Bezerra de Azevedo, apontado pela Polícia Federal como um dos integrantes do núcleo militar que monitorou e planejou a execução do presidente Lula, do vice presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A investigação, deflagrada em novembro de 2023, revelou a participação de militares da ativa e da reserva com formação em forças especiais, os denominados kids pretos, em ações de vigilância, planejamento tático e aquisição de armamento.

A nova acusação reproduz a estrutura central do caso que atingiu seu próprio cliente: um plano para retirar Lula da Presidência por meio de uma operação de força. A diferença agora é a atribuição da autoria a agentes estrangeiros, e não mais a militares brasileiros. A coincidência de narrativa foi notada por integrantes do Ministério Público Federal que acompanham os casos, mas nenhum deles quis se manifestar oficialmente antes que surjam elementos concretos que justifiquem a abertura de um novo procedimento investigativo.

A Delta Force, citada nominalmente na postagem, é uma unidade militar que integra o chamado tier one das forças especiais dos Estados Unidos, ao lado do Seal Team Six da Marinha. Sua estrutura, efetivo e localização são considerados segredo de Estado pelo governo norte americano, e suas missões no exterior são autorizadas exclusivamente pelo presidente dos Estados Unidos, com comunicação prévia aos líderes do Congresso, conforme estabelece o Título 50 do Código dos Estados Unidos. O envio de uma equipe clandestina a um país aliado e democrático para planejar o sequestro de seu presidente configuraria, se comprovado, uma violação direta da Carta da Organização das Nações Unidas e da Carta da Organização dos Estados Americanos, além de representar uma quebra de todos os acordos bilaterais de cooperação em defesa e segurança vigentes entre os dois países desde a Segunda Guerra Mundial.

Especialistas em direito internacional consultados para esta reportagem destacaram que um ato dessa natureza seria qualificado como crime de agressão segundo o Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário, e acionaria os mecanismos do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No plano doméstico, tipificaria os crimes de atentado contra a soberania nacional, conspiração e tentativa de sequestro de chefe de governo estrangeiro, previstos no Código Penal brasileiro. A gravidade jurídica da acusação, portanto, contrasta com a escassez de elementos probatórios apresentados por Jeffrey Chiquini, que se limitou a uma postagem com texto corrido e sem anexos.

A movimentação eleitoral do advogado adiciona outra camada de complexidade ao episódio. Em 15 de março deste ano, Jeffrey Chiquini oficializou sua pré candidatura a deputado federal pelo Paraná na legenda do partido Novo. A formalização da candidatura depende da convenção partidária estadual, cujo prazo final é 5 de setembro. Parlamentares experientes ouvidos reservadamente avaliam que a denúncia, mesmo sem comprovação, tem potencial para mobilizar um eleitorado sensível a discursos de soberania e resistência a interferências estrangeiras. O cálculo político, no entanto, esbarra no risco de desgaste caso a acusação seja desmentida de forma contundente pelos órgãos de investigação ou pelas representações diplomáticas.

O histórico das relações militares entre Brasil e Estados Unidos não registra precedentes de infiltração de forças de operações especiais com objetivos hostis contra a Presidência da República. Os programas de cooperação entre as Forças Armadas dos dois países envolvem intercâmbio de instrutores, exercícios combinados como a Operação CORE, treinamentos na selva amazônica e cursos de aperfeiçoamento em escolas militares norte americanas, sempre conduzidos com notificação às autoridades brasileiras e autorização do Congresso Nacional, quando exigida pela Constituição Federal.

A Agência Brasileira de Inteligência mantém, desde sua criação, um setor dedicado ao monitoramento de atividades de serviços de inteligência estrangeiros. Da mesma forma, o Comando de Defesa Cibernética do Exército e a Diretoria de Inteligência da Polícia Federal operam sistemas de varredura de comunicações e rastreamento de agentes externos. Uma operação da magnitude descrita por Jeffrey Chiquini exigiria a neutralização simultânea de todos esses sistemas, o ingresso de pessoal e equipamentos por fronteiras terrestres, aéreas ou marítimas, e a manutenção de casas seguras em centros urbanos com capacidade de vigilância sobre o Palácio da Alvorada e a Base Aérea de Brasília.

Nenhum indício desse aparato foi reportado por qualquer organismo de fiscalização até agora. O silêncio institucional não significa que a denúncia seja falsa ou verdadeira, mas a coloca na moldura que o jornalismo profissional reserva para declarações de agentes políticos desacompanhadas de provas: uma afirmação a ser verificada, jamais um fato consumado.

Até a publicação desta reportagem, o advogado e pré candidato não havia respondido aos pedidos de entrevista encaminhados por e mail e mensagem telefônica. O espaço segue aberto para que Jeffrey Chiquini apresente os elementos nos quais baseou sua declaração e detalhe as circunstâncias que o levaram a tornar público o alerta. A transparência sobre a origem da informação é crucial para que o debate ultrapasse as redes sociais e possa ser tratado com a seriedade que o tema exige nos canais institucionais competentes.

Fontes

UOL Notícias. Declaração do candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini. 9 de agosto de 2026.

Assessoria de Comunicação do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Resposta a questionamento da imprensa. 9 de agosto de 2026.

Assessoria de Imprensa da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Nota oficial à imprensa. 9 de agosto de 2026.

Polícia Federal. Assessoria de Comunicação Institucional. Retorno sobre questionamentos da reportagem. 9 de agosto de 2026.

Ministério da Defesa. Coordenação Geral de Comunicação Social. Resposta a questionamento da imprensa. 9 de agosto de 2026.

Supremo Tribunal Federal. Petição 12.100. Inquérito que investiga tentativa de golpe de Estado e plano de assassinato de autoridades. Andamento processual público.

Partido Novo. Diretório Estadual do Paraná. Registro de pré candidatura de Jeffrey Chiquini. Março de 2026.

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