A Arca de Noé foi encontrada e está “100% confirmada”, segundo cientistas
Radares acham anomalias na Formação Durupinar, mas origem da estrutura em forma de barco segue sem prova científica
Uma equipe internacional de pesquisadores retomou as investigações na Formação Durupinar, uma estrutura geológica de formato alongado localizada no leste da Turquia, a cerca de trinta quilômetros ao sul do Monte Ararat. Com aproximadamente 157 metros de comprimento, a formação é objeto de especulação há mais de seis décadas por sua semelhança com o casco de uma embarcação de grandes proporções, o que levou parte da comunidade científica e do público a associá-la à Arca de Noé descrita no Livro de Gênesis.
A nova fase de estudos, autorizada pelo governo turco e coordenada pelo arqueólogo Cenker Atila, da Universidade Sivas Cumhuriyet, em parceria com o projeto norte-americano Noah’s Ark Scans, mobilizou cerca de vinte pesquisadores e estudantes de cinco países. As atividades de campo tiveram início em 28 de junho de 2026 e se estenderam por aproximadamente noventa dias, encerrando-se em 11 de setembro. O objetivo declarado do projeto não é confirmar a narrativa bíblica, mas esclarecer a origem geológica da estrutura e verificar a possível existência de vestígios de atividade humana preservados em seu interior ou nas áreas adjacentes.
Para investigar o subsolo sem recorrer a escavações imediatas, a equipe empregou um conjunto de tecnologias geofísicas que inclui georradar, tomografia de resistividade elétrica e LiDAR. O georradar emite ondas eletromagnéticas capazes de penetrar o solo e registrar alterações nas camadas subterrâneas, produzindo imagens que revelam a disposição dos materiais abaixo da superfície. A tomografia de resistividade elétrica mede a capacidade do solo de conduzir corrente elétrica, permitindo distinguir diferentes tipos de sedimentos e identificar eventuais cavidades. O LiDAR, por sua vez, gerou mapas tridimensionais de alta precisão da superfície, auxiliando na delimitação da área e na escolha dos pontos mais promissores para perfuração.
Os levantamentos geofísicos iniciais identificaram anomalias subterrâneas com formas relativamente regulares, incluindo características que se cruzam em ângulos retos. De acordo com a Universidade Sivas Cumhuriyet, esses padrões levantaram a possibilidade de que cavidades ou divisões estruturais sobrevivam sob a superfície. Foram detectados o que os pesquisadores descrevem como túneis e espaços semelhantes a salas, além de uma concentração de matéria orgânica quase três vezes maior no interior da formação em comparação com o solo da área externa. As amostras que embasaram essa comparação foram coletadas em 2024 e reanalisadas durante a campanha de 2026.
A equipe também realizou perfurações de sondagem que atingiram profundidades de até dezoito metros. Durante um desses procedimentos, a broca de perfuração quebrou após encontrar uma camada de resistência consideravelmente superior à esperada para rochas sedimentares típicas da região. Os pesquisadores afirmaram que a dureza encontrada não seria compatível com a presença de rocha calcária ou sedimento natural, e sugeriram que o material poderia ser madeira petrificada. A hipótese, no entanto, não foi confirmada por análises independentes e carece de revisão por pares. Cerca de mil amostras de solo foram coletadas em cento e cinquenta pontos distintos e enviadas para análise em laboratórios universitários, onde passarão por datação por carbono e exames mineralógicos para determinar sua composição, idade e eventuais sinais de matéria orgânica preservada.
Outro elemento que alimentou as expectativas dos envolvidos foi a descoberta de fragmentos de cerâmica nas proximidades da formação, durante obras de infraestrutura viária na província de Ağrı. Segundo o pesquisador Faruk Kaya, as peças têm entre cinco mil e sete mil anos e indicam a presença de atividade humana na região durante o período Calcolítico. Para Kaya, a datação desses materiais alinha-se com as estimativas convencionais do período em que teria vivido o sobrevivente do dilúvio bíblico. A equipe também examina grandes blocos de pedra perfurados encontrados no povoado vizinho de Arzap, que, segundo os pesquisadores, podem ter sido utilizados como âncoras de arrasto em embarcações antigas, embora essa função não tenha sido confirmada.
Apesar do entusiasmo de parte dos pesquisadores, a comunidade geológica mantém reservas significativas quanto à interpretação dos dados. Estudos anteriores, incluindo uma análise publicada pelo geólogo Lorence Collins, da Universidade Estadual da Califórnia em Northridge, concluíram que a Formação Durupinar é uma estrutura geológica natural, composta pelo mesmo material das formações rochosas ao redor. Para esses especialistas, o formato semelhante a um barco é resultado de processos naturais de erosão e movimento de material ao longo de uma encosta instável, que contornou uma base de rocha mais dura. As explicações geológicas apontam para dobramento de rochas, argila, calcário e erosão como os fatores responsáveis pelo contorno incomum.
O próprio arqueólogo Cenker Atila, que lidera o projeto, adotou publicamente uma postura de cautela diante das alegações que circularam nas redes sociais. Em declaração divulgada em setembro de 2026, ele afirmou que as manifestações que davam como certo o achado da Arca de Noé eram enganosas. Segundo Atila, embora a equipe não tenha alcançado uma conclusão definitiva, os dados obtidos até o momento são surpreendentes e merecem ser examinados com rigor. Ele declarou que as análises do solo ainda estavam em andamento e que os resultados seriam publicados em forma de artigo científico e livro em breve.
A diretora de marketing do projeto, Lauren Witzke, por outro lado, adotou um tom mais assertivo em publicações nas redes sociais, afirmando que o estudo reescreveria currículos universitários e que o darwinismo seria destruído com as evidências obtidas no local. O fundador do Noah’s Ark Scans, Andrew Jones, chegou a declarar que o trabalho havia confirmado em cem por cento que o local era uma estrutura construída pelo ser humano, uma afirmação que não foi corroborada por estudos revisados por pares nem por evidências independentes.
Os resultados preliminares dos radares, segundo a equipe, não se assemelham à assinatura típica de uma massa rochosa homogênea. Os pesquisadores relataram a identificação de três camadas distintas abaixo da superfície da formação, com o que descrevem como câmaras, corredores, padrões organizados e túneis. Algumas estruturas internas aparentam atingir alturas superiores a doze metros. A equipe planeja utilizar um robô especialmente projetado, batizado de Gopher, para explorar as cavidades e túneis identificados pelas varreduras de radar. O equipamento, que será enviado ao interior da formação, é capaz de capturar imagens e coletar amostras em espaços que não podem ser acessados com segurança por seres humanos.
Enquanto isso, uma mapa histórico de 1587 voltou a circular entre os entusiastas da busca pela Arca. Criado pelo cartógrafo italiano Urbano Monte, o mapa contém uma pequena representação da embarcação bíblica repousando sobre as montanhas de Ararat, na região que corresponde à atual Turquia. O detalhe chamou a atenção porque a localização indicada coincide com a área onde se encontra a Formação Durupinar. O pesquisador independente Jimmy Corsetti observou que tanto a posição quanto as dimensões representadas no mapa são compatíveis com a estrutura turca. Historiadores lembram, no entanto, que a associação entre o Monte Ararat e a narrativa do dilúvio já estava consolidada na tradição cartográfica europeia muito antes da identificação da formação em 1959, e que a existência do mapa não constitui evidência física de que a arca tenha repousado naquele local específico.
A Formação Durupinar foi identificada pela primeira vez em 1959, quando o capitão turco İlhan Durupınar analisou fotografias aéreas da região e notou o contorno alongado e simétrico da estrutura. Nas décadas seguintes, o local atraiu expedicionários e pesquisadores de diversas origens. Uma das primeiras investidas ocorreu ainda nos anos 1950, com o uso de escavadeiras e dinamite, mas encontrou apenas rochas. Na década de 1980, o explorador Ron Wyatt retomou as investigações e capturou as primeiras imagens de radar do subsolo. Ainda assim, nenhuma pesquisa conseguiu apresentar evidências verificáveis de que a formação abrigue os restos de uma embarcação de madeira.
Os pesquisadores envolvidos no projeto atual reconhecem que a confirmação da hipótese depende da conclusão das análises laboratoriais das amostras coletadas. A datação por carbono dos materiais orgânicos será fundamental para determinar se há vestígios de madeira antiga no local e se esses vestígios poderiam estar relacionados a uma embarcação. Até o momento, não foram encontrados fragmentos identificáveis de madeira, e os resultados das análises não foram publicados em formato que permita verificação pela comunidade científica mais ampla. O arqueólogo Cenker Atila afirmou que as evidências definitivas devem ser conhecidas ao longo do inverno de 2026. Enquanto isso, a Formação Durupinar permanece como um objeto de estudo que oscila entre o fascínio popular e o ceticismo científico, sem que se tenha chegado a uma resposta conclusiva sobre sua verdadeira natureza.
Fontes consultadas:
RTP, Correio 24 Horas, CNN Brasil, Folha Vitória, Gazeta Express, Geo.tv, Daily Mail, NTV Haber, WION News, A Tarde, Times of India, Notícias Adventistas, Sözcü Gazetesi, CNN Indonésia, Habertürk, Detik, Disway, Beritasatu, Pulse.ng, Vesti.bg, Okezone News, Telemetro, Blikk, Israel Hayom, Newsweek, Türkiye Today, Correio Braziliense, Futura-Sciences, Akşam, Noticias Ambientales, NTV, Folha Vitória, Sözcü, Habertürk, Detik, Pulse.ng, Bol News, Diário do Pará, New York Post, Perfil, OE24, Gazeta Dita, Bild, Meganoticias.