Chega o “bebê mais velho do mundo”, de embrião congelado há mais de 31 anos
Thaddeus Daniel Pierce nasceu nos EUA a partir de embrião congelado em 1994; caso bate recorde histórico e mundial hoje.
Em uma manhã de sábado, 26 de julho de 2025, Lindsey Pierce deu à luz um menino saudável em um hospital de Ohio, nos Estados Unidos. O parto foi difícil, mas a mãe e o bebê passaram bem. O recém-nascido recebeu o nome de Thaddeus Daniel Pierce. Aos olhos de qualquer observador, tratava-se de um nascimento comum. A história por trás dele, no entanto, começa três décadas antes, em um laboratório de fertilização in vitro, e atravessa um período de armazenamento criogênico que nenhum outro embrião humano havia superado com um desfecho de vida.
Thaddeus se desenvolveu a partir de um embrião que permaneceu congelado por mais de 11 mil dias, o equivalente a mais de 30 anos e meio. O embrião foi criado em maio de 1994 e mantido em nitrogênio líquido a temperaturas próximas de 196 graus Celsius negativos até novembro de 2024, quando foi descongelado e transferido para o útero de Lindsey. A marca anterior pertencia aos gêmeos Lydia Ann e Timothy Ronald Ridgeway, nascidos em 2022 a partir de embriões congelados por 10.905 dias, ou 30 anos. Antes deles, o recorde era de um embrião armazenado por 27 anos. Thaddeus superou todas essas marcas.
A trajetória que resultou em seu nascimento teve início quando Linda Archerd, então com cerca de 30 anos, e seu primeiro marido tentavam engravidar havia seis anos sem sucesso. Em uma época em que a fertilização in vitro ainda era uma tecnologia relativamente nova e pouco compreendida pelo público, o casal decidiu recorrer ao procedimento. Do tratamento, realizado em maio de 1994, resultaram quatro embriões. Um deles foi transferido para o útero de Linda e deu origem a uma menina saudável, que nasceu em 1995. Os outros três foram criopreservados e mantidos em um tanque de armazenamento criogênico.
Linda desejava usar os embriões restantes para ter mais filhos. Chamava-os de “minhas três pequenas esperanças”. O casamento, porém, terminou em divórcio, e ela ficou com a custódia dos embriões. Com a chegada da menopausa, tornou-se impossível engravidar novamente. Ainda assim, Linda recusou-se a descartar os embriões ou doá-los anonimamente para pesquisa científica. Para ela, os embriões representavam material genético próprio e eram irmãos biológicos de sua filha. Durante anos, pagou cerca de mil dólares anuais pelo armazenamento, um valor que, somado ao longo de três décadas, ultrapassou 30 mil dólares.
A solução veio por meio de um programa de adoção de embriões. Trata-se de um tipo de doação em que tanto os doadores quanto os receptores têm voz ativa sobre o destino dos embriões, diferentemente da doação anônima tradicional. O processo é intermediado por agências, geralmente de orientação religiosa, que consideram o embrião uma vida humana em potencial. Linda, que é cristã, estabeleceu critérios para a família que receberia seus embriões: queria um casal casado, cristão, branco e residente nos Estados Unidos. Não desejava que os embriões fossem para fora do país.
Do outro lado, estavam Lindsey e Tim Pierce, de London, Ohio. O casal tentava engravidar havia sete anos sem sucesso. Tim tinha apenas cerca de três anos de idade quando os embriões que viriam a se tornar seu filho foram criados. Lindsey e Tim se inscreveram no programa Snowflakes, da Nightlight Christian Adoptions, uma agência que se dedica a encontrar famílias para embriões considerados de adoção mais difícil, seja pelo tempo prolongado de congelamento, pela qualidade ou por históricos médicos complexos. O programa Snowflakes foi pioneiro nesse tipo de adoção e já ajudou mais de 1.600 famílias a encontrar destinos para embriões congelados.
Os três embriões de Linda foram designados para o programa Open Hearts, uma subdivisão da agência voltada para embriões que permaneceram armazenados por longos períodos. Lindsey e Tim foram selecionados após passarem pelo processo de avaliação. “No começo ficamos completamente surpresos porque nunca tínhamos ouvido falar disso. O programa em si parecia algo saído de um filme de ficção científica”, contou Lindsey. Linda, por sua vez, avaliou que o casal atendia aos seus critérios e decidiu doar os embriões.
A transferência foi realizada pela clínica Rejoice Fertility, em Knoxville, Tennessee, liderada pelo Dr. John David Gordon, especialista em endocrinologia reprodutiva e infertilidade com quase 50 anos de experiência na área. A clínica se recusa a descartar embriões viáveis, não realiza testes genéticos pré-implantacionais e limita a quantidade de embriões criados por ciclo de fertilização in vitro. O próprio Dr. Gordon já havia supervisionado o recorde anterior, dos gêmeos Ridgeway, em 2022. A abordagem da clínica reflete uma filosofia de que todo embrião merece a chance de ser transferido e de se desenvolver.
Dos três embriões doados por Linda, um não sobreviveu ao processo de descongelamento. Os outros dois foram transferidos para o útero de Lindsey em 1º de novembro de 2024. Apenas um se implantou com sucesso, dando origem a Thaddeus. O processo de congelamento utilizado na década de 1990 era diferente do método de vitrificação adotado a partir dos anos 2000. Na técnica antiga, o congelamento era lento e havia risco de formação de cristais de gelo que poderiam danificar as células. Apesar disso, o embrião resistiu e se desenvolveu normalmente.
Lindsey descreveu o filho como “muito tranquilo” e disse que o casal está “maravilhado por ter esse bebê precioso”. Tim resumiu o sentimento de forma direta: “Ele tem a chance de viver, e nós temos a chance de simplesmente ter um bebê. Só acontece que ele tem mais de 30 anos.” A família não entrou no processo pensando em recordes, mas agora se adapta à atenção mundial. “Ele tem apenas algumas semanas de vida e já é conhecido no mundo todo. O que isso vai trazer para ele quando crescer?”, questionou Tim.
Thaddeus tem uma irmã biológica que nasceu em 1995, do mesmo lote de embriões criado em 1994. A mulher, hoje com 30 anos, é filha de Linda Archerd e mãe de uma menina de 10 anos. Quando Linda recebeu as primeiras fotos de Thaddeus, notou a semelhança. “A primeira coisa que percebi quando Lindsey me enviou as fotos foi o quanto ele se parece com a minha filha quando era bebê. Peguei meu álbum de fotos e comparei lado a lado, e não há dúvida de que são irmãos”, afirmou. Com isso, Thaddeus nasceu tio de uma menina de 10 anos.
O caso de Thaddeus joga luz sobre um cenário mais amplo. Estima-se que cerca de 1,5 milhão de embriões congelados estejam armazenados nos Estados Unidos, remanescentes de tratamentos de fertilização in vitro que produziram mais embriões do que os transferidos. Apenas uma fração desses embriões encontra destino por meio de doação ou adoção. Muitos permanecem em um limbo jurídico e ético, sem decisão clara sobre o que fazer com eles. Em 2024, a Suprema Corte do Alabama decidiu que embriões congelados têm status legal de crianças em ações de morte injusta, o que provocou o fechamento temporário de clínicas de fertilização no estado e acendeu um debate nacional sobre os limites da técnica.
Clínicas como a Rejoice Fertility e agências como a Nightlight argumentam que a solução para o acúmulo de embriões passa por dar a eles a oportunidade de se desenvolverem. “Cada embrião merece uma chance de vida, e o único embrião que não pode resultar em um bebê saudável é aquele que não recebe a oportunidade de ser transferido para uma paciente”, declarou o Dr. Gordon. Para Linda Archerd, o desfecho de sua decisão foi emocionante. “É um pouco surreal. É difícil acreditar que aconteceu. Sempre achei que era a coisa certa a fazer”, disse ela.
Fontes consultadas: MIT Technology Review, The Guardian, The Independent, Associated Press, ABC 6, The Daily Beast, Sky News, GZH, CNN Brasil, O Globo, Correio Braziliense, O Dia, RTBF, Nightlight Christian Adoptions, Rejoice Fertility, RTP, Guinness World Records.