Democratas assumem o controle do Congresso e impõem uma grande derrota a Trump
Democratas vencem Senado e Câmara em 2026, viram redutos republicanos e isolam Trump nos dois últimos anos do seu mandato
A onda democrata que varreu os Estados Unidos nas eleições de meio de mandato de 2026 não se limitou a uma simples alternância de poder. Ela representou um terremoto político que remodelou o mapa eleitoral americano, devolveu ao Partido Democrata o controle de ambas as casas do Congresso e impôs ao presidente Donald Trump a derrota mais contundente de sua carreira política. O resultado, consolidado nas primeiras horas da quarta-feira, 4 de novembro, ultrapassou as projeções mais otimistas da oposição e configurou um repúdio inequívoco à agenda presidencial, especialmente nos redutos que até então eram considerados fortalezas inexpugnáveis do republicanismo.
No Senado, a façanha democrata foi além do necessário para a maioria simples. Os democratas conquistaram 54 cadeiras, quatro acima das 51 exigidas, após virarem sete assentos que estavam sob domínio republicano. A Câmara dos Representantes seguiu o mesmo caminho: com a maioria de 218 assentos assegurada, a legenda superou a marca e chegou a pelo menos 224 deputados, com a possibilidade de ampliar ainda mais a vantagem à medida que a apuração avançava. O novo Congresso, que toma posse em 3 de janeiro de 2027, será palco de um governo dividido, no qual o poder legislativo deixará de ser um aliado automático da Casa Branca para se tornar um contrapeso ativo e, em muitos aspectos, um adversário declarado.
A dimensão histórica da vitória democrata se revela com clareza nas viradas em estados que há décadas não elegiam um senador ou governador do partido. No Texas, o deputado estadual James Talarico derrotou o procurador-geral republicano Ken Paxton, tornando-se o primeiro democrata eleito para o Senado pelo estado desde 1988. A vitória de Talarico não foi um caso isolado: no Kansas, o reverendo Adam Hamilton venceu o senador Roger Marshall, marcando a primeira conquista democrata para o Senado no estado em quase um século, desde 1932. Na Carolina do Sul, a pediatra Annie Andrews superou a senadora Darline Graham, irmã do falecido senador Lindsey Graham, e se tornou a primeira democrata a conquistar uma cadeira no Senado pelo estado desde 1998. A onda azul também atingiu Ohio, Iowa, Carolina do Norte e Maine, onde a ex-deputada estadual Troy Jackson derrotou a veterana senadora republicana Susan Collins, encerrando três décadas de domínio da republicana no estado.
O avanço democrata não se restringiu ao Legislativo federal. Nos governos estaduais, o partido conquistou vitórias que ampliam sua influência sobre políticas públicas e criam barreiras adicionais à agenda trumpista. No Texas, Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott, tornando-se a primeira democrata a comandar o estado desde Ann Richards, em 1990. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms fez história ao se tornar a primeira mulher negra eleita governadora nos Estados Unidos. Em Ohio, a Dra. Amy Acton venceu o empresário Vivek Ramaswamy, apoiado por Trump, e se tornou a primeira mulher a liderar o estado. Iowa também foi palco de virada democrata, com Rob Sand derrotando o republicano Zach Lahn. Com esses resultados, os democratas passaram a controlar a maioria dos governos estaduais pela primeira vez desde 2010, um feito que amplia significativamente seu poder de resistência à Casa Branca.
A reação de Donald Trump à derrota foi tão reveladora quanto o próprio resultado eleitoral. Em entrevistas concedidas na noite da eleição e na manhã seguinte, o presidente reconheceu formalmente a vitória democrata, algo que raramente fez em sua trajetória política. “Estou absolutamente disposto a aceitar esses resultados”, declarou ao The New York Times, acrescentando que pretendia trabalhar com a oposição. Em entrevista à Fox News, chegou a parabenizar os democratas: “Parabéns aos democratas. Eles fizeram um bom trabalho”. No entanto, a concessão veio acompanhada de ressalvas cuidadosamente calculadas. Trump recusou-se a assumir a responsabilidade pessoal pela derrota, afirmando que não estava no boletim de voto e que, se estivesse, os republicanos teriam vencido “de lavada”. Ele também admitiu que a impopular guerra contra o Irã contribuiu parcialmente para o resultado, mas insistiu que a decisão de iniciar o conflito foi correta e que os eleitores compreenderam sua importância.
Mais do que um simples reconhecimento de derrota, a postura de Trump sinalizou uma estratégia de confronto para os dois anos restantes de mandato. Ele deixou claro que usará seu poder de veto para bloquear a legislação democrata e forçar negociações. “Vetarei por alguns meses e então eles virão dizer: ‘Precisamos fazer um acordo'”, declarou, autodenominando-se “Sr. Veto”. A Casa Branca, por sua vez, tratou de transferir a culpa para os candidatos republicanos derrotados, com um funcionário anônimo afirmando que Trump “fez um trabalho melhor promovendo muitos dos candidatos do que os próprios candidatos”.
O controle democrata do Congresso abre um leque de ferramentas institucionais que serão usadas para constranger e investigar a administração. A partir de janeiro de 2027, os democratas assumirão a presidência de todos os comitês cruciais, com autoridade para convocar testemunhas, exigir documentos e realizar audiências de supervisão. O deputado Robert Garcia, que deverá presidir o Comitê de Supervisão da Câmara, já antecipou as prioridades: o que ele chama de “corrupção da família Trump”, os abusos do Departamento de Segurança Interna e do ICE, a corrupção corporativa e o escândalo envolvendo o falecido financista Jeffrey Epstein. A mensagem de Garcia à Casa Branca foi direta: “Contrate um advogado”.
Além das investigações, os democratas terão poder de veto sobre as indicações presidenciais para cargos no gabinete, embaixadas e tribunais federais, incluindo a Suprema Corte. Também controlarão o processo orçamentário, podendo usar a alavancagem dos gastos federais para escrutinar o Pentágono, a guerra contra o Irã e as prioridades da administração. A possibilidade de um novo processo de impeachment voltou a circular nos corredores do Capitólio, embora a condenação exija maioria de dois terços no Senado, um patamar que os democratas não alcançaram.
O que explica uma virada de proporções tão históricas? As pesquisas de boca de urna oferecem pistas claras. Mais de quatro em cada dez eleitores classificaram a situação de sua família como pior do que há dois anos, contra apenas dois em cada dez que a consideraram melhor. Cerca de três quartos dos eleitores se declararam insatisfeitos com a direção do país, e quase quatro em cada dez disseram estar com raiva. A economia foi o tema mais citado por 39% dos eleitores, seguida pelo estado da democracia, mencionado por 32%. A insatisfação com o custo de vida, impulsionada pela alta dos preços da gasolina, dos alimentos e dos cuidados de saúde, e a oposição à guerra contra o Irã foram os motores principais da rejeição ao presidente e ao Partido Republicano.
A onda democrata também revelou uma mudança profunda no eleitorado. Em comparação com 2024, houve oscilações de dois dígitos em direção aos democratas entre eleitores latinos, católicos e jovens com menos de 30 anos. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a margem democrata foi esmagadora: 72% a 25%. Até mesmo eleitores brancos da classe trabalhadora sem diploma universitário, um bloco crucial para Trump, migraram significativamente para a oposição nos estados que viraram. A conclusão dos analistas é que o “eleitor oculto” de Trump, que surpreendeu nas eleições anteriores, não se materializou desta vez; o que se viu foi um eleitorado enfurecido e determinado a punir o presidente nas urnas.
O resultado das midterms de 2026 não apenas impõe uma derrota histórica a Donald Trump, mas redefine o equilíbrio de poder em Washington e estabelece as bases para a batalha política que se travará nos próximos dois anos. O presidente manterá seu poder de veto e a autoridade para governar por decreto, mas terá de fazê-lo diante de um Congresso hostil, com comitês em guerra e uma oposição fortalecida e com mandato popular para confrontá-lo. A era de domínio republicano desimpedido chegou ao fim; o que se inicia é um período de governo dividido, confronto institucional e incerteza sobre os rumos da maior potência mundial.
Fontes consultadas: Agência Brasil, China Daily, Tagesschau, RTVE, The New York Times, RTBF, Anadolu Ajansı, Punchbowl News, Associated Press, The Washington Post, BBC, Reuters e Franceinfo.